Até que a Culpa nos Separe (Liane Moriarty)

Tudo começa com uma menção a um episódio traumático. Com quem? Não é muito difícil supor acertadamente. Como? É o que Moriarty nos convida a descobrir. Suas implicações? Permeiam toda a narrativa. A forma de contar essa história não é muito diferente da adotada pela autora em seus outros livros, muito pelo contrário, o vislumbre da tragédia, o retorno no tempo, o vai vem frequente na linha temporal da trama e a forma como ela nos apresenta seus personagens, que vejam só, são cheios de defeitos e não criados propositadamente para encantar o leitor, são estratégias bem recorrentes em seus outros livros. Pode-se dizer que essa é a fórmula Moriarty para escrever livros. É mais do mesmo? De jeito nenhum! O foco das histórias de Moriarty está na vida cotidiana de seus personagens, nas relações familiares, na dinâmica do relacionamento entre amigos, nos mal-entendidos, nas pequenas rusgas diárias, nas manias e nos segredos que cada um guarda para si. Transformar o ordinário em extraordinário, com uma boa pitada de drama, de romance e de suspense, é o que torna cada uma das histórias de Moriarty únicas.

“Erika notou um terror bruto e uma urgência aguda naquela única palavra: Clementine!

Sabia que ela era a amiga que gritara o nome de Clementine naquela noite, mas não tinha qualquer recordação disso. Não havia nada além de um branco onde deveria estar aquela memória, e se ela não conseguia se lembrar de um momento como aquele, bem, isso significava que havia um problema, uma anomalia, uma discrepância; uma discrepância extremamente significativa e preocupante. ” (Página 133)

Em Até que a culpa nos separe tudo começa com um churrasco. Era para ter sido inofensivo, apenas uma comemoração, mas terminou em tragédia. Meses depois os envolvidos ainda lidam com a culpa e com as implicações de tudo o que ocorreu aquele dia, bem, de boa parte dele já que ainda há minúcias que permanecem obscuras mesmo para alguns dos envolvidos. Para recontar o que aconteceu, Moriarty divide a tarefa entre todos os presentes. São muitas e muitas versões entrecortadas e Moriarty é exímia em nos manter em suspenso, no limite entre a curiosidade e a compulsão por desvelar os segredos alheios.

Erika e Clementine são amigas de infância. Erika é casada com Oliver, é filha de uma acumuladora, fato que lhe fez desenvolver um TOC severo por organização e limpeza. Ela e Oliver são contadores e o casal não tem filhos. Clementine tem alma de artista e é desorganizada por natureza. Ela é violoncelista e é casada com Sam com quem tem duas garotinhas: Holly e Ruby. No dia do churrasco Erika tinha um grande pedido para fazer a Clementine. E, durante a preparação metódica para receber Clementine, Sam e as garotas em casa, por impulso acaba aceitando o convite do vizinho Vid para um churrasco na casa dele. Um convite que além de Oliver, acaba abarcando também Clementine e família. Mas o fato é que o pedido é feito e uma pequena inquietação surge entre o casal de amigos e é nesse clima esquisito que eles chegam à casa de Vid e Tiffany. A necessidade de desanuviar o ambiente acaba levando à excessos, conversas sussurradas e ações impensadas. Sem dúvidas a tragédia foi o grande agente catalisador, mas tudo o que aconteceu antes dela também impactou a vida dessas pessoas e é preciso incluir isso na reconstrução. O histórico da amizade de Erika e Clementine e o papel da mãe de Erika e da família de Clementine nessa relação. O relacionamento de Erika e Oliver, de Clementine e Sam e de Vid e Tiffany. E a partir do ocorrido, tudo o que a culpa pode corroer, romper e modificar. Mas, também o que pode ser reconstruído.

Agora se tem uma coisa que aprendi com as obras da autora é que sempre, sempre Moriarty guardará uma revelação bombástica para o final, o quadro nunca está realmente completo até que ela revele essa surpresinha. Enfim, Moriarty continua provando que é expert em narrar histórias mundanas. Ela nos transforma em voyeurs ansiosos por mais uma chance de vislumbrar os recantos mais secretos da mente e os segredos mais sórdidos que as pessoas comuns podem esconder sob a superfície aparentemente banal e sem graça. É o terceiro livro dela que leio e foi mais uma ótima e instigante leitura. Mais Moriarty por favor!

 

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