Endurance – Um ano no espaço (Scott Kelly)

“Havíamos acelerado de zero a 28 mil quilômetros por hora em apenas oito minutos e meio. Agora, flutuávamos no espaço. Olhei pela janela.

(…)

– Ei, o que diabos é aquilo? – perguntei (…)

– É o nascer do sol – respondeu Curt.

Um amanhecer orbital, o meu primeiro. Eu não fazia ideia de quantos outros veria. Agora já vi milhares, e a beleza deles nunca me cansa.

(..) Quando passamos sobre a Europa, vi uma linha azul e laranja pela janela que se estendia no horizonte à medida que aumentava. Para mim, parecia tinta colorida brilhante em um espelho, bem diante dos meus olhos, e eu soube imediatamente que a Terra seria a coisa mais linda que eu veria. ” (Páginas 230-231)

Ver a Terra do espaço já deve ter sido o sonho de uma a cada três crianças (na verdade essa proporção é inventada porque na realidade não faço a mínima ideia da quantidade de crianças que sonharam/sonham em ser testemunhas, mas imagino que seja um grande número). E para muitas (e eu me incluo nessa) o sonho pode até ter sido substituído, mas o interesse pelo espaço, a torcida pelas viagens tripuladas (e pelos lançamentos de sondas espaciais) e a curiosidade por tudo que cerca a carreira de um astronauta continua. Por isso, Endurance, o livro escrito por Scott Kelly, um astronauta que embarcou na missão de passar um ano na Estação Espacial Internacional (EEI), é cativante. O livro que é uma mistura de biografia, documentário e divulgação científica traz informações desde o processo de seleção de um futuro astronauta, seu treinamento e a designação das missões; passando pela história e funcionamento do programa espacial americano, seus sucessos, fracassos e tragédias; o início da colaboração internacional que culminou na construção da EEI e a transferência dos lançamentos tripulados para a agência espacial russa. Uma pequena informação: desde 2011, com a aposentadoria dos ônibus espaciais, astronautas não deixam a Terra a partir de lançamentos nos Estados Unidos. Agora eles são feitos a partir do Cosmódromo de Baikonur no deserto cazaque, a bordo das naves Soyuz.

Foi lendo The Right Stuff (Os Eleitos) do Tom Wolfe que o jovem Scott, até então errante quanto ao seu futuro, teve o estalo sobre que profissão queria seguir. Entrar para a Marinha, virar piloto de testes e se tornar um astronauta, um piloto de ônibus espaciais. Acabou sendo Tom Wolfe a também inspirá-lo a colocar sua experiência, da infância à sua última grande missão espacial, em palavras.

Desde que se tornou habitável, ou mais precisamente, desde 2 de novembro de 2000, a EEI nunca ficou desabitada. Ela já foi visitada por mais de duzentas pessoas, de dezesseis diferentes nações, e é a estrutura habitada a mais tempo no espaço. Scott já esteve no espaço quatro vezes, mas desta vez ele o cosmonauta russo Mikhail Kornienko aceitaram a missão sem precedentes de passar um ano no espaço para colher informações sobre o que acontece ao corpo humano nesse período. O fato de Scott ter um irmão gêmeo (também astronauta) que permaneceria na Terra foi um incentivo a mais para os objetivos da missão. São todas essas experiências, do lançamento da Soyuz em 27 de março de 2015 até o retorno à Terra em 02 de março de 2016, que Scott intercala com momentos do seu passado, da infância em Nova Jersey às viagens nos ônibus espaciais. E, como alguém confinado vinte e quatro horas por dia, mesmo com as belas vistas periódicas, ele também não se priva de tecer críticas ao gerenciamento da EEI, principalmente no que diz respeito ao gerenciamento dos níveis de CO2, ou aos gastos tolos e exagerados, como a compra de uma máquina de café expresso. E, como astronauta interessado na melhoria dos voos espaciais, ele não deixa de mencionar a complacência em relação à segurança no programa do ônibus espacial que culminou nas tragédias da Challenger e, mais recentemente da Columbia em 2003. Neste último, Scott perdeu três amigos de sua turma de astronautas. Mas, ele também não deixa de fazer jus à importância das pesquisas científicas, dos estudos médicos às plantações de zínias que fizeram suas habilidades botânicas serem questionadas no Twitter por um fã do Mark Watney.

Scott Kelly e Mikhail Kornienko (Foto: NASA).

“A ciência ocupa cerca de um terço do meu tempo enquanto os estudos humanos tomam mais ou menos três quartos. (…)

Na verdade, existe uma relação muito íntima entre essas categorias de pesquisa. (…) Se descobrirmos como manter nossos corações saudáveis no espaço, o conhecimento será útil para a saúde cardíaca na Terra. (…) O sistema hídrico fechado desenvolvido para a EEI, em que processamos nossa urina para transformá-la em água limpa, é crucial para chegarmos a Marte, mas também tem implicações promissoras para o tratamento de água na Terra, em especial em lugares onde a água limpa é escassa. Essa sobreposição de metas científicas não é algo novo – quando o Capitão Cook viajou pelo Pacífico, seu propósito era a exploração, mas os cientistas que o acompanharam colheram plantas ao longo do caminho e revolucionaram o campo da botânica. O propósito da expedição de Cook era científico ou exploratório? No fim das contas, faz diferença? Ela será sempre lembrada pelas duas coisas, e espero que o mesmo se aplique ao tempo que eu passar na estação espacial. ” (Páginas 110-111)

Nada posso dizer quanto a narrativa do Tom Wolfe, mas como inspiração, The Right Stuff cumpriu muito bem o seu papel. Para a profissão e para as palavras. A narrativa de Scott é fluida e instigante, daquelas que não se quer largar até chegar ao fim. Leitura mais do que recomendada para os que gostam de ler sobre ciência e viagens espaciais e para os que gostam de biografia. Se você foi uma daquelas crianças que mencionei lá no início, então este livro será um prato cheio para alimentar sua curiosidade latente sobre como as coisas são feitas por lá.

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Arquivado em Editora Intrínseca, Editoras Parceiras, Resenhas da Núbia

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