Então, eu reli #1: O Senhor dos Anéis (J. R. R. Tolkien)

Ler apenas novos livros, ou além disso, ler novamente histórias já conhecidas? A Mell Ferraz do canal Literature-se fez um vídeo bem legal falando sobre releituras. Sim, todo leitor, por mais voraz que seja, sabe que mesmo que sua vida seja longa e próspera, ele nunca irá ler todos os livros que deseja ler. Faz sentido então ler novamente uma história que você já conhece? Alguns leitores pensam que não, eu sou daquelas leitoras que acha que por mais que você conheça o início e o fim da jornada, trilhar novamente esse caminho pode gerar gratas surpresas. Tirando alguns livros que já reli mais de uma vez e estão frescos na memória, há outros que já li há muito tempo e que lembro que me marcaram na época, mas que a trama em si já está difusa na memória, porque não os reler? Pode ser que eu me decepcione com alguns, mas posso a vir a me apaixonar novamente por outros, ou passar a gostar mais de algum que não do qual não gostei tanto assim. Isso foi o que me incentivou a criar essa nova seção aqui no blog. E, para estrear com o pé direito eu escolhi O Senhor dos Anéis do Tolkien. Quem já nos acompanha há um tempinho, sabe que a admiração por Tolkien e sua obra foi o que possibilitou que eu e a Mari nos conhecêssemos, no já antigo, mas firme e forte, fórum Valinor. Nada mais justo então que esse livro tantas vezes relido (não tanto quanto eu gostaria) ou pelo menos frequentemente consultado na época do fórum, fosse o escolhido.

Para falar dele, não vou fazer como costumeiramente faço em minhas resenhas, a obra já ultrapassou o patamar de hors concours tão longe, que não consigo fazer uma análise imparcial. Então, vou basicamente me focar nas surpresas que essa releitura me trouxe. No caso de O Senhor dos Anéis, temos uma versão cinematográfica (particularmente considero uma das melhores adaptações cinematográficas) e, ao contrário dos livros que havia relido há tempos, o filme eu revejo todos os anos, às vezes mais de uma vez, e o resultado é que as modificações feitas pelo Peter Jackson acabaram mascarando alguns fatos da obra tolkieniana. Eu sei que nos livros a Arwen tem um papel bem menor na trama do que nos filmes, que foi Glorfindel e não ela que levou Frodo até Valfenda e que Saruman não encontrou seu fim em Isengard, mas ao fazer essa releitura, percebi que o filme já havia modificado muito mais as minhas memórias da obra do que eu supunha.

A Sociedade do Anel

No ponto de partida dessa jornada, reencontramos Bilbo anos depois de sua aventura com os anões na comemoração de seu ozentésimo aniversário. É aqui que o anel que ele “roubou” de Gollum é revelado com sendo o Um Anel e dá-se início à jornada de Frodo (seu sobrinho) com o objetivo de destruí-lo. E a surpresa da leitura já começa na passagem do tempo. Ao passo que no filme a partida de Frodo ocorre pouco tempo após o aniversário de Bilbo, no livro, muitos anos se passam até que Frodo finalmente parta. Quando aconteceu a festa de Bilbo, Frodo completou 33 anos e Éomer da terra dos cavaleiros de Rohan tinha apenas 10 anos. Frodo só partiu do Condado aos 50 anos! Isso serve para colocar em perspectiva sobre o quanto demorou para que a Demanda do Anel fosse colocada em curso. Outras surpresas foram, que me atinei para a presença de Fatty Bolger, o hobbit que muito ajudou Frodo, Sam, Merry e Pippian e que acabou sendo totalmente esquecido nos filmes. Percebi também que Pippin é um tolo, mas não tanto quanto retratado nos filmes, bem como o Boromir não é tão chato e mesquinho, e é capaz de ações tolas tanto quanto os hobbits mais incautos. Além disso, não foi só Frodo que olhou no espelho de Galadriel, Sam também pôde olhar e foi ele que viu o Expurgo do Condado. E, a reforja antecipada de Andúril, sim Aragorn recebeu sua espada antes da partida da Sociedade do Anel de Valfenda, faz todo o sentido quando vemos qual foi o presente de despedida que Galadriel lhe concedeu. Este é o único volume no qual a narrativa é uma para todos os personagens. Com o rompimento da Sociedade, Tolkien teve que estabelecer mais de uma frente de narrativa, e ele o fez de uma forma pouco usual nos livros de fantasia atuais.

As Duas Torres

As Duas Torres já começa com um artifício muito interessante, e que irá se repetir em O Retorno do Rei, que é trazer uma sinopse rápida sobre os fatos decorridos no livro passado. Quando você lê os livros de uma série um atrás do outro não faz tanta diferença, mas quando se passam meses, às vezes anos, é uma ajuda bastante válida para situar e prender o leitor novamente à trama. Ah, e não é uma exclusividade da brasileira.

Este volume conta com dois núcleos narrativos. No Livro III, a trama gira em torno da torre de Orthanc em Isengard. Começa com a captura de Merry e Pippin pelos Uruk-hai de Saruman e a busca por eles, empreendida por Aragorn, Legolas e Gimli e discorre sobre os eventos decorrente daí. A chegada dos hobbits à Fangorn onde encontram os antiquíssimos e morosos Ents, o famoso e longo Entebate e a marcha dos entes em resposta às ações desmedidas do mago branco. O retorno de Gandalf e os recados de Galadriel trazidos por ele, para Aragorn e para Legolas. A libertação do Rei Théoden da terra de Rohan, o início da amizade de Aragorn e Éomer e a Batalha do Abismo de Helm. Aqui, houveram mudanças críticas no filme, por exemplo, Éowyn não foi para o Abismo de Helm, ela ficou em Medulsed como governante quando Théoden partiu para a batalha contra Isengard. O que depois acaba fazendo todo o sentido com o não querer ser deixada para trás na partida para a guerra derradeira. Ainda que a chegada da tropa élfica sob o comando de Haldir tenha ficado muito bem na telona, não houveram elfos (quer dizer tinha o Legolas né) em Helm durante a batalha. Esse livro, termina com mais separações e novas frentes narrativas precisam ser acrescentadas.

