Cartas de Amor aos Mortos (Ava Dellaira)

Depois do que aconteceu com May, sua irmã mais velha. Laurel decidiu ir para uma nova escola cursar o Ensino Médio. Ela não queria ser alvo de olhares de pena e ter de responder a perguntas. Na nova escola, porém, ela é uma solitária. Com a morte de May, a família de Laurel desmoronou: a mãe foi embora; o pai está ausente mesmo estando por perto; e sobrou para Laurel passar a maior parte do tempo com a tia, que tenta compensar a perda de May com um controle mais rígido (ainda que falho) de Laurel. Talvez Laurel continuasse a levar uma vida escolar solitária, e uma vida familiar ausente de diálogos e se contentasse apenas em nutrir sentimentos platônicos pelo misterioso Sky, seu colega de escola. Mas, uma tarefa escolar foi a catalisadora de mudanças. A tarefa era simples. Escrever uma carta para alguém que já morreu. Laurel escreve. Na verdade, a partir de então ela lota seu caderno de cartas e mais cartas, mas não as entrega à professora.

Kurt Cobain, Judy Garland, Elizabeth Bishop, Janis Joplin, River Phoenix, Amelia Earhart, Amy Winehouse, Jim Morrison, John Keats, E.E. Cummings, Heath Ledger… Na companhia deles, Laurel tenta lidar com seu primeiro ano em uma escola nova e com sua família despedaçada. Por meio das cartas, ela começa a se abrir e se permitir a cultivar amizades na nova escola. Por meio das cartas ela rememora seus momentos com May e tenta entender o que aconteceu na noite que a irmã morreu. O que Laurel fez na noite em que May se matou? O que acontecia nas noites de sexta-feira? São respostas com as quais Laurel precisa se reconciliar.

Por admirar tanto a irmã, Laurel sempre se contentou em viver a vida de May, mas isso não deu certo em algum momento, o que acabou acarretando a decisão de May. A morte da irmã, assim como o seu segredo, são coisas que Laurel aprendeu a esconder para sobreviver, mas isso também acabou isolando-a das outras pessoas, mesmo daquelas que estão constantemente querendo entrar. A jornada é árdua, mas ela precisa se reconciliar consigo mesma e se permitir a se perdoar por algo que ela julga ser sua culpa, só assim ela poderá começar a viver a vida de Laurel.

“Querida Amelia,

(…)

Uma vez você disse que as pessoas eram tímidas demais para sobrevoar o próprio Atlântico, e acho que é verdade que a vida de todos nós é cheia de oceanos. Para Hannah, o Atlântico era enfrentar o irmão. E acho que agora que ela chegou ao outro lado, está descobrindo que pode ser forte.

Para mim talvez o Atlântico tenha sido aprender a falar sobre as coisas, ainda que um pouco por vez. Mas acho que a grande coragem é perceber que, por mais oceanos que eu atravesse, a verdade, simples e boa, vai sempre estar do outro lado.” (Página 304)

Eu confesso que só peguei este livro para ler por causa do Desafio Lendo Mais Mulheres 2018. Era o único livro de correspondências que tinha na estante (é da minha irmã), até então não tinha lido nem resenhas, visto vídeos ou mesmo lido a sinopse do livro. Se não fosse o empurrãozinho dado pelo desafio, não teria lido o livro da Ava Dellaira. E teria sido uma pena. Uma pena porque Cartas de Amor aos Mortos coloca em discussão assuntos difíceis e doloridos: suicídio, abuso, o luto, a culpa, a depressão. Tudo com uma linguagem bastante jovem e atual. Não torça o nariz por ele ser um romance YA!

Ao escolher contar essa história por meio das cartas que Laurel escreve à personalidades que já morreram, Ava conseguiu deixar sua protagonista ainda mais próxima do leitor. A dor de Laurel passa a ser a nossa e a sensação de culpa que ela carrega desde que a irmã se suicidou nos sufoca. Como disse, é uma leitura dolorida (de travar a garganta), mas é também uma leitura de esperança, sobre a importância do apoio dos amigos na superação dos momentos difíceis, de como é importante falar mesmo que por vezes você ache que ninguém está ouvindo, como o diálogo é o único caminho para desfazer mal entendidos e que aprender a se perdoar pode ser um caminho árduo, mas que vale a pena. Se antes não fazia nem ideia sobre o quê o livro tratava, hoje o recomendo sem pensar duas vezes.

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