O Palácio dos Sonhos (Ismail Kadaré)

“Havia quem dissesse, por exemplo, que os sonhos solitários das pessoas não passavam de uma fase passageira da humanidade; chegaria o dia em que os sonhos perderiam esta característica e. assim como outros gestos e atos humanos, passariam a ser vistos pelos outros. Assim como um fruto ou semente que passa certo tempo debaixo da terra, até chegar a hora de sair à superfície, também o sonho humano por enquanto estava oculto no sono, mas nada garantia que seria sempre assim. Um dia ele apareceria à luz do dia, ocuparia seu lugar ao lado do pensamento, da experiência e da ação do homem; e só Deus sabia se aquilo seria bom ou ruim, se o mundo ficaria melhor ou pior. ”

(Páginas 71 e 72)

Os sonhos e suas interpretações acompanham a humanidade desde os tempos idos, mas em O Palácio dos Sonhos, Ismail Kadaré alça novos patamares nas aplicações do mundo onírico. Na trama de Kadaré a Albânia continua fazendo parte do Império Otomano (na realidade, a Albânia tornou-se independente do Império Otomano em 28/11/1912 e fez parte dele por mais de 400 anos). E, para garantir a longevidade e o poderio do Império, os governantes controlam os sonhos de todos. O Tabir Saraj, também conhecido como Palácio dos Sonhos, é a instituição encarregada de coletar os sonhos de todos os cidadãos do Império, selecioná-los, classifica-los e interpretá-los com o intuito de isolar os “sonhos-chave” nos quais o destino do Império e do seu tirano poderá ser decifrado.

Para desvendar esse maquinário e perceber em minúcias as implicações do trabalho realizado ali, Kadaré nos coloca para acompanhar Mark-Alem desde o seu primeiro dia no Tabir Saraj. A família de Mark-Alem, os Qyprilli, são uma dinastia que tem por histórico servir os grandes nomes do Império. Apesar de tipicamente albaneses, relegam sua cultura e história para favorecer os que estão no poder em troca de favores. É assim que Mark-Alem ganha sua posição, inicialmente no cargo de seletor, mas rapidamente galgando degraus que o colocam (e a sua família) cada vez mais em evidência. Com o desenrolar da trama, as engrenagens do Palácio dos Sonhos vão se revelando. As mancomunações políticas e o jogo do poder vão revelando o quão as pessoas podem chegar na busca pelo poder e o quão frágil ele pode ser. Mark-Alem começa a perceber que ter conseguido um trabalho no Tabir Saraj não foi um mero favor familiar, que os interesses políticos de sua família são muito mais abrangentes e que mais cedo ou mais tarde algo será exigido dele. Será ele capaz de colocar os interesses dos Qyprilli acima dos interesses do Tabir Saraj? Será capaz de fazer vistas grossas as ações impetradas pelos chefões do Tabir Saraj para garantir a longevidade do Império? Conseguirá ele enxergar a frágil linha que separa o mundo onírico da realidade? E o mundo real, voltará a ser interessante algum dia?

Fica claro a característica cíclica do poder político e a incerteza de permanecer no poder mesmo que o maquinário que possibilite isso seja mantido sob poderio. Fica também a lição ou o aviso sobre o abandono da realidade pelo mundo onírico e do perigo de deixar o mundo real ser determinado por ele. Acaba que ninguém é livre nessa estrutura de governo. Não é livre para sonhar livremente o cidadão, que acaba tendo a alma devassada com a desculpa de estar ajudando o Império; e não é livre os que estão no poder, sempre em constante ameaça de sonhos que podem representar o cadafalso de suas aspirações políticas. Kadaré nos entrega uma distopia muito bem concatenada sobre o policiamento de consciências visando a perpetuação do poder tirânico. Uma obra que permanece atual e que deverá continuar sendo durante um bom tempo.

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