Uma Dobra no Tempo (Madeleine L’Engle)

O romance de Madeleine L’Engle foi publicado em 1962, mas foi só em 2012, lendo o livro Amanhã Você Vai Entender da Rebecca Stead, que tomei conhecimento desta obra infanto-juvenil, ganhadora da Medalha Newbery em 1963, e considerada icônica por abordar conceitos científicos e utilizar as viagens temporais para criar uma história de ficção científica, repleta de fantasia e agradável para todas as idades. Demorei a ter meu exemplar e quando o adquiri fiquei protelando a leitura, mas com a adaptação cinematográfica prestes a estrear, resolvi mergulhar de vez na trama de L’Engle.

Uma Dobra no Tempo, primeiro livro da série Viajantes no Tempo, traz a história da família Murry, ou mais especificamente, da jornada de Charles Wallace Murry, um garotinho prodígio de cinco anos, Meg Murry, sua geniosa irmã mais velha, e Calvin O’Kiefe, o novo amigo que não pensa duas vezes e embarca nessa aventura como eles para resgatar o pai de Charles e Meg. O pai, estava trabalhando em um projeto do governo quando deixou de se comunicar com a família. Um desaparecimento que para infinita tristeza e desgosto de Meg, tem gerado burburinhos entre os moradores da pequena cidade onde moram. Aliás, é com os moradores da cidade que L’Engle evidencia o quão maldosas as pessoas podem ser com os diferentes, com os que ousam se afastar um pouco que seja do considerado normal. Meg e Charles, os dois filhos estranhos dos Murry, nunca têm o mesmo tratamento reservado aos seus irmãos gêmeos, bastante populares. Não é estranho então, que caiba aos dois, relegados à obscuridade social, mas com suas próprias características especiais, irem nessa missão de resgate. Essencialmente, Uma dobra no tempo representa a jornada do herói, ou melhor, da heroína, ainda que com toda uma abordagem metafísica e tal, mas ainda assim, uma jornada de descoberta e de empoderamento e de celebração das diferenças. É com Meg e Charles que a autora evoca um discurso de tolerância ao diferente, de pensar fora da caixa e não ser apressado em rotular as pessoas conforme a sua própria experiência.

“- Acha que as coisas sempre têm uma explicação?

– Sim, acredito que têm. Mas acho que, com nossas limitações humanas, nem sempre somos capazes de entender as explicações. Mas você percebe, Meg, só porque não entendemos não significa que a explicação não exista.” (Página 58)

Irão acompanha-los nessa aventura, três entidades nas figuras de três senhoras bastante peculiares. A Sra. Queé, responsável por nos explicar as viagens temporais. É através dela que L’Engle explica de forma simples e certeira (a algumas ilustrações ajudam), alguns conceitos matemáticos e físicos. Especialmente das viagens através das dobras: no espaço, no tempo… A Sra. Quem, que tem dificuldades em verbalizar seus pensamentos e o faz na forma de citações, recheando a narrativa com várias referências à outras obras. E a quase incorpórea Sra. Qual, a mais antiga, quiçá a mais poderosa das três.  E com a qual também temos menos contato. É com elas que as crianças são capazes de tesserar, ou seja, viajar através das dobras, passando por planetas fantásticos e com paisagens belíssimas, planetas bidimensionais incompatíveis com a vida humana, o cinturão de Órion, Camazotz. Aqui é onde começa propriamente dita a aventura das crianças para resgatar o pai. Camazotz é a personificação da ordem, é o discurso da higienização em ação. Um lugar onde ninguém tem liberdade para ser.

Apesar de ser um livro que em essência lida com o conhecimento científico, há também muito de religião na história de L’Engle. Ciência e religião, aparentemente tão incongruentes, mas que a autora conseguiu trabalhar em conjunto com muita harmonia. A beleza da trama de L’Engle está no discurso contundente contra a homogeneização. Ser semelhante não é ser igual e é preciso respeitar e enaltecer as diferenças. É um discurso que mesmo tendo sido feito lá em 1962, continua tão atual e necessário. O bom é que apesar do suspense no ar, a história dos Murry e de Calvin tem conclusão. A aventura completa seu ciclo e Uma dobra no tempo pode ser lido como romance único. Mas, nada te impede de ir atrás dos próximos volumes também.

Eu li a edição (já esgotada) da Rocco, que traz o discurso feito por L’Engle durante a cerimônia de premiação da Medalha Newbery. Um discurso bastante inspirador e que cala fundo naqueles que enxergam a beleza de uma boa história fantástica. O tom mais infantil da narrativa de L’Engle, não tira o brilho de sua obra.

A editora HarperCollins Brasil está publicando novas edições da série no Brasil. As edições comemorativas (em capa dura) de Uma dobra no tempo e Um vento à porta já podem ser adquiridas nas livrarias.

Leia uma amostra aqui:

Conheça a Série Viajantes no Tempo

  1. Uma Dobra no Tempo [Goodreads][Skoob]
  2. Um Vento à Porta [Goodreads][Skoob]
  3. Um Planeta em seu Giro Veloz [Goodreads][Skoob]
  4. Many Waters [Goodreads ][Skoob]
  5. An Acceptable Time [Goodreads][Skoob]

Compre aqui:

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Arquivado em Lendo aleatoriamente, Resenhas da Núbia

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