À Sombra das Espadas (Kamran Pasha)

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Kamran Pasha, conhecido por seus roteiros de séries e filmes, acabou enveredando pela literatura por causa de uma tragédia e uma casualidade. Influenciado pelos ataques de 11 de setembro, Pasha concebeu À Sombra das Espadas como um roteiro cinematográfico, mas acabou sendo precedido nas telonas por Ridley Scott com Cruzada e o roteiro acabou transformado em romance.

Pasha tinha como objetivo ao escrever essa história não apenas dar vida às personalidades e aos acontecimentos históricos, mas também motivar uma reflexão sobre as lições que podemos tirar dos eventos históricos, em especial das Cruzadas, a guerra santa perpetrada pela intolerância religiosa e cultural. E para isso ele recheou seu texto de teologia e filosofia, mas acabou fazendo-o em demasia, e confesso que em alguns momentos fiquei entediada. Apesar disso, foi uma escolha acertada para colocar em discussão os conflitos religiosos que perduram até hoje.

Em À Sombra das Espadas, os eventos da 3° Cruzada são recontados do ponto de vista muçulmano. A história tem início com a vitória do lendário Saladino sobre os francos e a soberania do líder muçulmano sobre a Cidade Sagrada. A Segunda Cruzada chegava ao fim e durante esse período, Saladino tentou promover a paz em Jerusalém com árabes, judeus e cristãos vivendo sob a proteção de seu sultanato. Mas essa frágil pacificidade fica ameaçada quando o jovem herdeiro da coroa britânica, Ricardo Coração de Leão, chega decidido a empreender a 3° cruzada e conquistar Jerusalém.

“Desolado, lastimável, envolto no silêncio opressivo que se segue ao fim de cada época da história da humanidade. O sultão conhecia bem aquele silêncio. Era a mesma mortalha que pairara sobre cada um dos palácios nos quais ele havia entrado como conquistador, de Damasco ao califado fatímida no Cairo. Saladino era um vazio que, ao passar, silenciava os suspiros finais de uma civilização decadente, substituindo-os pelos choros recém-nascidos da era seguinte.”

“Alguém – ele não se lembrava quem – uma vez lhe disse que Deus gostava de ironias. Talvez a Divindade achasse graça na ironia daquela tragédia que manchava o início de sua missão sagrada. (…) Mas de uma coisa Ricardo tinha certeza. Seu destino não seria mudado por mortes nem desastres. (…) Quando Ricardo Coração de Leão estivesse diante de Saladino no campo de batalha, o mundo finalmente viria a conhecer a verdadeira natureza de Deus e do homem.”

O islamismo e o cristianismo entram novamente em guerra, mas em meio às batalhas e carnificinas, Pasha também reserva um espaço para o romance, com a inclusão da judia Miriam.  A moça é sobrinha do principal conselheiro de Saladino e tem um passado duramente marcado pelas agruras das guerras santas.  É dona de uma personalidade marcante e opinião firme e acaba despertando o amor de Saladino, mas Ricardo, ao conhecê-la também fica interessado e ao ficar entre os dois homens mais poderosos de seu tempo, Miriam acaba envolvida em conspirações, traições e espionagem.

A trama criada por Pasha é inovadora por recontar um momento histórico sob um ponto de vista pouco divulgado no ocidente. Estamos acostumados a acompanhar esses eventos históricos pela ótica ocidental, e ter um vislumbre do outro lado foi um exercício interessante. O autor também acertou na forma como retratou Saladino e Ricardo. O muçulmano não é retratado apenas como o líder forte e honrado como é conhecido até hoje, Pasha recorre à licença poética, pede desculpas aos muçulmanos, mas não deixa de mostrar um Saladino destemido, mas temeroso, honrado, mas passível de erros. Por outro lado, à Ricardo, frequentemente enaltecido, cabe o papel de vilão, mas um vilão que em alguns momentos é até carismático e se em outros falta simpatia e sobra cretinice, não podemos negar, ou deixar de admirar (os que gostam de descrições bélicas) sua mente estrategista. Enfim, Pasha criou em À Sombra das Espadas uma história democrática. A obra tem tudo para agradar os que gostam de romance, sem deixar de lado os que curtem os romances históricos pelas batalhas e ardis. Isso tudo sem deixar de lado o tom reflexivo tão desejado pelo autor.

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3 Comentários

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3 Respostas para “À Sombra das Espadas (Kamran Pasha)

  1. Ceinwyn

    Sobre esse momento, e também sob a perspectiva muçulmana, tem “O livro de Saladino”, do Tariq Ali. Muito bom, recomendo. Inclusive com detalhes inesperados sobre uma corte islâmica, como homossexualismo, eunuco tendo de alguma forma casos com concubinas… o Ricardo quase não aparece, mas quando é mencionado é como finalmente alguém honrado entre os cristãos. Vale a leitura. O detalhe do romance me atraiu menos pra esse livro, mas quem sabe o resto não compensa :p

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    • Nubia Esther

      O romance suaviza um pouco a densidade tão característica dos romances históricos, mas como ele não deixou de lado a parte histórica e as batalhas acaba compensando a leitura mesmo que o romance não seja um atrativo.

      Não conhecia este outro livro, fui lá no skoob dar uma conferida e gostei muito da sinopse. Vou deixar marcado aqui para quem sabe no futuro lê-lo. Valeu pela dica! 😉

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  2. Gladys Sena

    Não conhecia esse livro
    Gostei da resenha.

    Te espero lá no meu cantinho, =D
    http://meuhobbyliterario.blogspot.com.br/

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