Não, Não é Bem Isso (Reginaldo Pujol Filho)

Não, Não é Bem Isso é o quarto livro do Reginaldo Pujol Filho, mas é o primeiro do autor que leio e eu adorei a experiência. São doze textos, onze contos e uma novela nos quais Reginaldo encarna vários narradores, de uma alma recém desencarnada a uma criança com pretensões pela santidade. O caldeirão de misturas rendeu narrativas deliciosas e bastante diversificadas. Não tem como ficar entediado, a cada conto, é como se fosse um novo livro. A luta de classes, as confusões provocadas pelas diferenças linguísticas, uma pandemia, um bigode emblemático e uma experiência com consequências funestas, uma herança diferente, releituras… Muitas das histórias espalham-se pelo mundo e algumas (poucas) espraiam-se pelas ruas e praças de Porto Alegre. Mas, falando do mundo ou de casa, Reginaldo é certeiro nas palavras e incisivo em suas críticas sociais.

“A história é apenas John, ou Paul, ou George, Ringo não conversando com Dumbo, perguntando para Dumbo quantos chineses eles vão explodir hoje, chineses porque vietnamitas ou vietcongues é um troço complicado de falar e o preconceito é fácil, fácil de dizer. ”

 (página 36  – Helicóptero elefantes, Emília, John, ou Paul, ou George, Ringo não)

E agora peço licença para falar de alguns contos que me pegaram de jeito. A começar pelo “Ideias que podem aparecer na cabeça de um sujeito sentado em uma cadeira” no qual Pujol já chega metendo o pé na porta e mostrando a que veio. Trabalhando com possibilidades e recorrendo aos ‘e ses…’, ele traz uma ferrenha crítica à disparidade entre classes sociais e a sujeição da grande classe trabalhadora aos interesses dos poucos localizados no topo da pirâmide social. Em “Essa Sobre de Mim” Reginaldo mostra que até no momento derradeiro da vida pode haver poesia. Ler “Síndrome da Amnésia Induzida (SAT)” foi uma mistura de leitura aterradora e engraçada. A começar pela estrutura, uma página da Wikipédia, que já gera um estranhamento, mas que fez todo o sentido já que temos aqui um texto (quase técnico) sobre uma pandemia que acometeu o mundo a partir de 2083 (é, deu para perceber qual foi a parte aterrorizante da leitura né). Um conto com ares de ficção científica. Ia ser legal ler um romance situado nesse período (bem que o Reginaldo poderia se aventurar nessa vertente). Dois homens, um escritor, outro que finge ser o escritor das obras que o primeiro produz. Uma sociedade de mais de trinta anos. Em “Jorge, Enrique, Seus Personagens”, Reginaldo brinca com a noção de autoria e como a atribuição da autoria se tornou algo perigoso, quase leviano em tempos de internet. Esse é um texto metaliterário para deixar qualquer aficionado por literatura bastante envolvido. Na novela, “O que é Barco, O que é Casa, O que é Mundo”, Reginaldo faz uma releitura da história de Noé, na qual ele exprime a dura realidade do que seria lidar com tantos animais na arca, além da escassez de alimentos e a perda de esperança que aos poucos alastra-se entre os tripulantes da arca.

Esta coletânea encerra dez anos de textos e por isso mesmo é uma amostra fidedigna do que Reginaldo produz. E se é assim, é claro que quero ler todos os outros livros dele já publicados, e os que estão por vir.

 

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Arquivado em Lendo aleatoriamente, Resenhas da Núbia

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