Quem era ela (J.P. Delaney)

O que você estaria disposto a abandonar para ter a chance de recomeçar em um novo lugar? Você estaria disposto a abdicar de tudo o que adquiriu ao longo de sua vida para morar em um lugar high tech, uma casa linda e minimalista, considerada uma obra-prima da arquitetura londrina? Para morar na n°01 da Folgate Street há uma lista imensa de cláusulas restritivas que proíbem muitas coisas. Bastou apenas conhecer uma dessas proibições para ter a certeza de que eu nunca moraria ali. Proibir livros? Sem chance! Mas para Emma, e mais tarde, para Jane, essas e tantas outras proibições não as fizeram perder a vontade de tentar reconstruir suas vidas naquela casa onde o “supérfluo” não tem lugar, a beleza está por toda a parte e a segurança está acima de todas as coisas.

“Talvez esse seja o verdadeiro objetivo das Regras, como já as apelidamos. Talvez o arquiteto não seja um maníaco por controle preocupado com a possibilidade de bagunçarmos sua bela casa. Talvez seja algum experimento de moradia. ” (Emma – Página 23)

A primeira moradora que nos é apresentada é Emma. Ela e o namorado Simon estão procurando uma nova casa para morar depois de assaltantes terem invadido a casa anterior, quando Emma estava sozinha, e a ameaçado com uma faca.

A segunda moradora é Jane que está procura de um novo lugar que a ajude a superar a dor recente de ter perdido alguém e que lhe permita reconstruir sua vida.

Ambas acabam se deparando com a n°01 da Folgate Street e passam por um rigoroso processo, que inclui uma entrevista com Edward Monkford, o arquiteto responsável pela casa. E, ao passarem a morar na n°01 a casa se torna praticamente um novo personagem nessa história. Ela pode ser feita apenas de pedra, vidro e fibras ópticas. Mas, tem uma governança exacerbada sobre a vida de seus moradores. Hora de acordar, luz mais adequada para determinada ocasião, sensores de movimento, monitoramento da rotina dos moradores, influenciadora comportamental e, além disso, alimentada frequentemente por respostas à questionários elaborados por seus criadores e que devem obrigatoriamente ser respondidos pelos inquilinos. De certa maneira, o que a casa de Edward Monkford faz é quase que um experimento em microcosmo do Método descrito por Juli Zeh em seu livro Corpus Delicti. Foi impossível não correlacionar as duas obras.

Mas, talvez o mais interessante seja como Delaney decidiu nos contar essa história. Os capítulos são curtos e alternam-se entre o antes e o agora. No antes, temos a narrativa sob o ponto de vista de Emma, no agora, cabe a Jane continuar essa história. De início, suas histórias correm em paralelo. Em comum, temos apenas a n°01 da Folgate Street. Mas, conforme as peças vão sendo reveladas e as semelhanças evidenciadas, é como ler duas histórias ansiando pelo momento em que elas irão se entrelaçar. Ou se repetir, ecoando uma a outra.

                                                                                                      Foto de Imani Clovis (Fonte)

“Às vezes tenho a sensação de que a casa – nosso relacionamento nela, com ela, um com o outro – é como um palimpsesto ou um pentimento. Por mais que a gente tente pintar por cima de Emma Matthews, ela continua voltando discretamente: uma imagem fraca, um sorriso enigmático, abrindo caminho pelo canto. ” (Jane – Página 171)

Com Jane descobrimos que a coisas não terminaram muito bem para Emma. De fato, a antiga moradora morreu (não é spoiler e saber isso não estraga a experiência de leitura). Descobrir como Emma encontrou seu fim, suas escolhas, todos os desdobramentos do caso envolvendo a invasão de sua antiga casa, a deterioração do seu relacionamento com Simon, seu envolvimento com Edward e todos os mistérios que parecem cercar a construção da casa em Folgate Street é a grande jogada. Principalmente quando a vida de Jane começa a espelhar estranhamente a de sua antecessora e começamos a temer que ela encontre o mesmo fim.

Delaney vai brincando assim com as suposições do leitor. Nos leva a construir toda uma pilha de teorias para depois mostrar que a psique humana sempre pode esconder mais uma surpresa que irá ruir com tudo o que até então achávamos que fosse verdade e nos deixar em um momento da narrativa onde nada mais é uma certeza. É assim que nós somos presos de forma irreversível à trama e se torna impossível largar a leitura até que todos os fatos da vida de Emma sejam revelados, que as motivações de Edward fiquem claras e que o futuro de Jane seja finalmente vislumbrado.

PS: É o primeiro thriller psicológico desse(a) escritor(a) que escreve sob pseudônimos, homem ou mulher não se sabe, e ao que parece ele(a) prefere manter o suspense. Uma produção cinematográfica, com direção de Ron Howard (ganhador do Oscar de melhor direção pelo filme Uma Mente Brilhante), já está em produção.

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