Estrelas Perdidas (Claudia Gray)

Claudia Gray é conhecida por seus romances YA (alguns não tão bem-sucedidos assim) e nunca imaginei que algum dia leria algo dela relacionado ao universo de Star Wars (e ela já escreveu mais um livro que logo será publicado por aqui!) mas, se tem algo que o universo expandido da franquia sempre permitiu foi a pluralidade de adaptações e formatos. E, há espaço para romances YA também, principalmente os que nada ficam a dever em termos de qualidade, boas tramas, narrativas envolventes, personagens cativantes e que fornecem informações e lançam pistas acerca do futuro do novo cânone.

Em Estrelas Perdidas acompanhamos a história de Ciena Ree e Thane Kyrell. Ambos nasceram no isolado planeta Jelucan na Orla Exterior, no mesmo ano do soerguimento do Império. Ela, pertencente a uma família descendente da primeira leva de colonizadores do planeta, os quais ocuparam os vales e vivem na pobreza. Ele, pertencente a uma abastada família da segunda leva de colonizadores. Oito anos após a queda da Velha República, Jelucan foi conquistada pelo Império e é nesse cenário de festa e demonstração do poderio aéreo imperial que ambos têm seu primeiro contato, motivados pelo sonho compartilhado de pilotarem as naves do Império. A partir daqui, acompanhamos a amizade crescente dos dois, os primeiros treinamentos de voo em conjunto (algo criticado pela família de ambos), os estudos preparatórios e a entrada na Academia Imperial. Mas, é lá naquela primeira apresentação dos dois (com direito a uma participação especial do Grão Moff Tarkin) que Gray deixa claro as principais diferenças entre Ciena e Thane, diferenças depois utilizadas muito apropriadamente por ela para fundamentar as escolhas dos personagens.

Para Ciena, sua família e o povo do vale, a honra é o bem mais precioso, assim como um juramento, que uma vez feito deve ser honrado até o fim. Sua família também acredita piamente que o Império representa uma melhoria de vida para todos, daí todo o comprometimento deles com a causa. Thane, por outro lado, vem de um núcleo familiar fragmentado. Por ter de conviver com um pai abusivo ele despreza figuras de autoridade e não consegue ver bondade no Imperador. Do Império tudo o que ele quer são as naves e a oportunidade de aprender a voar e ir para longe de Jelucan.

Aos 16 anos ambos são admitidos na Academia Imperial e ali começa a mudança de sentimentos e os primeiros embates provocados pelas diferentes convicções de ambos e a sensibilidade à flor da pele. Essa parte da trama é a que mais se aproxima do formato típico de um romance YA, mas a lengalenga não demora muito, além de nos apresentar personagens-chave da trama. Com a formatura, a primeira designação e os primeiros trabalhos para o Império, as diferenças políticas de Ciena e Thane os afastam cada vez mais. A honra do povo do vale prende Ciena bem forte ao Império, já a desilusão e o horror impingido pela primeira Estrela da Morte são mais do que suficientes para afastar Thane cada vez mais até que ele resolve desertar. E, mais tarde, entrar para a Aliança Rebelde.

“Lutar contra o Império significava lutar por uma autoridade galáctica que valorizasse a justiça mais do que o poder, que tratasse os governados com respeito e não com mentiras e manipulações intermináveis. Lutar contra a escravidão dos bodach’is e dos wookies significava lutar para que os indivíduos tivessem o direito à livre escolha. Lutar contra quem destruíra Alderaan de forma insensível e brutal significava lutar para salvar cada um dos outros mundos habitados em toda a galáxia. ” (Página 272)

A narrativa de Gray reflete bem o passar do tempo e a evolução dos personagens. A inocência da infância, as dúvidas da adolescência, a explosão dos sentimentos, o despertar para a realidade e a oposição no campo de batalha. As escolhas dos personagens fazem jus aos seus passados e com as experiências que ambos tiveram na frota imperial. Foi Thane quem sempre ficou cara a cara com os atos covardes do Império e quem teve a oportunidade de vislumbrar o outro lado em suas missões. Por estar em um cargo mais estratégico, Ciena demorou mais para perceber que havia algo errado e sempre conseguiu racionalizar as ações imperiais. Afinal, para ela, a honra e seu juramento de obediência sempre falou mais alto. E, mesmo torcendo para o outro lado, não dá para desgostar de Ciena por suas escolhas. Ela é a protagonista forte, a garota capaz e independente, que mesmo presa por suas convicções, sempre tentou fazer o que era certo até o fim. Sem em nenhum momento vestir o manto de mártir. E Thane não fica atrás em angariar nossa torcida também.

Gray criou um casal que funcionou desde o princípio e com uma ótima química. Mas, mais do que um romance, Gray entregou uma viagem pelo universo de Star Wars para deixar qualquer fã satisfeito. Há referências, muitas referências, acontecimentos importantes sendo revisitados por outros ângulos e personagens há muito conhecidos e outros tantos novos que não ficam atrás em angariar nossa atenção. A história abarca uma longa linha do tempo (oito anos após o surgimento do Império até um ano depois da Batalha de Endor, na famosa batalha de Jakku), mas Gray o faz com uma narrativa envolvente, com uma sensação de continuidade bastante aparente e uma fluidez que tornou a leitura bastante rápida e aprazível. Por já conhecer Gray de outras obras suas (as sobrenaturais) não esperava tanto de Estrelas Perdidas, mas amei a história de Ciena e Thane. Uma história escrita de fã para fã e que todos os que curtem o universo de Star Wars deveriam ler.

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