Pequenas Grandes Mentiras (Liane Moriarty)

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Durante uma festa de pais de alunos da Escola Pública de Pirriwee, alguém cai da varanda da escola e morre. Eis o evento chave no qual Moriarty apoia toda a trama de Pequenas Grandes Mentiras. Utilizando um recurso muito comum em algumas séries televisivas procedurais, ela dá um vislumbre do que ocorreu, sem entregar informações cruciais (quem é a vítima?), e retrocede no tempo para ir mostrando aos poucos os eventos que culminaram no fatídico acontecimento.

Aqui, voltamos seis meses no tempo. É início das aulas na Escola Pública de Pirriwee e aos poucos somos apresentados à enorme quantidade de personagens, o que pode até confundir num primeiro momento, mas que Moriarty, com sua narrativa sob múltiplos pontos de vista, logo consegue deixá-los íntimos ao leitor. E especialmente, ela deixa o leitor bem próximo daquelas que poderiam ser consideradas as protagonistas dessa história: Madeline, Celeste e Jane.

Madeline é aquela pessoa que tem todos os elementos para você não gostar muito dela logo de cara: seu pendor por futilidades (que ela mesmo admite), sua tendência a criar tempestades com copos d’água e sua prontidão para se vingar, mesmo quando o assunto não tem nada a ver com ela, acho que podemos acrescentar aqui também, sua tendência a meter o bedelho onde não é chamada. Mas, ao mesmo tempo, toda essa exuberância em viver, em não levar “patada” para casa, em estar disponível para os amigos são qualidades cativantes. Ela também é uma mãe de primeira e faz tudo por seus filhos, mesmo quando a mais velha (filha do primeiro casamento) está determinada a ir morar com o pai e a jovem madrasta. O pai que quando a menina nasceu, fez as malas e foi embora. O pai que decidiu voltar e de repente se tornar o progenitor exemplar e com o qual Madeline ainda terá que ter mais contato do que acharia ser saudável, já que a filha do ex-marido com a nova mulher estará na mesma turma de jardim de infância de sua filha caçula. Não é difícil entender o seu lado e torcer por ela em muitos momentos dessa história.

Madelime é muito amiga de Celeste. Celeste, a magra, linda, rica, mãe de gêmeos e com um casamento perfeito demais para ser verdade. E ambas, conhecem Jane no dia da orientação para o jardim de infância. Jane é uma jovem mãe solteira, recém-chegada à Pirriwee com seu filho Ziggy. Celeste e Jane têm filhos que estão entrando agora para a escola pública de Pirriwee, mas Madeline, já tem anos de prática com a “política escolar”, na verdade, a política dos pais. E ela não é nem um pouco inclusiva, tolerante e compassiva.

E, quando Ziggy, é acusado de cometer bullying no dia da orientação. Pronto, está formada a batalha: de um lado Madeline, Celeste e Jane e do outro Renata (a mãe da garota machucada) e suas seguidoras. E as tensões só vão aumentando conforme o ano letivo avança. Desde o início, Moriarty vem brincando com mal-entendido, com o “quem conta sempre aumenta um ponto”, com o “telefone sem fio” que transformam um simples acontecimento na razão para se começar uma guerra. Na maior parte das vezes no parquinho ou na sala da diretoria, mas uma guerra mesmo assim. Todos os fatos que nos são apresentados são suposições, nada é confirmado antes da hora, e Moriarty conseguiu perspicazmente lançar as bombas nos momentos certos.

Cada capítulo (ou quase todos eles) é encerrado com declarações de pais de alunos e do detetive responsável pela investigação do incidente. A tarefa é ir montando o quebra-cabeças conforme a narrativa evolui, para tentar descobrir quem foi a vítima do incidente, e claro, descobrir o motivo e se realmente foi um crime, quem é o culpado. Não entregar de cara quem foi que morreu foi uma ótima sacada de Moriarty. Você simplesmente não quer (na verdade não consegue) largar o livro, porque as dúvidas vão só aumentando, as teorias vão surgindo e você não vê a hora de confirma-las ou ter que abandoná-las. E, quando você acha que o quadro pintado já está completo, lá vem mais uma revelação bombástica.

No fim, Pequenas Grandes Mentiras é mais do que um caso de bullying infantil e o auê que isso causou entre os pais da escola Pirriwee. É uma trama sobre o cotidiano familiar, sobre as pequenas mentiras utilizadas para esconder grandes segredos, sobre os pequenos eventos diários nos quais Moriarty parece ser mestre em discorrer de forma tão eloquente e cativante. É drama, mas também tem espaço para o sarcasmo e para a trama investigativa. Definitivamente, Moriarty entra para o rol de autores para se acompanhar futuros trabalhos. Tive que passar O Segredo do Meu Marido para o topo da pilha de futuras leituras e espero que a Intrínseca não demore para publicar outros livros seus.

“Queria lhe dizer que sabia todas as pequenas mentiras perfeitas que ele contara a si mesmo durante todos aqueles anos, porque ela contara as mesmas para si. Queria envolver as mãos trêmulas dele com as suas e dizer: “Eu entendo””. (Página 397)

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