Em nenhum momento lemos sobre Frodo e Sam no Livro III, o Livro IV é dedicado a eles. Essa separação em blocos é pouco usual hoje em dia e é muita mais frequente nos depararmos com diferentes frentes narrativas sendo apresentadas alternadamente, o que torna mais fácil acompanhar a timeline da história, mas isso não quer dizer que é mais difícil aqui. Em momentos chave da trama, Tokien traz Frodo e Sam à memória e frisa o que os personagens estavam fazendo no momento que a atual cena que está sendo narrada desenrola-se. E assim, as timelines são devidamente concatenadas. Isso acontece aqui e é ainda mais frequente no último volume.

“O nome era Cirith Ungol, um nome de terrível repercussão. Aragorn talvez pudesse ter-lhes dito esse nome e seu significado; Gandalf os teria advertido. Mas estavam sozinhos, e Aragorn estava distante; Gandalf se encontrava em meio às ruínas de Isengard, lutando contra Saruman, atrasado pela traição. Apesar disso, no momento em que dizia que suas últimas palavras a Saruman, e o palantír explodia em chamas contra os degraus de Orthanc, seus pensamentos se voltavam para Frodo e Samwise; através de longas léguas sua mente os procurava, com esperança e pena. ” (Página 255)

No Livro IV a trama transcorre próximo à Barad-dûr. E aqui há duas diferenças em relação ao filme que precisam ser frisadas. A primeira é que Faramir representou para Frodo e Sam muito mais um amigo do que inimigo, sendo muito menos suscetível ao Um, o qual ele rejeita muito mais rapidamente. Isso só me relembrou o porquê gosto tanto do personagem. A segunda é que Gollum não armou para que Frodo brigasse com Sam. A cena de Frodo mandando Sam ir embora nas escadarias de Cirith Ungol já queimou tanto a retina que acabamos tomando-a por canon, mas a verdade é que os hobbits entraram juntos no túnel da Toca da Laracna. E não, o episódio não fica menos dramático por causa disso.

O Retorno do Rei

No último volume, com a narrativa tendo de cobrir tantos eventos em separado (mas simultâneos), Tolkien fez bom uso de marcadores textuais que remetem ao leitor a um acontecimento já narrado anteriormente e que se passa no exato momento do que está sendo narrado agora. É impossível o leitor ficar perdido. Dos filmes é o meu favorito e o que cala mais fundo nos sentimentos, talvez tenha sido por isso que aqui foram onde as mudanças empreendidas por Peter Jackson mais suplantaram as lembranças do livro. Personagens de grande destaque no livro foram completamente esquecidos como o Imrahil, Príncipe de Dol Amroth; o dúnedain Halbarad Dúnadan e o guarda de Gondor Beregond. Os faróis de Gondor não foram acesos à revelia, o próprio Denethor mandou que eles fossem acesos e chegou até mesmo a enviar um emissário à Rohan. A soberba dele podia ser grande, mas ele não era um tolo orgulhosos que se recusasse a pedir ajuda. No livro, o amadurecimento de Pippin é muito mais notável, com muitas passagens que demonstram que o Tûk tolo ficou lá atrás (para ler mais sobre Pippin, deem uma lida na tradução desse artigo da Amy Spivey). Uma coisa que sempre me incomoda nos filmes, é o fato de todos os clamores e discursos serem dirigidos apenas ao Frodo, e Tolkien sempre restaura a minha fé porque ele sempre se lembra de ambos. Sam também teve sua importância na Demanda! O Expurgo do Condado é uma etapa importante da narrativa, pois demonstra todo o crescimento que a jornada propiciou aos hobbits que agora não pensam duas vezes em enfrentar de frente seus problemas.

E, como a leitura de O Senhor dos Anéis só é completa quando se lê os Apêndices, eles também foram devidamente relidos. E, são tantas as informações sobre os elfos e as primeiras e segundas eras da Terra Média, que me deixaram saudosa de revisitar outra obra do professor (o Silmarillion), quem sabe ele não apareça nessa seção futuramente. Findada a leitura, ficou a certeza de que por mais que eu releia O Senhor dos Anéis a jornada sempre trará algo de diferente e que a releitura, valeu cada segundo gasto. E esta provavelmente não será a última releitura da obra que farei, vai saber quantas jornadas diferentes pela Terra Média eu ainda posso ter. O plano agora é fazê-lo em seu idioma original.

PS: Continuo gostando do Tom Bombadil!

Leia uma amostra aqui:

Compre aqui:

Cultura Amazon Saraiva Travessa Fnac Fnac
Anúncios

2 Comentários

Arquivado em Então eu reli, Resenhas da Núbia

2 Respostas para “Então, eu reli #1: O Senhor dos Anéis (J. R. R. Tolkien)

  1. Pingback: TAG – Doenças Literárias | Blablabla Aleatório

  2. Pingback: Resumo do Mês | Blablabla Aleatório

Gostou do post, então comenta!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s