Mulheres Sem Nome (Martha Hall Kelly)

Mulheres sem nome surgiu da vontade de Martha Hall Kelly contar a história de Caroline Ferriday e seus feitos históricos. A história de uma filha da nata da sociedade nova-iorquina, ex-debutante, ex-atriz da Broadway e fortemente envolvida nas causas humanitárias, primeiramente com auxílios aos franceses e depois com as mulheres polonesas libertas do campo de Ravensbrück no pós-guerra além é claro de todo o trabalho político no qual acabou envolvida para garantir que as pessoas que cometeram atos terríveis durante a Segunda Guerra Mundial fossem punidas. Para contar essa história, ela concede a narrativa a três mulheres: Caroline e Herta, que realmente existiram, e Kasia, sua criação fictícia livremente baseada em algumas prisioneiras de Ravensbrück. Três mulheres, três narrativas, três caminhos díspares que os acontecimentos históricos fizeram coalescer. Hall Kelly retrata quase duas décadas (do pré ao pós-guerra) de histórias cotidianas, interesses amorosos, perdas e pequenas lutas diárias; e nos dá um baita exercício de empatia e uma ode às mulheres que estabeleceram uma rede de auxílio à outras mulheres nesses tempos tão sombrios.

Caroline Ferriday (Fonte: Blog Intrínseca)

Em setembro de 1939, Caroline Ferriday tem 37 anos e trabalha como voluntária no consulado da França em Nova York. Fortemente apegada à cultura francesa e com uma forte ligação sentimental com o país, ela não poupa esforços para ajudar os franceses exilados do lado de cá do Atlântico e para enviar toda a ajuda possível para os desvalidos de além-mar. Deixando em segundo plano seus próprios interesses. Na Polônia, conhecemos Kasia Kuzmerick, uma jovem de 16 anos que de repente vê as preocupações da juventude serem substituídas pela preocupação com a sobrevivência. Lublin sua cidade não demora a ser bombardeada pelas forças de Hitler e logo as tropas alemãs ocupam a cidade. Enquanto isso, na Alemanha conhecemos Herta Oberheuser que está para se formar em medicina e sonha se tornar uma cirurgiã, algo que lhe é proibido pelo regime nazista. Herta é fortemente doutrinada pelos livros e panfletos e acredita piamente que as ações contra os judeus são para a construção de uma Alemanha melhor. Com ela a autora evidencia o choque de gerações ocasionado pelo poderio hitlerista, no qual os filhos até mesmo chegaram a entregar os pais ao regime por eles se oporem aos desmando do governo.

A trama segue alternando entre as narrativas de Caroline, Kasia e Herta. Três timelines que seguem distintas até que se chocam primeiro a de Kasia e Herta e já mais para o final a destas com Caroline. Muitos capítulos (e isso foi um recurso que beirou a demasia) a autora finalizou com um cliffhanger e era preciso ler pelo menos mais dois capítulos até retornar até a narrativa que te deixou em suspenso e descobrir o que aconteceu, então é claro, você já está com outro cliffhanger em mãos para ser sanado. Por um lado é esperto porque nos prende à leitura sem que percebamos. Com a desculpa de que é só mais um capítulo e que você realmente precisa saber o que aconteceu com Kasia, Caroline e Herta, você avança várias páginas sem nem perceber. Por outro lado, essa aflição constante, unida a alguns capítulos bem curtos, acaba deixando a narrativa um pouco fragmentada o que pode incomodar alguns leitores.

Na Europa, os caminhos de Herta e Kasia não demoram a se encontrar. No campo de concentração de Ravensbrück. A primeira como média, a segunda como prisioneira. Esta parte da trama, que até acaba destoando da narrativa de Caroline, tão envolvida com a alta sociedade americana, é a de maior pungência. As mudanças de discurso de Herta, o horror inicial às “práticas médicas” do campo transformado em justificativas pró-carreira. Todo o sofrimento de Kasia e sua família no campo, culminando com as cirurgias experimentais que ela e a irmã foram submetidas. É também uma grande lição de resiliência, de apoio mútuo e de um pouco de audácia para arriscar tentar fazer o mundo saber as atrocidades que eram cometidas ali.

Herta Oberheuser durante o Julgamento de Nuremberg (Fonte: Blog Intrínseca)

Muitos desdobramentos da trama de Hall Kelly são bem presumíveis, mas isso não tira o brilho de uma história bem contada e é isso que ela faz em Mulheres sem nome. Meu único porém é a existência do Paul. Ele é um personagem fictício criado pelo autora para justificar a proximidade de Caroline com a França (por meio de um interesse amoroso, baita novidade só que não), mas, com uma mulher já bastante engajada nas causas sociais francesas, a existência de um romance destinado ao drama para justificar isso, se torna uma desculpa bastante superficial. Em muitos momentos a autora fez o mundo de Caroline girar ao redor de Paul e isso mais do que fortalecer a personagem ou torna-la mais empática ao leitor, tornou-a digna de pena, algo que não faz jus ao histórico que a autora quis trazer aos olhos do público.

“Caminhei até em casa com o passo leve, porque aquela noite havia libertado alguma coisa em mim, algo que havia muito ansiava por ser liberado. Finalmente vi aquele grupo como o que era, com poucas exceções: um bando de preguiçosos, sem objetivo na vida, (…). Jinx me fizera um favor: me libertara de minha persistente lealdade à sociedade de Nova York acabando com o meu medo de estar no lado errado.

Eu estava livre de ter que passar a vida tentando agradá-los, livre para seguir sozinha. ”(Páginas 237 e 238)

Mas, tirando isso, a narrativa de Hall Kelly é cativante e a história é emocionante. É uma história de mulheres comuns, que a guerra levou aos seus limites e exigiu delas escolhas que tiveram de carregar pelo resto de suas vidas. É uma narrativa atroz e dolorida, o poder destrutivo da guerra transborda pelas páginas, mas é também de esperança, dos atos heroicos de pessoas simples, que a história não conservou os nomes.

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