Desintegrados (Neal Shusterman)

Atenção, esta resenha trata dos acontecimentos ocorridos no segundo livro da série Fragmentados, por isso, pode conter spoilers, revelando partes do conteúdo do livro anterior. Para saber o que eu achei do primeiro livro, confira os links no final desta resenha.

 

Nós leitores brasileiros, esperamos longos dois anos pela continuação da série Fragmentados do Neal Shusterman. Mas, isso nem se compara ao enorme tempo de espera que os leitores norte-americanos tiveram de aguardar. Longos cinco anos separam Fragmentados de Desintegrados. A trama bastante coesa e bem finalizada do primeiro volume (que até pode ser lido como sendo uma obra única) pode ter contribuído para deixar a tarefa de escrever uma continuação bastante dificultada. Tantos anos entre os livros também fizeram Shusterman perceber que seria necessário dar um tranco na memória de seus leitores e o prólogo (não oficialmente um prólogo) com o formato de um jogo de perguntas e respostas foi uma sacada inteligente para reavivar a memória de seus leitores.

Em Fragmentados, Shusterman nos apresentou uma Terra futura na qual adolescentes dos 13 aos 18 anos podem ser “abortados” retroativamente, desde que as partes de seus corpos possam “viver” em outras pessoas. Tendo os adolescentes Connor, Risa e Lev como vozes principais, ele nos escancarou as instituições e os grupos de resistência dessa sociedade fragmentadora, não nos poupando nem mesmo dos detalhes mais sórdidos do processo de fragmentação. Após fugas frenéticas e atos julgados como terroristas pelos órgãos governamentais; nos despedimos de Connor, Risa e Lev ainda inteiros. Connor sendo agora o responsável por um dos maiores campos de refugiados fragmentários (o Cemitério); Risa que decidiu permanecer paraplégica em vez de receber uma nova coluna (afinal, é preciso ser leal à causa defendida); e Lev, que primeiro se tornou um símbolo do extremismo rebelde, mas ao longo de sua jornada percebeu o valor da sua vida (inicialmente ele era um dízimo, uma espécie de “fragmentário voluntário”) e das segundas chances. Toda essa batalha culminou em uma lei que limita a fragmentação dos 13 aos 17 anos, mas a ideia de salvar mais jovens da Fragmentação acabou gerando escassez de “peças” que terminou por fomentar o mercado negro de venda de órgãos. Em meio à propaganda maciça das agências governamentais em prol da fragmentação e a caça frenética empreendida pelos piratas de órgãos, Connor precisa lutar para manter o Cemitério em funcionamento, Lev se torna uma espécie de “messias” entre os ex-dízimos resgatados; e Risa será confrontada pelo ápice da tecnologia fragmentária: Cam, um garoto feito inteiramente com as melhores partes de fragmentados.

“Todo ano, a ideia da fragmentação passa pela cabeça de um a cada dez pais. Destes, um em dez considera a ideia seriamente e um em vinte decide levá-la a cabo – e a estatística duplica a cada filho adicional que uma família tem. Junte todos esses números deliciosos e um a cada dois mil adolescentes entre as idades de treze e dezessete anos será fragmentado todo ano. As chances são maiores do que as de ganhar na loteria – e isso nem inclui as crianças das Casas Estatais.” (Página 121)

Ao longo do livro, várias inserções de depoimentos, propagandas e artigos de jornais, nos fornecem uma boa amostra da situação política e social vigente. E alguns desses anúncios são bem revoltantes. Aliás, descobrir as minúcias das regras dos “Pró-Vida” é de dar asco. Inseminação artificial, por exemplo, é uma prática aceitável, mas saiba que quaisquer embriões obtidos in vitro deverão ser levados a termo, nem que seja através de “mães de aluguel”, muito bem pagas por sinal. A vida uterina é obrigatória e protegida, mas depois do nascimento, o bebê poderá ser abandonado, sem maiores problemas. Uma decisão super pró-vida não? Isso é uma amostra do quão longe os interesses de um grupo dominante prevalecem, ainda que não sejam nem um pouco razoáveis.

Além da dualidade “Pró-Vida” e “Pró-Escolha”, Shusterman também insere com Cam uma grande discussão filosófica sobre o que é ser. Em toda a sua singularidade, com toda a mistura de memórias e dons “herdados” por Cam dos fragmentados, ele realmente pode ser considerado humano? É justa a sua criação preterindo tantos outros adolescentes no processo? O que nos torna humanos? Essa mistura de distopia com reflexões éticas, sociológicas, filosóficas e políticas é o grande diferencial da série criada por Shusterman. É o que torna esse romance juvenil mais profundo do que pensamos inicialmente e abre um leque de discussões que facilmente o tornam uma boa obra paradidática.

Diferentemente do primeiro livro que deixava uma sensação de término (na medida do possível), neste Shusterman escancara possibilidades. Há todo o histórico do processo de fragmentação que começa a ser desvendado e a trama encaminha-se para um confronto que promete um terceiro livro com um ritmo frenético desde o início. Mudanças estão a caminho e não vejo a hora de conferir até que ponto e como elas irão influenciar a sociedade dessa Terra futura. Não demora muito não Novo Conceito!

 

Leia uma amostra aqui:

 

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