Syngué Sabour: Pedra-de-paciência (Atiq Rahimi)

Syngué sabour é uma pedra considerada mágica, segundo a crença você deve lhe falar seus segredos e tormentos. A pedra escuta, até que um dia, cheia deles, explode, libertando o lamuriante de todo o sofrimento. Reside nessa crença o mote da trama de Atiq Rahimi. O curto romance vencedor do Prêmio Goncourt em 2008, se passa basicamente em um quarto de uma casa afegã ainda que seja possível entreouvir os acontecimentos fora deste.

No quarto, uma mulher velando o marido em coma enquanto lá fora as bombas caem sobre a cidade. A narrativa se restringe à casa da mulher e seu marido. Quando dali ela sai, nada nos é narrado e a passagem do tempo é marcada pelas respirações do moribundo. O mundo externo é intuído pelas bombas, tiros, sons rotineiros dos habitantes e sermões diários do mulá. Aos poucos, o silêncio da situação começa a ser quebrado pela mulher: uma lamúria, uma lamentação, uma reclamação…. Esta, sem ter mais ninguém com quem contar ou conversar, aos poucos começa a fazer de seu marido o fiel depositário de suas palavras, sua syngué sabour. Ao longo das confissões, uma pincelada da cultura afegã nos é desvelada. E a situação política e o estado de guerra são mostrados.

“Nessa noite não há tiros.

Sob a luz fria, desbotada e fraca da lua, os cães errantes latem por todos os cantos da cidade. Até a alvorada.

Eles estão com fome.

Nessa noite não há cadáveres. ” (Página 135)

A narrativa é feita em terceira pessoa. Como se o observador estivesse a nos narrar os fatos dessa história por partes. Por meio de frames, fragmentos de uma situação maior. Como se o tempo também tropeçasse em meio a angústia sofrida pelos personagens.

Quadro a quadro a destruição vai se aproximando e o desespero aumentando. Nessas horas, verdades sombrias vêm à tona, A mulher extravasa seus pensamentos mais secretos para sua syngué sabour. Depois de cada rompante, a angústia impetrada pelos costumes que sempre lhe tolheram a voz. O tom libertador da narrativa fica por conta dos temas tratados, especialmente a frustrante vida sexual da esposa e os subterfúgios que ela teve de empregar para garantir seu futuro.

O romance que desde o princípio segue impregnado de simbolismos, finaliza em um grande evento simbólico. A syngué sabour da mulher “responde” aos seus lamentos e resta a dúvida: ela está livre finalmente de seus sofrimentos ou novamente eles estão sufocados e ela colocada no lugar que a sociedade sempre lhe reservou?

A história foi adaptada para o cinema, com direção e roteiro do próprio Atiq.

Este foi o livro que escolhi para representar o Afeganistão no Projeto Volta ao Mundo em 198 Livros.

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Arquivado em Desafios Literários, Lendo aleatoriamente, Resenhas da Núbia, Volta ao Mundo em 198 Livros

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