O Sentido de um Fim (Julian Barnes)

Todo leitor que já se perguntou se Capitu realmente traiu Bentinho sabe que ter o poder sobre a narrativa pode ser fundamental para influenciar como o leitor captará a história. É com essa dúvida, colocada sobre seu protagonista narrador, que Julian Barnes edifica a trama de O Sentido de um Fim. A obra é um relato em primeira pessoa de Tony Webser, um inglês de meia-idade, divorciado e aposentado. É por Tony que conhecemos as histórias de sua juventude, os amigos e amores, mas é na sua velhice que tudo passa a ser questionado.

A trama de Barnes está estruturada em duas partes. A primeira se passa nos anos 1950 e 1960 e traz a juventude do narrador, a segunda se passa próxima ao tempo em que o personagem narra a história.

Na primeira parte nos enveredamos pelas memórias de Tony Webster. Seus tempos de estudante no ensino médio. Os amigos com quem compunha um trio (Colin e Alex) até que o aluno novo Adrian Finn se tornou o quarto membro. É com admiração que Tony nos fala sobre Finn e logo no início fica claro que apesar da história versar sobre a vida de Tony, será Finn quem terá um grande papel nela. Aliás, não só Tony, mas também Colin e Alex “orbitam” em torno de Adrian, que, apesar de ter entrado para o grupo no ensino médio e ter adentrado a vida universitária como tal, parece nunca realmente ter feito parte do bando. Ainda que como “ponto focal” tenha contribuído para manter o trio original em contato. Chega a universidade, os amores, as desilusões amorosas e o despeito de Tony provocado por uma situação, que não vou dizer qual é, mas que não é tão surpreendente assim conforme avançamos leitura, e que acaba separando-o em definitivo de Adrian.

“…à medida que as testemunhas da sua vida vão diminuindo, existe menos confirmação, e portanto menos certeza, a respeito do que você é ou foi. ” (Página 75)

O tempo passa, Tony se casa, se torna pai, se separa, se torna avô e na velhice, uma correspondência póstuma faz Tony ser confrontado por fatos do seu passado. Barnes retira o pouco que resta da confiança que residia em seu narrador e coloca toda a primeira parte da narrativa na berlinda. O narrado é colocado à prova e o passado vem patrolando seu presente, colocando em xeque toda a memória habilmente edificada por Tony para explicar as suas escolhas. Tony se vê lançado no redemoinho do seu passado, e a luz que se lança sobre ele, é a mesma luz que escancara o remorso que Tony está fadado a sentir. Ter o seu passado sendo escrutinado faz Tony reavaliar seu presente. As consequências de ver o que julgava ter acontecido derrubado por documentos comprobatórios, faz a inquietude se tornar companheira constante da vida de Tony. Uma companheira bastante difícil de lidar.

Tentar captar as nuances, perceber as contradições e tentar reconstruir o que se sabe conforme as pistas recebidas, é o belo e árduo exercício proposto por Barnes em seu romance. Mas, ele não forneceu uma contrapartida. Não espere encontrar a solução conforme avança pelas páginas. Não são respostas o que Barnes nos fornece, não é a redenção ou a condenação de Tony, o que ele faz é suscitar ainda mais dúvidas. O que de nenhuma forma diminui o brilho da sua obra ou a torne incompleta. O fim pode até não ter sentido, mas no final das contas não é o fim que importa e sim os meandros que nos conduziram até ele.

*O Sentido de um Fim foi o livro enviado pela TAG Curadoria em junho de 2019. O curador foi o escritor Michel Laub.

*O livro foi adaptado para o cinema em 2017 com roteiro do Julian Barnes e Nick Payne e direção de Ritesh Batra.

 

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