Na África Selvagem (Mark Seal)

Muitos jovens quando decidem que querem ser biólogos, se sentem primariamente encantados pela vida marinha. Isso nunca aconteceu comigo. Não que um bando de baleias jubartes ou de grandes arraias seja feio, mas quando criança o que me deixava fascinada não eram os programas que abordavam o mundo azul. Os que me fascinavam eram os que mostravam as grandes planícies africanas e suas matizes de laranja. Então, é claro que não poderia deixar de ler o livro do Mark Seal, um livro que nos permite conhecer um pouco mais sobre a aventura que é ser um cinegrafista da vida selvagem, um livro que nos conta a história de uma mulher africana que morreu lutando pela preservação da biodiversidade do seu país.

No dia 13 de janeiro de 2006, Joan Root, cineasta da vida selvagem junto com o ex-marido Alan Root e ambientalista, foi assassinada em sua casa à beira do Lago Naivasha no Quênia com tiros de fuzis AK-47 aos 69 anos. Essa poderia ter sido mais uma notícia e parado por aí, mas Mark Seal enxergou aí a oportunidade de mostrar para o mundo quem foi Joan Root. A Joan que durante muito tempo foi companheira de profissão de seu ex-marido e aquela que após a separação encontrou na defesa da natureza sua razão de viver. O livro é baseado em entrevistas, depoimentos e nos diários e cartas que Joan escrevia. E está repleto de fatos sobre a vida de Joan, mas, além disso, de dados curiosos e fatos sobre a vida de outros grandes naturalistas. Só para citar alguns exemplos: você sabia que foi o casal Root que apresentou os gorilas-das-montanhas à zoóloga Dian Fossey? Ou que Stephen Jay Gould dizia que uma conversa com Joan acabava por render-lhe ótimos exemplos para serem utilizados em seus livros de divulgação científica?

Temos a oportunidade de saber como Alan e Joan se conheceram, como acabaram se casando e como fizeram de sua vida uma ode à natureza, não se importando com as intempéries e os perigos, sempre em busca das melhores tomadas. Dos dois é Alan que é o mais conhecido por seus filmes, mas foi Joan que sempre esteve nos bastidores e com todo o trabalho de gerenciamento e organização das expedições. Quando se separaram, Alan continuou com os documentários, Joan encontrou refúgio à beira do Lago Naivasha.

Junte-se à multidão ou então vá atrás do que quer. Conceda-se um tempo sozinho, para ter contato com quem você é… Concentre-se no poder do pensamento. Lembre-se de que o mundo é seu para fazer perguntas. Quem não se arrisca não cresce, só envelhece. Quando perceber que algumas idéias, crenças, relações e situações não funcionam mais para você, livre-se delas. Deixe os pensamentos negativos irem embora: encare-os como uma revoada de pássaros atravessando seu caminho. Observe-os voando até perder de vista e prossiga seu caminho. (Joan Root)”

Passamos então a acompanhar a história da mulher que de coadjuvante do marido, ainda que isso tenha sido resultado mais de sua natureza tímida do que por falta de contribuição nos trabalhos com Alan, descobriu um projeto de vida após o término de seu casamento. Lutar para salvar a biodiversidade africana. Principalmente o lago Naivasha, o lugar em que morava e que estava sendo ameaçado pelas plantações de flores. Quem iria imaginar que as rosas seriam as responsáveis por tanta destruição? As plantações acarretaram em uma migração desenfreada de desempregados para as margens do Naivasha, o que culminou com o estabelecimento de favelas, que em conjunto com as estufas à beira do lago e a pesca ilegal contribuíram para ameaçar esse frágil ecossistema e interromper o ciclo de vida do Naivasha. Em meio à tantas plantações, a casa de Joan era um baluarte de resistência, assim como sua dona, mesmo em meio a tantos riscos…

Pela preservação do Naivasha, Joan se viu envolvida em uma verdadeira guerra, doando todo seu tempo e dinheiro ao Quênia e à luta para salvar o lago. Uma batalha que lhe custou a vida. Uma batalha que Mark retraça com a propriedade de quem passou três anos no Quênia, em meio à documentos, cartas, memórias e entrevistas, fazendo um retrato de amor à natureza, de revelações pessoais, intrigas e corrupção. Para os amantes da vida selvagem, o livro é uma verdadeira lição de história da vida natural, sua conclusão é trágica, mas fica a lição de uma mulher que até o fim permaneceu lutando por seus ideais.


PS: Até a conclusão do livro os assassinos de Joan ainda não haviam sido presos e a perspectiva de que a justiça fosse feita não era das melhores. O lago Naivasha continua sua luta pela existência.

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