O Mundo se Despedaça (Chinua Achebe)

“O homem branco é muito esperto. Chegou calma e pacificamente com sua religião. Nós achamos graça nas bobagens deles e permitimos que ficasse em nossa terra. Agora, ele conquistou até nossos irmãos, e o nosso clã já não pode atuar como tal. Ele cortou com uma faca o que nos mantinha unidos, e nós nos despedaçamos. ” (Página 198)

Chinua Achebe é considerado o pai da literatura africana moderna e O Mundo se Despedaça, publicado em 1958, traduzido para mais de 50 idiomas e um dos romances africanos mais lidos no mundo, é um marco na literatura nigeriana. O romance ambientado na Nigéria durante o fim do período pré-colonial, traz a cultura igbo como destaque, servindo assim como uma ferramenta importante na representação e no resgate cultural e histórico da África. Aliás, foi justamente na contraposição a visão do europeu sobre o homem africano que Achebe encontrou estímulo para escrever o seu romance. Foi para representar em cores e contrastes toda a riqueza de seu povo e derrubar o racismo endêmico que parecia perdurar nos retratos dos africanos nos livros escritos pelos europeus que Achebe encontrou sua maior inspiração. Fazê-lo em inglês, portanto, longe de tirar a importância de sua obra, a fez romper as fronteiras e alcançar o mundo, mostrando a cultura igbo e a Nigéria para que muitos pudessem conhecer.

A etnia igbo tem mais de 1500 anos de história no solo africano estendendo-se por vários territórios na África, dos quais, a Nigéria é o principal. É na figura de Okonkwo e na de sua tribo Umuófia que Achebe nos convida a imergir na cultura igbo. A trama, dividida em três atos, acompanha a saga de Okonkwo, um exímio guerreiro de seu povo, que sempre lutou para escapar da sombra do pai, já falecido, considerado fraco para os padrões igbo, por se dedicar a música e não a guerra e por se contentar com o pouco que possuía. Isso sempre incomodou Okonkwo que muito fez para garantir seu caminho rumo ao sucesso. Na primeira parte, somos apresentados aos igbos: sua estrutura social, ritos, religião e costumes; e acompanhamos Okonkwo em sua luta incansável para ascender na tribo. Uma luta que gerou atritos entre Okonkwo e suas esposas e filhos e o tornou irascível e até mesmo sanguinário. Aqui abre-se espaço para os elementos questionadores que Achebe inclui em seu romance: a dificuldade de mobilidade social dentro dos clãs; o sistema de punição baseado nas leis pouco compassivas dos deuses; a crueldade para com aqueles nascidos diferentes; o papel ínfimo destinado às mulheres; e a cobrança imensa sobre os jovens garotos. Achebe não romanceia a cultura igbo, mas sim a mostra em sua integralidade ao leitor, seus pontos positivos e negativos e até mesmo suas contradições e seus costumes condenáveis. O potencial de desagregação explorado pelo homem branco para conquistar e explorar territórios enquanto no processo despedaçava a cultura igbo.

É esse caminho rumo a derrocada que Achebe explora nas segunda e terceira partes de seu romance. Primeiro com Okonkwo tendo de encarar sua falibilidade, depois com a chegada do homem branco e as conquistas que empreendeu em solo africano. Primeiro a espiritual, com os missionários cristãos, depois a política, com os administradores coloniais. A queda da sociedade tradicional igbo é retratada de forma bastante emblemática. Longe da ótica africana, é comum termos contato com essa história pela visão do colonizador, daí a importância desse resgate feito por Achebe. Tomar conhecimento dessa perspectiva se torna um exercício importante. Uma rica lição de política, cultura e história e um exercício de empatia por aqueles que tiveram suas vozes e costumes silenciados pelos anos de exploração colonial.

Além de O Mundo se Despedaça, Achebe escreveu mais dois livros nos quais retrata o período em que a Nigéria esteve sob poderio britânico. A Paz Dura Pouco (1960) e A Flecha de Deus (1964) compõem com este a sua trilogia africana e espero logo ter a oportunidade de lê-los também.

*O Mundo se Despedaça foi o livro enviado pela TAG Curadoria em Outubro de 2019. O curador foi o escritor brasileiro, Alberto Mussa.

Este foi o livro que escolhi para representar a Nigéria no Projeto Volta ao Mundo em 198 Livros.

 

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