Azincourt (Bernard Cornwell)

“Os arqueiros eram os heróis de Hook. A Inglaterra, para Hook, não era protegida por homens vestindo armaduras brilhantes, montados em cavalos ajaezados, e sim por arqueiros”. 

A figura do arqueiro sempre foi mítica para os ingleses, durante todo o período medieval e antes do advento das armas de fogo, os arqueiros eram amplamente utilizados nas batalhas e chegavam a compor mais da metade do exército inglês. Ter um arqueiro em um exército no século XIV era praticamente uma exclusividade inglesa, já que para ser um bom atirador eram precisos anos de prática e em nenhum outro país o arco longo era tão difundido. Essa característica do exército inglês fez da Inglaterra nos séculos XIV e XV uma potência na Europa e tornou-se uma das unidades bélicas mais temidas, e com razão, os arqueiros eram capazes de fazer a guerra pender para os ingleses mesmo quando as condições numéricas eram desfavoráveis.

Emprestando novamente a figura do arqueiro, que já foi explorada na série A Busca do Graal, Cornwell faz uma releitura de uma das batalhas mais famosas da Guerra dos Cem Anos entre a Inglaterra e a França. A batalha de Azincourt, travada em 1415, em solo francês no dia de São Crispim. Azincourt ficou famosa, não pelos ganhos políticos ingleses (que foram bem ínfimos), mas sim pela disparidade numérica entre ingleses e franceses. Algumas fontes chegam a falar de 6 mil para 30 mil respectivamente. São os eventos que culminaram nessa batalha que nos são narrados em Azincourt, só que diferente de Shakespeare que também revisitou esse dia em sua obra Henrique V, Cornwell traz como protagonista um simples arqueiro, um tanto esquentado, com uma rixa familiar e com uma mira de dar inveja.

O arqueiro e guarda-da-caça Nicholas Hook foi enviado à Londres por seu senhor para conter uma rebelião de lolardos e lá, para evitar que uma moça fosse estuprada por um padre (cunhado de seu senhor), ele acaba batendo no homem e é declarado fora-da-lei. Hook vai então para Soissons servir como arqueiro ao duque de Borgonha que está em guerra contra o rei da França. Em Soissons ele conhece os Santos Crispim e Crispiniano, a noviça Melisande e presencia cenas de horror após a invasão francesa. Hook e Melisande escapam e são enviados para a Inglaterra, onde Hook é colocado a serviço de Sir John Cornewaille. A partir desse momento a história ganha personagens interessantes, Sir John um senhor justo e que defende todos os que lutam por ele, padre Cristopher e suas observações sarcásticas e o rei Henrique V e toda sua obstinação.

“O cerne escuro da barriga do arco era rígido e não cedia. Resistia a ser dobrado, ao passo que o alburno claro da espinha do arco não se importava em ser puxado numa curva. No entanto, como o cerne, ele queria se endireitar de novo, e possuía uma flexibilidade que liberada da pressão, chicoteava a madeira de volta à forma normal. De modo que a espinha flexível puxava e a barriga rígida empurrava, e assim a flecha longa voava.”

Com uma batalha que tinha tudo para ser favorável aos franceses, provavelmente os ânimos dos ingleses no pré-combate não eram dos melhores e Cornwell transparece isso em sua narrativa. Azincourt não foi uma vitória miraculosa, teve muito sangue, muito medo, muita força de vontade e muita tática (ou falta dela). Seus personagens como sempre são bem humanos, apesar de possuírem habilidades extraordinárias, não são super-heróis. Nick Hook é um exímio arqueiro, atira como poucos, mas sente medo como muitos, seu medo em alguns momentos beira a covardia e por isso mesmo ele é mais real aos olhos do leitor. É muito mais crível admitir a covardia, quando se está perante um exército descansado de milhares de homens com a morte lhe encarando face a face. Hookton é tão empático, que gostaria de uma trilogia ou série protagonizada por ele, infelizmente Azincourt é um livro único. Só resta o meu desejo para que Cornwell escreva outros livros protagonizados por arqueiros. Sim, tenho um pendor extremo pelas descrições de batalhas envolvendo o arco longo e as flechas com penas de ganso.

Fontes:

http://www.archers.org/default.asp?section=History&page=longbow

http://militaryhistory.about.com/od/smallarms/p/englongbow.htm

http://www.eyewitnesstohistory.com/agincourt.htm

http://www.britishbattles.com/100-years-war/agincourt.htm

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6 Comentários

Arquivado em Lendo aleatoriamente, Resenhas da Núbia

6 Respostas para “Azincourt (Bernard Cornwell)

  1. Gostei da resenha 😉
    Talvez você se interesse pela trilogia ‘A Busca do Graal’, também protagonizada por um arqueiro (Thomas de Hookton). Essa trilogia tem batalhas também antológicas ocorridas durante a Guerra dos Cem Anos. Tenho preferência por outras séries do Cornwell, mas essa com certeza vale a pena para quem gosta do gênero. A descrição do uso do arco por Thomas é espantosa, visceral, e como toda batalha descrita por Cornwell, faz você se sentir no cerne da ação.

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    • Nubia Esther

      Oi Amilton, fico feliz que tenha gostado. Já li a trilogia do Thomas, gostei muito da trilogia, apesar de ainda ter como favorita a trilogia do Artur. Gosto muito da descrição do uso do arco que Cornwell faz em seus livros é de tirar a respiração em alguns momentos. Agora tenho que começar a ler as Crônicas Saxônicas e prosseguir com as leituras dos Sharpes. 😉

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      • Ah, você já leu ela, legal. Eu também tenho como favorita a do Artur (dificil supera-la), mas gostei bastante das Crônicas Saxônicas também. Sharpe, a Mari já me incitou bastante a começar, mas estou com tantos livros na frente desta série que nem me digno a dizer que irei le-la em breve…hehe 😉

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