A Travessia de Caleb (Geraldine Brooks)

Caleb Cheeshahteaumauk da tribo wôpanâak da ilha Noepe (atual Martha’s Vineyard, Massachusetts), foi o primeiro indígena a se formar na Universidade de Harvard em 1665. Os registros desse marco histórico e os detalhes de seu acesso à universidade e sua vida de estudante são escassos, mas bastaram algumas informações fragmentadas para inspirarem Geraldine Brooks a recontar a saga de Caleb.

“Suponho que precise narrar a minha vida, o meu papel na travessia de Caleb de seu mundo para o meu, e o que fluiu a partir daí.”

Para narrar esta história, Brooks nos dá Bethia, que nos conta em uma narrativa por vezes errante entre os eventos passados e presentes, todo seu relacionamento com o jovem wampanoag e todos os acontecimentos decorrentes de sua “intromissão” no mundo do garoto. Neta do fundador da comunidade inglesa da ilha Noepe (Great Harbor) e filha do pastor local, Bethia sempre teve um espírito independente e um pendor para os estudos, que naquela época eram restritos aos homens. Costume que não a impediu de aprender às escondidas e não somente os estudos clássicos que seu irmão tinha, mas também a língua dos nativos que o pai estudava para assim ter sucesso na conversão dos indígenas. Ao lhe proibirem o estudo formal, Bethia passou a utilizar a ilha como sua fonte de aprendizado e em suas andanças solitárias deparou-se com o garoto Cheeshahteaumauk. Começa então uma relação de amizade entre a garota e o jovem wampanoag. É assim que Bethia torna-se Olhos de Tormenta e Cheeshahteaumauk, Caleb. Brooks coloca a amizade como força motriz para todos os acontecimentos vindouros, pois se com ela Bethia passa a conhecer mais sobre os wampanoags e admirar sua cultura é através dela que ela modifica o mundo de Caleb e lhe dá vislumbres do que o conhecimento fornecido pelos forasteiros poderia lhe oferecer.

Mais do que a travessia solitária de um jovem, a obra traz reflexões políticas, religiosas e sociológicas. A formação da sociedade americana no século XVI e a colonização dos moradores nativos, a imposição da cultura inglesa em detrimento dos costumes considerados bárbaros e o trabalho massivo para converter os indígenas ao calvinismo geraram conflitos físicos e espirituais que não são esquecidos pela autora. Brooks utilizou as informações históricas fragmentadas muito bem. Construiu com maestria uma história de confronto de culturas e da luta pelo direito à educação não somente para todos os credos e raças, mas também para todos os sexos. Com Bethia como narradora, o romance ganhou uma nova perspectiva, pois ainda que a travessia principal caiba à Caleb, temos muito sobre Bethia também. Seu espírito incauto e seu desejo ardente por conhecimento, não só para ela, mas para todos que o desejem, transparecem ao longo de toda a narrativa. O texto de Brooks é poético e exprime o cuidadoso trabalho de investigação histórica feito pela autora. Enfim, esta não é a verdadeira história de Caleb Cheeshahteaumauk, mas ela faz jus à memória desse jovem wampanoag e dos que depois dele se aventuraram em um mundo novo, sem esquecer, contudo, de suas raízes.

Obra publicada no Brasil pela Editora Nova Fronteira:

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