Sanga Menor (Cíntia Lacroix)

“Sanga Menor era uma cidade em forma de ladeira. Uma ladeira suave na descrição de alguns que tomavam por parâmetro, decerto, um precipício. Uma ladeira íngreme na opinião de outros que talvez a comparassem à linha do horizonte.

(…)

A rua principal estendia-se desde o ponto mais alto da cidade, onde estavam a igreja, o clube e a prefeitura, até o ponto mais baixo, onde dormia a sanga, no seu leito escuro e quieto. ”

 (página 23)

Desde a primeira vez que me deparei com o título da obra de Cíntia Lacroix, senti que precisava lê-lo. Isso foi lá em 2009, quando o romance contava com outra capa. Mais de uma década e uma nova edição depois finalmente pude me enveredar pelas ruas de Sanga Menor (que nem são muitas) e pela história de sua gente. Uma cidade cercada por mistérios e lendas que recheiam a história com ares de um realismo fantástico que nada fica a dever aos grandes nomes do gênero.

Como quem não quer nada, Lacroix nos convida a conhecer a história do cordato e acomodado Lírio Caramunhoz, da protetora Rosaura, da cansada Margô, do criativo Gilberto e da contestadora Caetana dentre tantos outros sanga-menorenses. A trama tem início com Lírio, criado a pão-de-ló pela mãe (para o desassossego de Margô), um cuidado excessivo que vem desde quando ainda estava na barriga, decorrente da ausência do pai e esteio da família que sobrevive em estado vegetativo após um derrame. É o constante medo de Rosaura que a fez e faz tratar seu único filho assim, mas longe de protegê-lo tal fato serviu para colocar um alvo em seu corpo, para todas as chacotas que os sanga-menorenses pudessem inventar. É fácil o leitor se colocar ao lado de Margô e taxar Lírio de aproveitador, mas quando você percebe que ele não é alienado de sua condição e até mesmo se martiriza por ela, é impossível não se pegar torcendo para ele conseguir romper as amarras e finalmente viver sua vida.

Aliás, Sanga Menor pode até ser uma cidade de pessoas um tanto tacanhas, mas alguns de seus moradores fazem valer muito a pena conhecer esta história, e dentre eles, Caetana dos Fantoches é sem dúvidas a estrela-mor. Começamos esta história com Lírio, mas quando sua tia adentra a trama, ela chega roubando a cena. Com sua verve contestadora e seu teatro de fantoches, Caetana não deixa Sanga Menor cair no marasmo e coloca as crendices e os preconceitos de seus conterrâneos a prova, sempre com uma boa dose de ironia. Não dá para deixar de mencionar a clareza e a beleza com que Lacroix descreve algumas apresentações de Caetana, é memorável.

A história de Lacroix pode ser despretensiosa, mas em sua simplicidade reside as complexidades da vida humana, e a forma como ela trabalha a pequenez da humanidade beira a poesia. Com um tempo não linear, a trama que vai-e-volta aos poucos vai entregando as nuances e os anseios dessas personagens peculiares e ao mesmo tempo tão comuns. E, ainda que alguns personagens já não estejam mais aqui, eles se fazem mais presentes do que nunca. A conclusão da trama de Lacroix não deixa nada a desejar, chega numa sangria desatada e finaliza em meio à várias possibilidades. No fim, dizer adeus às ruas de Sanga Menor e sua gente, não é das tarefas mais fáceis.

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Editora Dublinense

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