Todo Dia a Mesma Noite (Daniela Arbex)

“A capitã da brigada caminhou pela Kiss atordoada não só com o que viu, mas com o barulho dos celulares das vítimas. Os aparelhos tocavam juntos e cada telefone tinha um som diferente. (…) Na maioria dos casos, porém, o visor indicava a mesma legenda: “mãe”, “mamãe”, “vó”, “casa”, “pai”, “mana”. Aquela sinfonia da tragédia era tão insuportável quanto a cena que Liliane presenciava. Como lidar com um evento dessa proporção?“ (Páginas 34 e 35)

Na manhã do dia 27 de janeiro de 2013 o Brasil acordou estarrecido pela tragédia que se abateu em Santa Maria no Rio Grande do Sul. Até o dia 26 de janeiro, Santa Maria vivenciou uma calmaria sem precedentes nos atendimentos do SAMU. Na madrugada do dia 27, a tempestade. A boate Kiss, com superlotação, funcionando sem todos os alvarás obrigatórios, utilizando material expressamente proibido com a finalidade de isolamento acústico, aliado a uma ação totalmente imprudente, incendiou. Com a guarnição dos bombeiros desfalcada, dezenas de civis ajudaram no resgate, muitos morreram durante o processo. Com uma só porta de saída e entrada, dificultada pela presença de guarda-corpos, muitos jovens não conseguiram sair, centenas morreram na boate e mesmo entre os resgatados com vida, muitos acabaram morrendo depois vítimas da intoxicação da fumaça letal gerada na combustão. O incêndio na Kiss interrompeu 242 vidas repletas de sonhos e projetos. A tragédia foi amplamente esmiuçada na mídia e muitos desses detalhes se tornaram de conhecimento público. Então, qual seria a história não contada da boate Kiss?

Quando a Editora Intrínseca divulgou a sua  lista de lançamentos de janeiro, confesso que bateu um receio, não tinha certeza se o leria, por medo de que fosse ser uma obra a explorar a dor dessas famílias já tão flageladas pela tragédia. Decidi arriscar e findada a leitura veio a certeza de que esse não foi o objetivo de Arbex em nenhum momento. O que ela faz em Todo dia a mesma noite é dar espaço para as muitas histórias que acabaram soterradas em meio à cobertura midiática do acontecimento. São os relatos desesperadores daqueles que deram tudo de si nos momentos do resgate, mesmo com baixo efetivo e escassez de materiais. Dos paramédicos, médicos, enfermeiras e dezenas de voluntários que fizeram de tudo para evitar que o número de vítimas fatais continuasse aumentando. São os relatos daqueles que em meio a tanta dor, trabalharam diligentemente para entregar às famílias, com toda a dignidade possível, os corpos das vítimas para que pudessem ser velados. São os relatos pungentes de mães, pais, avós, filhos, filhas, namorados, namoradas e amigos, que naquele dia 27 de janeiro de 2013 perderam um grande pedaço de si. É um retrato da saudade, uma sacudida na memória e um baita exercício de empatia. É um registro da solidariedade, da rede de voluntários que concretizou a transferência de muitos feridos graves para a capital, que mantiveram a ventilação manual ininterruptamente na falta de equipamentos, de pais que mesmo sabendo que os filhos estavam entre as vítimas, continuaram tentando salvar a daqueles que estavam em suas mãos. Mas, também do pior lado que nós podemos demonstrar: os escusos interesses políticos, o julgamento daqueles que pautados em suas crenças religiosas decidiram culpar os pais pelas mortes dos filhos, a especulação comercial que inflacionou o mercado funerário.

O registro feito por Arbex, com tanta sensibilidade e respeito, torna-se necessário frente a impunidade que já perdura por cinco anos. Apesar do inquérito policial (finalizado em março de 2013), no qual inúmeras pessoas foram indiciadas, até hoje os sobreviventes e os parentes das vítimas clamam por justiça. Mesmo os quatro acusados pelo incêndio, hoje respondem em liberdade aos crimes a eles imputados. Não se trata de explorar a dor alheia, mas sim dar voz àqueles que enleados pela tristeza, assistem a memória de seus familiares queridos ser relegada ao esquecimento. É preciso lembrar para que a justiça não seja sepultada. Para que a certeza da impunidade não prenuncie outras tragédias como a Kiss. Para que a manifestação da memória coletiva sobre o que ocorreu, não gere conformismo e não deixe a omissão criar raízes. Para que outra cidade não tenha de assistir centenas de pais prantearem seus filhos.

“Para as vítimas indiretas do incêndio na Kiss, resistir não é uma escolha, mas um imperativo de sobrevivência. Resistir ao cansaço da espera por alguém que não voltará, ao silêncio imposto pela ausência, à dor que teima em ficar, por mais que se queira livrar-se dela. Resistir não só à perda, mas ao esquecimento, que busca sepultar os erros que contribuíram para que o dia 27 de janeiro de 2013 não terminasse para mais de duzentas pessoas. A construção da memória do pior desastre provocado pelo homem na história recente do Brasil é necessária. Só assim o país poderá lidar de frente com as causas e as consequências de uma tragédia que envergonha pela matança e pela impunidade.“ (Página 227)

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