O Deserto dos Tártaros (Dino Buzzati)

O Deserto dos Tártaros foi publicado em 1940 e é considerada a obra-prima do italiano Dino Buzzati. A história, que tem uma grande carga filosófica, versa sobre a espera. Sobre engolir sapos, esperando posteriormente desfrutar de um lauto banquete. Mas, como bem colocado por Antonio Candido em sua resenha do livro, a obra de Buzzati é um romance de desencanto. Não há muito o que esperar do porvir, porque a vida, ah, essa só reserva frustrações. Contudo, por mais que a tristeza esteja reservada para o fim e que a melancolia seja companheira ao longo de toda a narrativa, isso não diminui a beleza poética do texto de Buzzati, um romance no qual os anseios e as renúncias são praticamente personagens.

“Do deserto do norte devia chegar a sorte, a aventura, a hora milagrosa, que, pelo menos uma vez, cabe a cada um. Para essa vaga eventualidade, que parecia tornar-se cada vez mais incerta com o tempo, os homens consumiam ali a melhor parte das suas vidas.” (Página 54)

Giovanni Drogo, um jovem militar, é designado para servir em uma longínqua fortaleza nas montanhas, que em tempos remotos foi um importante ponto de defesa contra os tártaros que chegavam via deserto. Drogo que sonhava com uma bela designação, descobre que o forte Bastiani está encravado em terras ermas. Um lugar onde ninguém quer permanecer e para onde ninguém quer ser designado. De início, Drogo está determinado a partir, mas chegando o momento desiste, mesmo com tantos avisos para que não se entregasse a espera de uma invasão vinda do deserto que nunca se concretizará. Impregnou-se também pelo forte Bastiani e decidiu apostar todas as suas fichas em uma improvável invasão que seria barrada pela fortaleza trazendo-lhes os louros da glória. Nessa probabilidade, Drogo investiu toda a sua juventude, abdicou de família, de amigos e amores. Fez da espera sua meta de vida e nesse anelamento ensimesmado esqueceu-se de viver.

“Justamente naquela época Drogo deu-se conta de que os homens, ainda que possam se querer bem, permanecem sempre distantes; que, se alguém sofre, a dor é totalmente sua, ninguém mais pode tomar para si uma mínima parte dela; que, se alguém sofre, os outros não vão sofrer por isso, ainda que o amor seja grande, e é isso o que causa a solidão da vida. ” (Página 172)

Assim como a vida muitas vezes reprisa eventos e nos faz questão de mostrar a passagem do tempo, também o faz Buzzati, e quando Drogo finalmente se dá conta do muito que perdeu em seus anseios, o destino lhe reserva uma piada final, mas mesmo em meio a tanto desencanto, ainda sobra espaço para a redenção final, ainda que ela não seja exatamente aquela que ele tanto esperou. No fim, permanecem os questionamentos. Vale a pena esperar tanto? Vale a pena fiar-se no destino acreditando que ele há de reservar um quinhão de felicidade para cada um de nós?

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