Extraordinário (R.J. Palacio)

Extraordinário capa revisao 03

August Pullman, ou simplesmente Auggie, nasceu com uma síndrome genética que provocou uma deformidade facial severa. Uma condição acompanhada de visitas a médicos e cirurgias que durante muito tempo lhe impediram de frequentar uma escola como as outras crianças de sua idade. Mas, agora isso irá mudar, os pais de Auggie acham que é chegado o momento dele começar a ter outras experiências e é assim que agora o garoto se prepara para cursar o 5° ano em uma escola. Além do medo do desconhecido, novas dificuldades esperam Auggie, afinal ele terá que provar a todos que a despeito de sua aparência ele é um garoto que merece ser tratado igual aos outros.

Ainda que muitas vezes mascarado ou bem sutil a prática do bullying escolar é amplamente difundida e vem sendo tratada na literatura nas mais diversas formas. Seja com uma visão otimista, de superação, enfrentamento das dificuldades, muitas vezes com uma mudança de atitude do algoz, ou com uma visão mais trágica, na qual a prática acaba funcionando como agente catalisador de atitudes temerárias que frequentemente acabam terminando em catástrofes. Em Extraordinário, Palacio optou pela primeira alternativa, mas fugindo da moda dos livros juvenis, YA ou NA, ela propõe com seu protagonista, uma visão mais pueril, mas cruel, dessa atitude. As agruras, dificuldades, perdas e progressos enfrentados por um garotinho com uma deformação facial para sobreviver e deixar sua marca. Uma batalha que precisa começar em suas próprias atitudes e isso fica claro pela forma como Auggie é representado no início da história. Um garoto bem dependente dos pais, que se esconde atrás de birras e chorumelas, que não aceita que as coisas não aconteçam da forma que ele quer, que não encara nenhum desconhecido nos olhos, preferindo se atentar aos sapatos que o interlocutor está usando. Alguns podem até reclamar que isso é ruim, afinal, fica difícil desenvolver empatia por um personagem tão “chato”, que é impossível desse jeito sentir dó do Auggie pelas coisas que ele tem que enfrentar, já que ele é o primeiro a desfazer-se em lágrimas e reclamações. Eu vejo aí a oportunidade de um personagem mais forte construir-se em frente aos nossos olhos, mostrando-se não digno de comiseração, mas de direito à voz como qualquer outra pessoa. Não é dó que Auggie quer inspirar, é orgulho.

Via, irmã de Auggie, também tem a oportunidade de contar seu lado da história. A falta de atenção dos pais para com ela por causa das atenções exigidas pelo irmão e o fato dela entender (ou pelo menos esforçar-se para) e não se ressentir disso. O ponto de vista da garota traz implicações interessantes, como a primeira vez que enxergou Auggie como as outras pessoas o viam, suas dúvidas sobre como ele realmente se sente com tudo isso e os sentimentos conflituosos de sempre ter sido identificada como a garota que ter um irmão deformado. Os sentimentos de Via, suas apreensões, receios e desejos trazem a tona as dificuldades enfrentadas pelo núcleo familiar, afinal, nem tudo se resolve com amor incondicional (e nem sempre é fácil dialogar diretamente sobre tudo) e essas experiências acabam definindo, quer queira ou não, muitas das escolhas futuras dos envolvidos e com Via não é diferente.

Além de Auggie e Via outros quatro narradores dividem a tarefa de contar essa história. Alguns aparecem mais vezes e outros só nos dão pequenos vislumbres de seus pensamentos. Mas, o mais legal é que por ter tantos narradores, com diferentes pontos de vista e estilos narrativos diversos e bem marcados, a história acabou ficando mais completa. Auggie é o protagonista, mas na sua história há espaço para que conheçamos mais a fundo as pessoas que se relacionam com ele.

Com uma narrativa leve, repleta de citações desde Star Wars até Guerra e Paz e com um otimismo que muitos podem até taxar de irreal, mas que ora bolas é a prerrogativa dos romances, Palacio traz uma bela história de superação, que emociona sem ser piegas ou cair na autoajuda.

“não, não é tudo um acaso. se fosse, o universo nos abandonaria à própria sorte. e o universo não faz isso. ele cuida das suas criações mais frágeis de formas que não vemos. como com pais que amam cegamente. e uma irmã mais velha que se sente culpada por ser humana com relação a você. e um garotinho de voz grave que perdeu os amigos por sua causa. e até uma garota de cabelo rosa que carrega sua foto na carteira. talvez seja uma loteria, mas o universo deixa tudo certo no final. o universo cuida de todos os seus pássaros.” 

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Arquivado em Lendo aleatoriamente, Resenhas da Núbia

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