Jude, o Obscuro (Thomas Hardy)

“Quando você envelhecia, e se sentia no centro do seu tempo, e não mero ponto numa circunferência, como quando era pequeno, você era tomado por uma espécie de arrepio, ele percebia. Por toda a sua volta parecia haver algo gritante, berrante, estrondoso, e os ruídos e impactos atingiam você na pequena cela que se chamava vida, e a sacudiam e a incendiavam. ” (Página 23)

Último romance de Thomas Hardy, Jude, o Obscuro foi publicado inicialmente de forma serializada a partir de 1894. Também foi feito de forma suprimida e modificado por causa dos aspectos considerados indecentes da obra. Na realidade, a ideia de escrever um romance como Jude já rondava Hardy desde muitos anos antes, mas a censura social e uma carreira literária ainda em formação fizeram Hardy protelar a ideia. Jude, o Obscuro é o amálgama de todas as discussões sociais e políticas que Hardy reuniu ao longo da carreira. Sua obra de despedida dos romances (depois de Jude, Hardy se dedicou à poesia) não poderia ter sido com menos estardalhaço. Publicar a obra completa não foi fácil, mas em 1912 finalmente Jude foi entregue ao público sem cortes de cenas e no formato desejado por Hardy.

Jude, o Obscuro pode ser considerado basicamente um romance social. Contemporâneo à Hardy, a obra representa a Era Vitoriana, quando haviam basicamente três classes no Reino Unido: baixa, média e alta, e a mobilidade social entre elas era praticamente impossível. Mas, resumir a obra apenas à isso é subestimar a narrativa de Hardy, que vai além e colocar em discussão os costumes, a instituição casamento e defende a independência feminina.

A trama abarca cerca de 19 anos da vida de Jude Fawley que ousou sonhar com a mobilidade social. Acompanhamos Jude desde sua infância criado pela tia-avó em Marygreen quando passou a almejar ir para Christminster, à exemplo do professor do povoado, para se tornar um homem das letras. Passando pelos desvios no caminho que o obrigaram a adiar seus sonhos; a chegada à cidade tão almejada e a dura realidade da intransponibilidade dos muros que cercam a universidade; a descoberta do amor, maculado pelo passado de Jude; as escolhas impensadas; a batalha contra os costumes e a sociedade conservadora da época.

O garotinho que se entregava ao passatempo de observar a silhueta da cidade almejada vê seus sonhos cada vez mais distantes ao se entregar a um rompante relacionamento que acaba sendo concretizado em casamento. Christminster foi adiada por um tempo, mas logo o jovem Jude chega à cidade de seus sonhos, para a dura realidade cair sobre seus ombros. Não há livre acesso aos estudos formais, à universidade não lhe é permitido entrar e só lhe resta tentar remediar a situação. O próprio Hardy teve formação autodidata, traçando paralelos com Jude não só nas condições sociais, como também nas dificuldades de acesso ao ensino formal. É em meio a esse impasse que Jude se aproxima da prima Sue e finalmente se entrega ao amor para acabar tendo as convenções sociais interferindo com sucesso no desenrolar de seu relacionamento. É nessa parte, que as opiniões de Hardy sobre os costumes ascendem em críticas ferrenhas. É realmente engraçado que alguém que não tenha tido pudores em abordar temas tão escandalosos para sua época, tenha tido o cuidado de não localizar sua história em localidade reais e criar cidades fictícias (Marygreen, Christminster, Melchester, Shaston…), apesar do paralelo permitir ao leitor entrever qual cidade real ela seria. A edição da Companhia da Letras (TAG Experiências Literárias) traz um apêndice contendo uma lista de paralelos de nomes de lugares, muito prático para leitores com conhecimentos geográficos básicos sobre a Inglaterra. Ah, a adição de uma cronologia do romance e uma cronologia da vida de Thomas Hardy, tornam a leitura ainda mais completa.

Hardy deixa claro o quão tóxicas as expectativas sociais podem ser e como elas podem minar as vidas dos que ousam ir além delas ou seguir díspares caminhos. Definitivamente não é uma leitura alegre e o destino dos personagens não é dois mais felizes. Ter ousado escrever isso e publicar na época que o foi, carrega a história de Hardy de ainda mais simbolismos. Um tapa com classe na cara dessa sociedade hipócrita, muito confortável nos papeis que lhe cabem bem.

*Jude, o Obscuro foi o livro enviado pela TAG Curadoria em maio de 2019. A curadora foi a atriz Fernanda Montenegro.

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Arquivado em Lendo aleatoriamente, Resenhas da Núbia

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