O Diário de Zlata (Zlata Filipović)

Se tem algo que o projeto de leitura ‘Volta ao Mundo em 198 Livros’ me proporcionou, foi uma boa “chacoalhada” na minha lista de leituras, quer seja com a aquisição de títulos desconhecidos, com a retirada de pó de títulos “esquecidos” na estante, ou com o incentivo que faltava para ir atrás de títulos que já tinha um bom tempo que desejava ler. Desde que comecei o projeto, sabia que queria ler como representante da Bósnia e Herzegovina o diário escrito por Zlata Filipović entre o período que antecedeu e durante os primeiros anos da Guerra da Bósnia. Quando se fala em guerra e diário, é impossível não se lembrar de Anne Frank, mas a história de Zlata, além do ponto de vista infantil da guerra e suas consequências, não guarda semelhanças com a história da garota alemã. Para início de conversa, seu diário foi publicado em 1993 (no Brasil em 1994) em plena época de conflito. As primeiras fotocópias do diário foram publicadas quando Zlata ainda mantinha seus registros e a publicação aconteceu por influência da UNICEF que queria mostrar a situação das crianças durante a guerra no país para o resto do mundo. Entre o tempo desde as primeiras fotocópias até a edição definitiva que ganhou o mundo, Zlata praticamente se tornou uma espécie de correspondente de guerra. Situação esta, que sem dúvida contribuiu para que ela e a família entrassem na mira da mídia e das autoridades políticas da Europa. A última entrada do diário é do dia 17 de outubro de 1993, mais tarde naquele ano, pouco antes do Natal, ela e os pais receberam a permissão para deixar Saravejo (o que era praticamente impossível sem alguma influência externa) e foram refugiados em Paris. Diferentemente de Anne, Zlata saiu calejada, mas viva da experiência.

A edição brasileira (a que eu tenho é a reimpressão feita em 1997 da edição de 1994) conta com um prefácio escrito por Leão Serva. Serva é jornalista e escritor e foi correspondente durante a Guerra da Bósnia. Com um livro extremamente paradidático para se trabalhar conflitos armados em salas de aula e recomendado para figurar nas bibliotecas escolares, a inclusão do prefácio de Serva tornou a leitura ainda mais completa e contextualizada. Ele dá uma boa pincelada sobre a situação geopolítica da Bósnia e países limítrofes no passado até os dias que antecederam a explosão da guerra civil. Que na época da publicação do diário por aqui, ainda não havia acabado.

Fonte: Chloe Purnama

As entradas de Zlata no diário começam em setembro de 1991. Em tempos de “paz”, ele reflete apenas o cotidiano de uma garota de 10-11 anos: o anseio pela volta às aulas, os planos com as amigas, as matérias escolares, os cursos complementares, aniversários, clipes da MTV, férias… Mas, já no final deste ano começam as percepções dos sinais de uma possível guerra. Sinais rapidamente esquecidos em meio às distrações do dia-a-dia, até que a guerra bate à porta.

“Estou tentando me concentrar nos deveres (um livro para ler), mas simplesmente não consigo. Alguma coisa está acontecendo na cidade. Ouvem-se tiros nas colinas. Grupos de pessoas chegam de Dobrinja. Para tentar interromper alguma coisa – o quê, nem eles mesmos sabem. Digamos simplesmente que se sente que alguma coisa vai acontecer, já está acontecendo, uma terrível desgraça. Na televisão, vêem-se pessoas na frente da Assembléia Nacional. Na rádio toca permanentemente a música ‘Saravejo, meu amor’. Tudo isso é muito bonito, mas a todo momento sinto uma espécie de cãibra no estômago e não consigo mais me concentrar nos estudos.

Mimmy, estou com medo da GUERRA!”(Página 44)

A forma como Zlata vai se dando conta de tudo o que a guerra causa e como ela passa a ser grata do pouco que permite a sobrevivência dela e da família é tocante. O horror de saber dos conhecidos que morreram por causa da guerra divide as páginas com a esperança latente de um futuro melhor. E, por mais que com o passar do tempo, as páginas de Mimmy praticamente só se refiram à guerra, há raros momentos em que a ingenuidade e o otimismo juvenil imperam e a guerra é quase esquecida. Assim como há tantos outros em que o desespero é brutal e que a “política da guerra” não passa despercebida nem pela inocente garota. A inclusão das fotos da vida de Zlata e de fac-símiles das páginas de Mimmy, nos aproximam ainda mais da garota, ainda que sua experiência de vida seja tão diversa. Mas, acho que é justamente essa a importância deste livro, nos permitir conhecer essas realidades tão distantes da nossa. É um exercício de empatia muito válido.

Fonte: Foto de Eric Luke/The Irish Times

Zlata se graduou em direitos humanos pela Universidade de Oxford e continua envolvida na produção e a editoração de livros de não-ficção e documentários. Juntamente com Melanie Chall, organizou o livro Vozes Roubadas (publicado aqui em 2008), nos qual resgataram 14 diários de conflitos escritos por crianças e jovens, da Primeira Guerra Mundial à mais recente invasão do Iraque.

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