Para Poder Viver (Yeonmi Park)

“Ao longo de minha jornada, vi os horrores que seres humanos podem infligir uns aos outros, mas também testemunhei atos de ternura e bondade e sacrifício nas piores circunstâncias imagináveis. Sei que é possível perder parte de sua humanidade para sobreviver. Mas também sei que a centelha de dignidade humana nunca se extingue por completo e que, se lhe forem dados o oxigênio da liberdade e o poder do amor, poderá voltar a crescer.

Esta é a história das escolhas que fiz para poder viver. ” (Página 18)

Para Poder Viver é o livro autobiográfico da norte-coreana Yeonmi Park. Nascida em uma família que caiu em desgraça perante o governo, de uma vida confortável (na medida do possível) acabou na miséria. O desespero provocado pela fome, pelas condições insalubres de moradia e pelo regime ditatorial norte-coreano, levou primeiro a sua irmã mais velha, e depois ela e sua mãe, a fazerem a arriscada travessia do Rio Yalu, que separa Hyesan (sua cidade natal) de Chaingbai, e se aventurarem na China. Uma jornada que começa perigosa e se torna desesperadora. É aqui que Yeonmi descobre o poder da resiliência e encontra dentro de si a força necessária para enfrentar as dificuldades. Da Coreia do Norte até a chegada e o asilo político na Coreia do Sul, houveram o desapontamento com os líderes de sua nação, o terror de ter tido o pai preso e enviado para um dos piores campos de trabalho forçado, a esperança do retorno dele para casa, o desalento da situação familiar cada vez mais crítica perante a sociedade, o anseio por algo que não se sabe bem o que é, o terror de ter a liberdade (tão próxima) retirada de suas mãos e um novo tipo de encarceramento, a fuga (quase suicida) pelo deserto e o reencontro com a esperança.

 O livro está dividido em três partes: Coreia do Norte, China e Coreia do Sul. É na primeira parte que podemos saber mais sobre como é a vida do povo norte-coreano. A ingerência do governo na vida do povo. A derrocada da prosperidade do governo norte-coreano após a derrota do bloco socialista na Guerra Fria. A estruturação das classes sociais e como você pode subitamente cair do topo ao rés-do-chão. No início a narrativa é como uma colcha de retalhos, vários anos estão representados em um mesmo capítulo e Yeonmi vai e volta no tempo constantemente. Inicialmente pode parecer confuso, mas conforme os retalhos vão se acumulando, o retrato da vida na Coreia do Norte vai tomando forma. É uma verdadeira aula de história, geografia, sociologia e política na ótica e memórias de uma jovem garota. Findada a primeira parte e, com a fuga concretizada, adentramos em um momento da história de Yeonmi tão angustiante quanto àqueles vividos em seu país natal. Sonhando com a liberdade, acabaram reféns do tráfico humano, e, se o regime ditatorial maculou a infância de Yeonmi, a experiência na China roubou sua adolescência e sua inocência. Enfrentar o Deserto de Gobi, mais do que um ato de desespero, expressou o último anseio, a última busca por um futuro digno. Com a chegada à Coreia do Sul, veio o treinamento para viver no século XXI, mas também houve o preconceito daqueles que só enxergam os norte-coreanos como estrangeiros e o preconceito daqueles que tentaram minar o futuro acadêmico de Yeonmi. Contudo, também houve a força de vontade da garota para mostrar seu potencial, seu engajamento político contra a situação do seu país, o ativismo do qual passou a ser protagonista e que a transformou em inimiga do estado norte-coreano, e o restabelecimento, na medida do possível, de seu núcleo familiar.

Em termos de narrativa, eu gostei da forma como Yeonmi estruturou sua história. A narrativa não linear realmente transpareceu que ela está puxando aquilo da memória para nos contar e como frequentemente acontece, depois de estarmos lá na frente, lembramos de algo que deixamos para trás, mas sem problemas, nada que uma pequena retomada não resolva. Algumas informações são meio desencontradas e Yeonmi mesmo fala que no início, quando começou a conceder entrevistas falando sobre sua vida, ela omitiu e alterou detalhes para manter escondido parte do seu passado. Será que não advém daí as inconstâncias nos discursos sugeridas por muitos como sendo provas do embuste representado por Yeonmi? Não é fácil colocar a cara à tapa e rasgar o verbo sobre algo que se quer esquecer. No fim das contas pode haver inconstâncias e pode haver coisa inventada, mas não há de se negar que o passado de Yeonmi foi trágico, que a separação de Chosun nas duas Coreias é uma ferida ainda latejante e que assim será ainda por muito tempo, e que uma vida com direitos civis básicos e dignidade é o que todo mundo merece, e sim, isso é humanamente impossível de ser concebido em um regime totalitarista com tanta ingerência do governo na vida do povo. Mas, mais do que colocar em discussão o regime norte-coreano, Para Poder Viver traz a lição de como podemos ser fortes, de como a vida pode nos envergar continuadamente (sabe a lição do bambu?), mas que é preciso resiliência e flexibilidade para manter nosso cerne intacto, ainda que rachaduras venham a ser colecionadas pelo caminho. Nesse ponto, a história de Yeonmi é inspiradora, e se serve de incentivo para que mais pessoas possam ser resgatadas das situações inumanas a que estão submetidas, seja aonde for, é tudo o que importa.

“Eu amava minha pequena avó Hwang com sua perna de madeira. (…) Sempre sorria para mim e era uma maravilhosa contadora de histórias. (…)

A maior parte de suas histórias eram do tempo de Chosun, quando não havia Coreia do Norte e do Sul, e sim um só país, um só povo. (…) Ela me disse: ‘Venha um dia à minha sepultura e diga-me que o Norte e o Sul estão de novo unidos”. ” (Páginas 73 e 74)

 

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