A Promessa/A Pane (Friedrich Dürrenmatt)

Em agosto Cristóvão Tezza indicou duas obras do escritor suíço Friedrich Dürrenmatt aos associados da TAG Curadoria. O romance A Promessa publicado originalmente em 1958 e a novela A Pane de 1956, Dürrenmatt além de ficcionista em prosa, também era dramaturgo e se aventurava pelos ensaios, tratados filosóficos e políticos e roteiros para o cinema.

No romance A Promessa, Dürrenmatt embarca na metaliteratura ao trazer para as páginas de seu romance, que de certa forma pode ser caracterizado como um romance policial, um debate sobre literatura policial. O narrador inicial desta história é um autor de romances policiais que dá palestras e ministra cursos para aspirantes à escritores. É ele que no s introduz à história, mas cabe ao doutor H nos desvelar a verdadeira trama de A Promessa. O doutor H é um ex-oficial da lei que não vê com bons olhos os romances policiais, considerados por ele quase utópicos.

“Não, eu me irrito muito mais com a ação em seus romances. Aqui o engodo é tremendo demais, desavergonhado demais. Vocês constroem ações de um jeito lógico, e ele segue como um jogo de xadrez, aqui o criminoso, aqui a vítima, aqui o cúmplice, aqui o beneficiário; basta que o detetive conheça as regras e refaça os movimentos, logo ele terá posto o criminoso em xeque, ajudando a justiça a triunfar. Essa ficção me deixa furioso. Apenas em parte se lida com a realidade através da lógica. ” (Página 16)

O assassinato de uma garotinha, um suspeito óbvio, um resultado almejado por muitos, mas que pode não ser o verdadeiro. A jornada empreendida por um homem para encontrar o verdadeiro assassino, mais pautada pela loucura do que pela lógica. É com esse caso policial do seu passado, que o doutor H tenta provar o seu ponto. Se na realidade uma investigação criminal seguisse a engrenagem azeitada dos romances policiais, a investigação de Matthäi teria seguido um processo lógico e como esperado, uma conclusão condizente com a atitude tomada pelo investigador. Mas, para desgosto de Matthäi não é assim que acontece. Nem toda estratégia, nem toda paciência para aguardar o momento certo e muito menos toda a obsessão reservam o xeque-mate que Matthäi esperava. Dürrenmatt consegue manipular as nossas expectativas e, ao quebrá-las, acaba nos surpreendendo ainda mais. Em A Promessa essa quebra de expectativas tem um gostinho de anticlímax, mas ainda assim é uma reviravolta bastante interessante. E, ainda que a história do doutor H mostre que a conclusão de uma investigação criminal não siga esse padrão concatenado entre ações e resultados, ela ainda assim não descarta a importância da lógica, da reconstituição dos movimentos do assassino e da clássica construção de armadilhas. É o acaso, que na maioria das vezes, coloca tudo a perder.

Na novela A Pane uma brincadeira entre amigos ganha proporções filosóficas e morais. Alfredo Traps, profissional do setor têxtil, estava retornando para casa quando seu carro sofreu uma pane próximo a uma pequena cidade. Ali ele é hospedado por um senhor que o convida a fazer parte de uma reunião com seus amigos, onde um jogo toma corpo. Um tribunal fictício no qual cabe a Alfredo o papel de réu. Este aos poucos vai tendo seu passado destrinchado. Uma aparente brincadeira a qual Traps se entrega com prazer e um tanto de descuido. Um julgamento que pode até não ser real, mas com implicações exacerbadamente palpáveis na psique do novo envolvido. Aqui, Dürrenmatt mostra o poder das palavras e da lógica e como elas podem mudar nossa percepção da realidade. Uma “realidade” às vezes difícil de encarar.

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