Vozes de Tchernóbil (Svetlana Aleksiévitch)

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Ao longo da história da humanidade são muitas as catástrofes que acumulamos: umas de causas naturais, outras intencionais e algumas, resultados do erro e da negligência humana. Quando pensamos em acidentes nucleares, é impossível não lembrar do acidente com o Césio 137 ocorrido em 1987 em Goiânia (particularmente, nós brasileiros); o mais recente ocorrido em 2011 em Fukushima no Japão; e, talvez aquele que mais perdure no imaginário popular, quer seja pela magnitude atingida, pelos efeitos deletérios e/ou pela carga histórica até hoje impingida aos bielorrussos, ucranianos e russos.

No dia 26 de abril de 1986 ocorreram uma série de explosões seguidas de incêndio na usina nuclear de Tchernóbil, localizada em Prípiat na Ucrânia, bem próximo à fronteira da Bielorrússia, e então parte da União Soviética. O acidente lançou grandes quantidades de partículas radioativas na atmosfera da URSS e de boa parte da Europa, transformando Prípiat em uma cidade fantasma, matando milhares de pessoas, plantas e animais, e gerando consequências até hoje enfrentadas pelos sobreviventes e pelos que nasceram após ele. Minúcias do acidente há muito são esmiuçadas, nos livros de história, de ciências, nos documentários…

“Este livro não é sobre Tchernóbil, mas sobre o mundo de Tchernóbil. Sobre o evento propriamente, já foram escritos milhares de páginas e filmados centenas de milhares de metros em película. Quanto a mim, eu me dedico ao que chamaria de história omitida, aos rastros imperceptíveis da nossa passagem pela Terra e pelo tempo. Escrevo os relatos da cotidianidade dos sentimentos, dos pensamentos e das palavras. Tento captar a vida cotidiana da alma. ”

(Página 40)

O que Svetlana Aleksiévitch faz em Vozes de Tchernóbil é dar voz às pessoas comuns, para quem Tchernóbil representou a mudança de seu mundo, muitas das quais não demoraram a padecer sob seus efeitos, e tantas outras que ainda mantêm a esperança viva. Svetlana vivenciou a catástrofe temporal e espacialmente, e talvez tenha vindo daí a empatia e a delicadeza com que ela tratou esses relatos, a perseverança em juntá-los ao longo desses anos todos e, a habilidade de transformá-los em um livro pungente.

“Eu levei muitos anos escrevendo este livro. Quase vinte anos. Encontrei e conversei com ex-trabalhadores da central, cientistas, médicos, soldados, evacuados, residentes ilegais em zonas proibidas. Com aqueles para quem Tchernóbil representa o conteúdo fundamental do mundo, cujo interior e entorno, e não só a terra e a água, Tchernóbil envenenou. ”

(Página 43)

Mas se o livro é um registro dos relatos orais da catástrofe de Tchernóbil, qual teria sido o trabalho de Svetlana nisso tudo? O livro pode ser considerado literatura (ela ganhou o Nobel de Literatura em 2015)?

Antes de enveredar pelas páginas de Vozes de Tchernóbil, esses podem ser alguns questionamentos levantados, mas que logo são sanados conforme avançamos na leitura. Logo fica evidente o trabalho que Svetlana teve ao longo dos anos para juntar os relatos, além da maestria com que ela encadeou os relatos de forma a criar uma linha temporal e emocional robusta e coesa. Há o relato da esposa do bombeiro que trabalhou tentando apagar o incêndio inicial na usina, sem maiores proteções além das usuais e que se tornou uma das primeiras vítimas da tragédia. Há o relato de Svetlana sobre sua experiência enquanto testemunha dos acontecimentos e como fiel depositária das muitas vozes que hoje já estão caladas para sempre. O relato do pai que perdeu a filha; do esvaziamento pouco apressado e pouco efetivo das zonas atingidas; da família que optou por deixar a zona da guerra para morar na terra abandonada de Tchernóbil. O trabalho dos liquidadores (como ficaram conhecidos os homens que lidaram diretamente com a radiação, à qual nem mesmo os robôs resistiam), dos pilotos dos helicópteros e dos mergulhadores que se ‘voluntariaram’ para impedir que o desastre fosse maior. A escassez dos dosímetros, a política do pão e circo com muito “pão” sendo distribuído nas áreas atingidas, a manipulação da fé do povo soviético para gerir o pânico popular. O silêncio e as vistas grossas que fizeram tantas vítimas.

A resposta à segunda pergunta, a própria Svetlana respondeu em seu discurso durante a entrega do Prêmio Nobel (felizmente adicionado à edição brasileira):

“Ouvi mais de uma vez e ainda ouço que isso não é literatura, que é documento. Mas o que é literatura hoje? Quem pode responder? Vivemos mais rápido que antes. O conteúdo rompe a forma. Ele quebra e modifica. Tudo extravasa das margens: a música, a pintura e, no documento, a palavra escapa aos limites do documento. Não há fronteiras entre o fato e a ficção, um transborda sobre o outro. ”

(Página 373)

Vozes de Tchernóbil é daqueles livros que todos temos que ler ao menos uma vez durante a vida. É daqueles livros que te mostram sua pequenez, escancaram a fragilidade humana e o que o mau uso da tecnologia pode provocar, expõe o egoísmo da alma humana, o preconceito arraigado, mas também é uma ode à resiliência de que somos capazes de mostrar. A leitura não é fácil. É cruel, é sofrida, é angustiante. Mas a jornada vale a pena.

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