Flávia de Luce e o Mistério da Torta (Alan Bradley)

Sempre gostei de literatura policial, um bom romance investigativo pode ser deveras divertido se você se empenha na descoberta do meliante. Esse lado do meu gosto literário foi alimentado por vários títulos da Coleção Vagalume e outros tantos da Grande Rainha do Crime e mais recentemente por algumas aventuras do Sr. Holmes. Então, vejam bem quando me falaram sobre uma nova série de investigação na qual a mente dedutiva pertencia a uma garota de onze anos eu me interessei. Pensava comigo, que mesmo que a história fosse fraquinha, que eu conseguisse descobrir o assassino antes valeria a pena pela diversão. Diverti-me lendo Flávia de Luce e o Mistério da Torta, mas mais do que isso me surpreendi com a mente acurada de nossa pequena Holmes/Poirot e me impressionei com a sua paixão pela química. Deixe-me contar-lhe um pouco mais dessa série, quem sabe isso não te anima a lê-la também…

Estamos na Inglaterra de 1950 sob a regência do Rei George VI. Somos apresentados na mansão Buckshaw à excêntrica família de Luce. O pai é um viúvo taciturno, colecionador obsessivo de selos; Ophelia e Daphne são as irmãs mais velhas que vivem de implicância; Dogger o jardineiro esquisito em que parece faltar um parafuso; a Sra. Mullet a cozinheira cujos dotes culinários deixam muito a desejar e finalmente Flávia, a caçula apaixonada por química e mais especificamente por venenos que apresenta uma leve (se é que enfileirar ervilhas no prato o seja) tendência ao TOC (transtorno obsessivo compulsivo).

A garota teve seu encontro com a química por acaso e teve a sorte de poder contar com um laboratório super equipado em sua casa, laboratório herdado de um finado de Luce que adorava química tanto quanto ela:

“[…]meu pé escorregou e um livro pesado foi ao chão. Quando o peguei para alisar suas páginas amarrotadas, vi que ele estava repleto não apenas de palavras, mas de dúzias de desenhos também. Em alguns deles, mãos sem corpo despejavam líquidos em curiosos recipientes de vidro, que pareciam instrumentos musicais de outro mundo.”

A vida de Flávia em Buckshaw resumia-se a viver às voltas com compostos químicos e bolar planos para se vingar das irmãs. Mas, um dia um pássaro morto com um selo espetado no bico foi encontrado na soleira da porta de Buckshaw, acontecimento que deixou o pai muito nervoso. Mais tarde um estranho homem ruivo faz uma visita ao pai. E no outro dia cedo, um pedaço da torta de creme da Sra. Mullet está faltando (e ninguém em Buckshaw come sua torta) e um moribundo em seus últimos suspiros de vida estava no jardim. Um corpo encontrado por Flávia… o corpo do cara de cabelo vermelho. Flávia ao começar a suspeitar que seu pai possa estar envolvido no acontecimento começa a empreender sua própria busca pela verdade. Passamos então a acompanhá-la em sua aventura, a garota desconhece limites e faz de tudo e mais um pouco para dar cabo a sua investigação então, prepare-se para muitas cenas de ação.

Mas, não foi só o lado investigativo puro e simples que me cativou. A história de Bradley é repleta de referências históricas e literárias e eu tenho que confessar que eu adoro referências. Temos curiosidades filatélicas, muitas informações químicas (aliás, todas as deduções de Flávia originam-se de analogias químicas), evolutivas e várias referências literárias. Afinal, Daphne é uma leitora voraz ambulante e se ela andasse um pouco menos com Ophelia e tratasse nossa protagonista com um pouco mais de camaradagem eu poderia gostar dela, ela vive com um livro nas mãos e esquece até do que está ao seu redor por causa deles… É, rolou uma identificação. Mas, as referências literárias não ficam só por conta de Daphne, Flávia também é dona de um arcabouço literário invejável e suas observações sobre o hábito da irmã, apesar de algumas eu considerar mordazes demais em outras deixa a história bem divertida.

“Dafi estava lendo nos últimos tempos Pelham, de Bulwer-Lytton, algumas páginas todas as noites antes de dormir, como seu livro de cabeceira, e até terminá-lo nós provavelmente seríamos fustigadas diariamente na hora do desjejum com frases obscuras em um estilo de prosa tão rígido e inflexível quanto pôquer de salão”.

Tem como não gostar de uma garota de onze anos capaz de fazer observações como essa? Eu adorei conhecer Flávia, me encantei com seus conhecimentos químicos (ainda que eu preferisse que eles fossem biológicos) e acompanhei vorazmente o desenlace de sua investigação. Bradley soube criar uma protagonista carismática e observadora, e não deixou de lado os outros personagens do livro mesmo que travemos conhecimento com eles através de Flávia. É assim que aprendemos um pouco mais sobre o pai e que Dogger passa a fazer um pouco mais de sentido e até nos encantar em alguns momentos. Quem gosta de um romance policial e não tem preconceitos em aceitar que uma “garotinha” seja a mestre de cerimônias, Flávia de Luce e o Mistério da Torta não deixa nada a desejar aos romances mais adultos. Enfim, a série promete e espero que a Arx não demore muito para publicar o segundo volume, já estou com saudades da pequena cientista.

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7 Comentários

Arquivado em Lendo aleatoriamente, Resenhas da Núbia

7 Respostas para “Flávia de Luce e o Mistério da Torta (Alan Bradley)

  1. Pingback: quimica | Catadoc.com

  2. Ah eu também adorei esse livro, Flávia é mesmo muito cativante, e gostei demais desse fascínio dela pela química, muito legal 🙂
    Ansiosa para os próximos livros da série.
    estrelinhas coloridas…

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    • Nubia Esther

      Eu sabia que esse livro ia ganhar cinco estrelinhas a partir do momento que minhas anotações para as resenhas começaram a crescer vertiginosamente. Toda vez que isso ocorre é porque a história me cativou, tive que me segurar para não fazer dessa resenha um tratado sobre o livro… =P

      Também já estou na espera pelos próximos volumes.

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      • Ah mas eu adoro resenhas verborrágicas, ia adora ler a tua. Espero que não vire uma lenda a edição dos próximos volumes, tem vezes que até desanimo das séries por isso, mas o bom dessa é que o livro tem uma história bem fechada mesmo, assim não fica aquela coisa de ficar desesperado para saber a conclusão do mistério que só vem no próximo livro hehehehehe
        estrelinhas coloridas…

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