Destinos e Fúrias (Lauren Groff)

CAPA-Destinos-e-Fúrias

Terminei de ler Destinos e Fúrias há um tempinho já, mas para escrever esta resenha, precisei ruminar um pouco essa história. A trama de Groff me deixou com sentimentos ambíguos. Foi um livro com o qual a leitura não fluiu totalmente, várias vezes interrompi a leitura porque os personagens não conseguiam me prender. Lotto e Mathilde não são personagens fáceis de ‘engolir’, eles não te cativam logo de cara e, durante muito tempo você até mesmo não gosta deles, o que te faz pensar muitas vezes sobre qual foi o objetivo de Groff ao escrever uma história sobre personagens tão, na falta de melhor palavra para descrevê-los, antipáticos. Mas aí Groff faz sua mágica e você nem mesmo percebe. De repente você passa a enxergar a aura dourada de Lotto que sempre lhe angariou admiradores fiéis, e Mathilde revela toda a sua complexidade, sua força interior. Os defeitos de ambos continuam ali, e no fim das contas, são eles que os tornam mais humanos e acessíveis. E é assim que o livro com o qual comecei a leitura com a impressão de que não iria gostar, de que o auê em torno dele era injustificável e que não havia nada de mais na história de Groff, me pegou de jeito. O casal pode não ser tão extraordinário assim, mas Groff tornou o nosso papel de observadores desse casamento fascinante.

“- Minha esposa – disse. – Minha.

(…)

– Pare – pediu ela. Perdera o sorriso, tão tímido e constante que deixara o marido espantado de vê-la de perto sem um. – Ninguém é de ninguém. Fizemos algo grandioso. É novidade.

(…)

– Você tem razão – disse ele; pensando “Não”, pensando em quão profundamente pertenciam um ao outro. Sem dúvida.

Entre a pele dele e a dela havia o menor dos espaços, mal cabia ar, mal cabia a camada de suor que começava a esfriar. Mesmo assim, uma terceira pessoa, o casamento dos dois, se insinuara ali. ”

(Páginas 10 e 11)

Lotto e Mathilde se casaram aos 22 anos, loucamente apaixonados. É o pontapé inicial da narrativa de Groff que nos convida então a desvendar as facetas dessa união por intermédio de seus dois lados. Assim, Destinos e Fúrias torna-se dois livros. Destinos, narrado sob o ponto de vista de Lotto, traz sua história desde antes do seu nascimento: o envolvimento dos pais, o relacionamento com os amigos desaprovado pela mãe, o envio para o internato em outro estado, a solidão, a descoberta do teatro, seu despertar como don juan, o casamento com Mathilde…

A vida de casados, apesar de repleta de amor (de deixar os amigos com inveja e fazê-los apostar no término) é vivida com pouco dinheiro. Lotto não fez o sucesso que esperava como ator e é Mathilde que sustenta a casa, até que Lotto se descobre (melhor seria dizer que Mathilde revelou a ele) como o dramaturgo Lancelot Satterwhite.

Depois da ascensão de Lotto, Mathilde se anulou pelo marido, relegou seus sonhos a segundo plano para fazer dos dele um sucesso. Só que ele se ressente por achar que a esposa o manipula e ela se ressente por sempre ter tido seus sonhos sufocados ao longo de todos esses anos de casamento, primeiro tendo de trabalhar aonde desse para sustentar a casa, depois ‘saboreando’ o sucesso que não era dela. Destinos se encaminha para sua conclusão natural, mas Groff ainda nos reserva uma última surpresa e é com ela que adentramos Fúrias, a parte da história que cabe a Mathilde. Aqui a personagem nos revela seu passado, o papel que teve de assumir para sobreviver, as escolhas (erradas?) que fez. E, apesar de Lotto ser considerado por todos o lado cativante desse casal, foi Mathilde que me capturou de vez para essa história. Foi em Fúrias que não consegui largar o livro até chegar a sua conclusão.

Com os dois lados expostos, os pingos nos is são devidamente colocados. As dúvidas e as suposições são escancaradas. E, se no fim das contas, todos os expectadores do casamento dos dois sempre tivessem achado que Lotto e Mathilde sempre estiveram em seu próprio mundo, Groff nos mostra que o mundo dos dois, desde o começo, sempre foi governado e manipulado pelos outros à sua volta. Um admirador antigo, um amigo ciumento, amigos invejosos, uma mãe ressentida…

Groff nos brinda com vinte e quatro anos de um casamento em todas as suas facetas. E, se em alguns momentos sua narrativa foi arrastada e pouco cativante, em outros ela atingiu um lirismo embasbacante (por exemplo, o rascunho do projeto de Lotto e Leo Sen) e no fim, nos tornou expectadores cativos desse casamento e de todos os segredos que se tornaram seu alicerce.

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