Matéria Escura (Blake Crouch)

Com a experiência de quem está acostumado a entregar roteiros frenéticos, Blake Crouch nos entrega em Matéria Escura uma mistura de ficção científica e thriller psicológico de tirar o fôlego. Não surpreende a Sony ter comprado os direitos de adaptação (para filme ou série) lá em 2014 quando Crouch tinha apenas cerca de 150 páginas de sua história escritas. Este é daqueles livros que irá agradar os fãs mais vorazes de ficção científica, afinal tem temas tão teóricos e abstratos como multiverso, mecânica quântica e neurociência, mas também garante adeptos entre os fãs de um bom thriller e romances investigativos. E isso é garantido pelo fato dele não banalizar a parte científica da trama, tornando-a superficial demais, mas também não aprofundando demais, o que poderia tornar a leitura hermética para os leitores que pouco se enveredam pelo gênero. Aliás, Matéria Escura pode ser uma boa escolha para quem quer começar a se aventurar por esse gênero literário.

Começamos essa história conhecendo Jason Dessen, um professor universitário que poderia ter sido um cientista brilhante se a vida não tivesse lhe exigido uma escolha na qual ele precisou abdicar de um lado importante de sua vida; o mesmo vale para sua esposa Daniela, uma artista plástica com grande potencial e que agora é professora de artes no ensino fundamental. O fato de um amigo de Jason ter ganhado um importante prêmio por causa de um trabalho no campo da neurociência, acaba fazendo Jason colocar sua vida em perspectiva e duvidar de suas escolhas por um breve momento. O que poderia ter ficado por isso mesmo, se Jason não tivesse sido sequestrado, dopado e lançado em uma vida que ressoa à sua a não ser pelo fato de que: ele não é casado com Daniela, seu filho Charlie nunca nasceu e ele é um importante cientista no campo da física quântica. Qual vida de Jason é real? Ele tem certeza de que aquela em que ele é um pai de família e professor universitário, mas os fatos mostram que nesse lugar onde está também havia um Jason.

“E se todas as crenças e lembranças que compõem quem eu sou – minha profissão, minha esposa, meu filho – não passarem de uma trágica falha no funcionamento da matéria cinzenta localizada dentro do meu crânio? Devo continuar lutando para ser o homem que penso ser? Ou devo deserdá-lo, abandonar tudo que ele ama, para simplesmente encarnar a pessoa que este mundo espera que eu seja?

Mas, se eu enlouqueci, o que fazer?

E se tudo que conheço estiver errado? ” (Página 83)

Mas, quando a existência de um importante aparato científico vem à tona e a existência de um Jason 2 é confirmada, a trama de Crouch se abre para um infinito de probabilidades e, além de viagens entre diferentes universos, a narrativa também ganha uma importante carga psicológica. Perguntas sobre quem realmente somos e sobre quantas vidas deixamos de ter a cada escolha que fazemos e como essas escolhas nos modificam nos tornando pessoas melhores ou piores, permeiam toda a obra, bem como o conflito moral e ético sobre até que ponto podemos ir para recuperar a vida que um dia foi renegada.

Jason 2 foi ao extremo de usurpar a vida de Jason, que agora só pode contar com a ajuda de Amanda (psicóloga na empresa de Jason 2), a máquina criada por seu sósia e um composto químico finito para tentar reaver sua antiga vida. Será que na infinita possibilidade de mundos eles conseguirão retornar ao mundo de Jason? A quantidade de compostos pegos por Amanda serão suficientes para a jornada?

Com uma certa quantidade de mundos possíveis de serem visitados, Crouch poderia ter se enveredado fácil por esse caminho, mas felizmente ele optou pela parcimônia e só explorou mundos que efetivamente contribuíram para o andamento da trama, quer seja pelos questionamentos suscitados ou pela carga dramática possibilitados por algumas dessas experiências. O ponto alto da trama reside em como Crouch soube concatenar essas experiências com as implicações inerentes da física quântica dos muitos mundos, o que rendeu um final frenético, quase desesperador e com questionamentos bastante filosóficos sobre individualidade e livre-arbítrio. A junção da ficção científica com os questionamentos psicológicos e filosóficos foi sem dúvidas uma decisão bastante acertada de Crouch. Se você ainda não leu Matéria Escura se permita ser fisgado para a história de Jason, você pode se surpreender.

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