O Mapa de Vidro (S. E. Grove)

mapa de vidro

“Tornou-se evidente que, em um momento terrível, as várias partes do mundo se separaram. Elas se desprenderam do tempo. Girando livremente em diferentes direções, cada pedaço do mundo fora lançado em uma era diferente. Quando aquele momento passou, os pedaços ficaram espalhados, tão perto espacialmente uns dos outros como sempre estiveram, mas irremediavelmente separados pelo tempo. Ninguém sabia a idade real do mundo, ou qual das eras causara a catástrofe. O mundo como o conhecíamos havia se partido, e um novo mundo tomara seu lugar. Nós chamamos esse momento de Grande Ruptura. ” (Página 18)

E é assim que tem início o mundo imaginado por S. E. Grove. Partindo do mundo real, conhecido por todos nós, ela moldou um mundo fantástico, no qual ficção e fatos históricos caminham lado a lado e fornecem um arcabouço bastante robusto e muito bem trabalhado por ela. Para quem preza pelos detalhes, a trama é um prato cheio, e às vezes até beira a demasia. Política, história, geografia, sociologia e religião são explorados ao máximo, o que poderia até ter tornado a história cansativa, mas a trama é tão bem conduzida e os personagens interessantes que acabam compensando a abundância de informações em alguns momentos.

Na Terra de Grove, o mundo virou uma colcha de retalhos temporais. É preciso reaprender e redescobrir esse mundo e mais do que nunca os mapas são ferramentas essenciais e os mestres cartógrafos desenvolveram inúmeras técnicas numa mistura de ciência e magia para armazenar e traduzir essas informações, em grande parte alimentadas pelos exploradores do desconhecido. Sophia Tims, moradora da Boston de 1891, é uma garota de treze anos que nasceu em uma família de exploradores e cartógrafos. Oito anos atrás seus pais partiram em uma missão de exploração e nunca mais retornaram, desde então ela vive com seu tio Shadrack, considerado o cartógrafo mais brilhante de Novo Ocidente. Ele também é historiador, geógrafo, explorador, professor na universidade e consultor particular para exploradores e funcionários do governo. Shadrack sempre teve planos de partir em uma missão de resgate (juntamente com Sophia quando ela fosse mais velha) em busca dos pais da garota. Contudo, com a aprovação de uma lei que pretende fechar as fronteiras de seu país (Novo Ocidente) e acabar com as explorações, preparar a sobrinha se tornou essencial e urgente. Mas, ele é sequestrado por pessoas que estão atrás de um poderoso artefato. E agora, cabe a Sophia, auxiliada por Theo, um garoto estrangeiro das Terras Baldias à oeste, embarcar em uma missão de resgate que a coloca em direção às Terras Baldias. Homens de areia, exploradores, piratas, cientistas, artesãos, seres mitológicos e eras e eras e mais eras são algumas das coisas que Sophia encontra durante a sua jornada. E o fato do desbravar dessa história ser pelos olhos de Sophia, a garota que nunca saíra de Boston, foi providencial para que, ao desbravarmos esse mundo em sua companhia, aa sensação de estranheza e fascinação fosse compartilhada. Isso acaba deixando algumas diferenças entre o mundo encontrado nas Terras Baldias e as ideias pré-concebidas espalhadas por Novo Ocidente sobre o lugar, bem marcantes. Como o fato da ciência ser mais desenvolvida nas Terras Baldias, que nos são apresentadas no início como uma região extremamente selvagem em contraponto à Novo Ocidente. Entretanto, não é em Novo Ocidente que novos conhecimentos são descobertos e ensinados, mas sim nas Terras Baldias, e promover e deixar clara essa quebra de preconceitos foi uma jogada muito bem pensada.

Além da narrativa propriamente dita, Grove também soube utilizar muito bem dois outros artifícios: os mapas de Shadrack que tornaram mais fácil nos situar espacialmente (e ei é uma trilogia em que eles – os mapas – são as estrelas, uma amostra não poderia ficar de fora); e a abertura de cada capítulo com excertos de obras escritas por Shadrack, Veressa, Martin, de decretos, poemas, canções, mitos, …, que contribuíram para lançar luz sobre esse estranho mundo criado pela Grande Ruptura.

No fim, Grove nos proporciona uma viagem por um mundo conhecido, mas totalmente novo e em constante processo de mudança. Só a tarefa de desbravar esse mundo novo, já garante aventura suficiente, mas, além disso, ela incluiu nele personagens cativantes: Sophia que aos poucos nos cativa e garante nossa empatia para sua causa; Theo e seu passado misterioso; Shadrack e todo seu amor pelos mapas e a dedicação na criação da sobrinha; Veressa e Martin e tudo o que há para descobrir a aprender nas Terras Baldias; vovó Pearl e toda sua sabedoria; e Burr e Calixta e todas as suas intrepidezes de piratas. O mais legal é que esse é só o primeiro livro e há ainda muitos lugares para se conhecer.

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