Primavera Num Espelho Partido (Mario Benedetti)

Depois de me enveredar por histórias em meio a regimes ditatoriais, no Brasil e no Oriente Médio, acabei indo parar no Uruguai. O livro de fevereiro da TAG Curadoria (indicação do autor Julián Fuks) foi Primavera num espelho partido, escrito por Mario Benedetti quando se encontrava na Espanha em um exílio que já durava mais de dez anos em decorrência da repressão militar no Uruguai.

“Reorganizar-se no exílio não é, como se diz tantas vezes, começar a contar do zero, mas começar de menos quatro ou menos vinte ou menos cem. ” (Página 102)

O romance foi escrito no período após o plebiscito de novembro de 1980 que marcou o início do processo de abertura e redemocratização política do Uruguai, mas apesar do período esperançoso, Benedetti não deixa de mostrar o amargor e a solidão dos que tiveram a vida interferida pelo regime. Especialmente de Santiago e sua família. Ele que foi preso pelo regime e sua família, esposa, filha e pai que se viram obrigados a buscar asilo longe de seu país. Benedetti traz um retrato do cotidiano maculado pela ditadura. Para fazer isso, ele traz um romance polifônico, no qual a realidade de muitos exilados e presos políticos se mescla a ficção da história de Santiago.

A polifonia é obtida com a junção de seis livros, em que cada narrador tem sua marcação própria e inconfundível dos demais. Intramuros traz a narrativa de Santiago, “o narrador principal” desta história. É a narrativa da desesperança, das agruras sentidas no corpo, do longo inverno que parece nunca ter fim. Dom Rafael, traz a história do ponto de vista do pai de Santiago, um exilado político. Dom Rafael traz consigo a esperança de uma nova pátria, livre da ditadura. Não para ele ou reconstruída por aqueles de sua geração, mas sim por aqueles que não vivenciaram o regime e que precisarão ser constantemente lembrados dele. Beatriz, traz a ingenuidade da filha de Santiago, o olhar infantil sobre as consequências da repressão política. Aquela que com sua ingenuidade consegue colocar o dedo na ferida e sentir da sua maneira a dor de ser uma exilada. Que segue repleta de dúvidas sobre qual seria sua pátria verdadeira. Ferido e Contundidos traz a rotina de Beatriz e Graciela (a esposa de Santiago) nesse novo núcleo familiar surgido com a ausência. O Outro é Rolando, amigo de Santigo e que na ausência do camarada cada vez mais se aproxima da esposa deste. Finalmente, Exílios traz excertos das experiências de Benedetti e outros exilados políticos. As primeiras fugas para o exterior, o braço longo da repressão que os obrigou a ir para mais longe e as saudades imensas de sua pátria natal.

No início pode até parecer bagunçado, mas as vozes altercantes encontram ritmo próprio e se unem para entregar uma história que explora o lado humano, a rotina diária impactada pela ditadura. Não é o regime o foco, mas as implicações dele na sociedade durante e após sua existência. A separação de famílias, a adaptação ao estrangeiro, a falta marcante daqueles arrancados do seio familiar pelas forças repressivas. Ao enfocar o comum, Benedetti conseguiu impregnar sua história de força e empatia arrebatadoras.

Quando Benedetti escreveu este romance, o plebiscito de 1980 ainda estava bem recente e o clima esperançoso influenciou a ficção e o destino que ele reservou para Santiago. A liberdade dele enfim é alcançada, as consequências desse longo período de ausência é uma tarefa que ele terá de encarar.

“depois desses cinco anos de inverno ninguém vai me roubar a primavera

a primavera é como um espelho mas o meu está com a ponta quebrada / era inevitável não ia sair inteirinho desse bem nutrido quinquênio / mas apesar da ponta quebrada o espelho serve a primavera serve. ” (Página 216)

Este foi o livro que escolhi para representar o Uruguai no Projeto Volta ao Mundo em 198 Livros.

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2 Comentários

Arquivado em Desafios Literários, Lendo aleatoriamente, Resenhas da Núbia, Volta ao Mundo em 198 Livros

2 Respostas para “Primavera Num Espelho Partido (Mario Benedetti)

  1. Super bacana essa volta ao mundo….

    Curtido por 1 pessoa

    • Nubia Esther

      Está sendo muito legal participar dessa “viagem” e me permitir ler autores e conhecer culturas que dificilmente figurariam na minha lista de leituras usuais.

      Curtido por 1 pessoa

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