Sharpe em Trafalgar (Bernard Cornwell)

Atenção, esta resenha trata sobre os acontecimentos do quarto livro (ordem cronológica) da série As Aventuras de um Soldado nas Guerras Napoleônicas. Por isso, pode conter spoilers, revelando parte do conteúdo dos livros anteriores. Para saber o que eu e a Mari achamos de outros livros da série, confira os links no final desta resenha.

Sharpe-em-Trafalgar

“(…) Sharpe fitou a silhueta negra da torre e mais uma vez desejou que não estivesse partindo. Gostara da Índia, que se revelara um paraíso para guerreiros, príncipes, mercenários e aventureiros. Ali Sharpe encontrara riqueza, lutara em suas colinas e fortalezas antigas, e fora promovido. Na Índia deixava amigos e amantes, e alguns inimigos em suas sepulturas. E estava trocando este lugar pelo quê? Pela Grã-Bretanha, onde ninguém o esperava, e em cujas colinas não cavalgavam aventureiros, e onde tiranos não espreitavam por trás de ameias vermelhas. ” (Página 44)

Depois de exemplares descrições de batalhas em terra, Cornwell pede licença neste para se embrenhar pelos mares e trazer uma batalha naval para o foco da narrativa. Após flechas, arcos, bestas, espadas, escudos, mosquetes e canhões, é chegada a vez dos navios e todo o seu poderio bélico de suas bordadas de artilharia. Depois da batalha da Fortaleza de Gawilghur, o alferes Richard Sharpe foi efetivamente transferido para o batalhão de fuzileiros, o que também significa que ele deixará a Índia, uma viagem bem longa por mar até a Grã-Bretanha. Então, Cornwell que não é bobo, deu um jeitinho de colocar Sharpe em rota por Trafalgar na época da famosa batalha naval, e a sorte de Sharpe que sempre o coloca no lugar certo mesmo nas horas mais impróprias, lhe garante um lugar à bordo de um importante vaso de guerra de setenta e quatro canhões. Junta-se a isso alguns personagens de opiniões bastante contundentes, um comandante que não se apega a títulos e prefere admirar a bravura de um bom soldado à patentes, alguns traidores e a presença ilustre do almirante Horatio Nelson e temos todos os elementos que tornaram Sharpe em Trafalgar um leitura bastante interessante.

O comboio anual de navios britânicos está prestes a partir de Bombaim em direção à Grã-Bretanha. Mas, antes de Sharpe embarcar no Calliope, ele precisa resolver alguns negócios pendentes, afinal, ninguém tenta passar a perna em Richard Sharpe e permanece incólume. E, para sorte de Sharpe, mais do que um acerto de contas, tal ato faz com ele caia nas graças do comandante da Marinha Joel Chase. Cornwell garante assim o estabelecimento de uma amizade que permitirá a reviravolta na situação precária na qual o alferes se encontrará pouco tempo depois. Isso porque o Calliope trouxe tanta sorte quanto azar à Sharpe. No Calliope ele caiu de amores por Lady Grace, a esposa de um figurão político insuportável, e foi “vendido”, pelo capitão do navio, juntamente com toda a tripulação e o tesouro que carregam, para piratas franceses da nau Revenant. E agora, tudo o que Sharpe quer é evitar que suas perdas materiais sejam grandes, proteger Lady Grace e se vingar. E uma ajuda do comandante Joel Chase vem bem a calhar. Chase resgata o Calliope das mãos dos franceses, traz Sharpe para bordo do Pucelle e parte em perseguição ao Revenant. Uma perseguição que acaba indo parar em uma batalha náutica! O Revenant se junta às esquadras francesa e espanhola e o Pucelle se junta à britânica sob o comando da nau capitânia de Nelson.

("The Battle of Trafalgar" por Clarkson Stanfield)

“The Battle of Trafalgar” por Clarkson Stanfield

Com a ausência do principal nêmesis de Sharpe, Haskewill (que até então acredita-se estar morto), com a atuação de Sharpe como soldado em suspenso e com todas as dúvidas acerca de como será o seu futuro junto aos fuzileiros. Este volume pode ser entendido como um livro de transição. Um tempo para um breve fôlego antes de novas batalhas continentais. Só que o fôlego é realmente muito curto, já que a agitação parece procurar por Sharpe, mesmo quando tudo o que ele esperava era uma viagem longa, lúgubre e tediosa.

Cornwell consegue nos deixar na maior ansiedade durante toda a perseguição do Pucelle ao Revenant e depois, na espera pela batalha propriamente dita. E que aflição foi acompanhar os embates! Por causa da estratégia adotada por Nelson, para atacar é preciso primeiro ser atacado, às vezes, longos minutos sem poder responder, enquanto o inimigo ataca com todas as suas forças. Só nos resta torcer para que as perdas não sejam muitas. Além disso, nem todas as descrições de mastros, bandeiras, urracas, velas, cordames e tombadilhos conseguem diminuir o ritmo da narrativa. Cornwell mostrou-se exímio na descrição de batalhas tanto na terra quanto no mar. E para quem nada esperava da Grã-Bretanha, Sharpe já irá aportar por lá com a vida bastante agitada.

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4 Comentários

Arquivado em Lendo aleatoriamente, Resenhas da Núbia

4 Respostas para “Sharpe em Trafalgar (Bernard Cornwell)

  1. Trafalgar *_____________________*
    Sabe que o Wellington e o Nelson se conheceram pouco tempo antes de Trafalgar ne? Eles e o Churchill foram os maiores comandantes da história da Inglaterra ❤ amo amo amo

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    • Nubia Esther

      Aiai, li e esqueci de responder. >.<
      Ah, tem uma leve referência a esse encontro na parte que o Sharpe e o comandante Chase vão almoçar com o Nelson, bem legal. Não imaginei que eu fosse gostar tanto de uma história marítima do Cornwell, se bem que Trafalgar não foi o primeiro livro no qual ele se aventurou no mar né, deve ter sido o terceiro ou quarto, ele já tinha treinado bem, hahaha. Mesmo assim, muito bom. Já passei A Presa de Sharpe para frente na lista de leituras, mas já vi que a história começa bem ruim para o Sharpe…

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  2. Daniel

    Foi realmente uma ideia muito inteligente do Cornwell de “aproveitar” essa viagem de volta do Sharpe para criar mais um capítulo da saga. Ele poderia muito bem ter “pulado” esse momento, fazendo o 4º volume da série já começar na Inglaterra, mas teria sido um verdadeiro desperdício. E a viagem rendeu uma aventura bastante diferente, ao menos a príncipio, foi muito interessante ver o Sharpe fora de seu habitat natural, bem deslocado no navio, praticamente como apenas mais um dos passageiros. Mas é claro que sendo inteligente como ele é aos poucos ele vai se inteirando do funcionamento da embarcação, e quando do momento da batalha ele já retorna à sua atividade costumeira de soldado, auxiliando os outros membros da tripulação durante o combate. E a viagem até rendeu a ele um romance inesperado, que salvou a mulher em questão de um péssimo casamento.

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  3. Pingback: A Presa de Sharpe (Bernard Cornwell) | Blablabla Aleatório

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