Mrs. Dalloway (Virginia Woolf)

Apesar de já ter um Virginia Woolf na estante há tempos, sempre fiquei protelando sua leitura. Acho que no fim das contas eu era uma dos que tinham medo de Virginia Woolf. Ter colocado um livro dela nas listas do projeto Volta ao Mundo em 198 Livros e do Desafio Livrada foram os incentivos que faltavam para eu finalmente experimentar o texto de Woolf. Decidi começar por uma de suas obras mais famosas: Mrs. Dalloway. Talvez um dos melhores exemplos do uso do fluxo de consciência em um romance. Também comecei por ele porque queria começar a ler Virginia por um romance e não por seus contos.

O romance publicado em 1925 começa com Clarissa Dalloway, uma distinta senhora de 52 anos, que decide sair ela mesma para comprar as flores para a festa que ela irá dar logo mais a noite. Está estipulada aqui a linha temporal espacial da história. Todos os acontecimentos ocorrem em um dia: a partir da saída de Clarissa até a ocorrência de sua festa. No plano das ideias, entretanto, a linha temporal dilata-se ao extremo para abarcar lembranças, excursões ao passado e complexos diálogos interiores.

Tudo começa com Clarissa e suas reminiscências: lembranças de sua juventude, dos amores negados (seu relacionamento com Sally e a autoconfissão do seu desejo por outras mulheres), dos relacionamentos rompidos, das escolhas que culminaram em sua vida atual. Uma saída à rua pode render muitas observações, umas automáticas, outras percebidas somente pelos atentos. É assim que Mrs. Dalloway repara nos transeuntes e os transeuntes por sua vez ganham nome e peculiaridades e todo o universo de diálogos interiores se abre. É assim com Maisie e a saudade de casa. Com Septimus e a loucura encarnada. Rezia e sua preocupação com a situação do marido. Peter, que um dia quis casar com Clarissa, mas foi preterido. Doris, a preceptora de Elizabeth (filha de Clarissa), e sua postura em antítese à Mrs. Dalloway.

Aqui percebemos que há dois polos claros na trama de Woolf: Septimus e todo seu desencanto pela vida e Clarissa e todo o seu amor pela vida e a vontade de celebrá-la.

“Ali estavam suas rosas. Suas festas! Era isso! Era isso! Suas festas! Ambos tinham criticado muito injustamente, rido dela muito injustamente, pelas suas festas. Era isso! Era isso! Bem, como ela podia se defender? Agora que ela sabia o que era, sentia-se totalmente feliz. Pensavam, ou pelo menos Peter pensava que ela gostava de aparecer; gostava de estar rodeada de gente famosa; grandes nomes; era simplesmente uma esnobe. Bem, Peter poderia achar isso. Richard só achava que era tolo de sua parte gostar da excitação quando ela sabia que isso não era bom para seu coração. Era infantil, pensava ele. E os dois estavam completamente errados. O que ela gostava era simplesmente da vida.“ (Páginas 116 e 117)

Se com Clarissa, Woolf celebra a vida; com Septimus, Rezia e a procura por tratamento que acabou agravando a situação do primeiro, por falta de tato (e de competência?) dos médicos procurados para ajudá-lo, Woolf faz uma crítica mordaz aos tratamentos psiquiátricos da época. E com conhecimento de causa, já que ela própria sofreu com um transtorno mental.

É assim que Mrs. Dalloway se delineia como uma história sobre o cotidiano. Sobre as escolhas que fazemos e as ligações intercambiáveis que os encontros casuais diários fazem acontecer. Conhecer os personagens, não por suas aparências, mas pelo que lhes vai ao pensamento, é o que nos prende cativos à narrativa. Como não se reconhecer na balbúrdia de conjecturas encerradas nas mentes de seus personagens? Quem nunca teve infinitos diálogos interiores (algumas vezes até mesmo transformados em solilóquios verbais)? Talvez, por se situar mais no plano das ideias, do que no material, é que muitos dos temas abordados em Mrs. Dalloway continuem atuais. Amor, morte, política, religião, transtornos mentais, todos temas com implicações atemporais. Contudo, Mrs. Dalloway também é um retrato de seu tempo, de uma Inglaterra que precisa lidar com seus soldados combalidos no período entreguerras, as políticas exteriores na Índia, a ainda incipiente inclusão feminina no mercado de trabalho. E aqui, o tempo já tão elástico no campo das ideias, se estende também no tempo físico ao se manter atual mesmo estando situado em um tempo lá no passado. Mas, acho que isso acaba sendo uma das características dos clássicos. E fico feliz em dizer que podem até permanecerem alguns resquícios do meu medo de ler Virginia Woolf, mas com certeza agora quero ler todos os livros dela.

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