Pessoas Normais (Sally Rooney)

Peguei Pessoas Normais para ler por causa do hype envolvendo a adaptação da obra para a série televisiva: Normal People. Mas, Sally Rooney me surpreendeu de forma positiva pela forma como conseguiu criar personagens tangíveis e que ressoam tanto no eu do leitor. Quer seja Marianne com sua baixa estima que lhe faz achar que tudo o que lhe acontece de ruim ela merece, ou Connell que por falta de crença em seu potencial, não acredita que algo de bom possa lhe acontecer. Dois mundos, de classes sociais distintas, que se entrechocam no ensino médio e seguem se esbarrando na vida adulta. Uma história de amor conturbada, fragmentada pelas inseguranças e pelas espirais de autodestruição em que ambos se jogam.

Marianne é considerada a nerd esquisita da escola. Ela é a garota que passa os intervalos sozinha, lendo, não tem amigos e parece não fazer questão de cultivá-los, vestindo um ar blasé como uma armadura para manter as pessoas longe. Connell, por outro lado, é o garoto popular, astro do time de futebol, o cara que faz sucesso entre as garotas e vive rodeado de amigos. Talvez Marianne e Connell nunca tivessem travado conhecimento um do outro, se a mãe do garoto não trabalhasse como empregada na casa de Marianne. E é ali, no habitat de Marianne que ela e Connell começam a travar conversas e desenvolvem uma relação, enquanto na escola fingem não se conhecer. Um relacionamento pautado pela opinião dos outros. Connell e o medo que o seu relacionamento com a esquisita da escola prejudique a sua popularidade. Marianne e sua tendência a aceitar quaisquer migalhas que lhe ofereçam. É receita de desastre na certa.

É na universidade que as coisas parecem se inverter. Marianne parece se encaixar perfeitamente nesse mundo baseado em aparências e contatos familiares. Connell por outro lado sente não se encaixar. E o destino, que os separou no ensino médio, os reúne na universidade. Um novo relacionamento, fortemente influenciado pelas escolhas do passado e pela opinião alheia. Fica meio difícil torcer por um final feliz para os dois juntos, quando Connell consegue levar a vida com mais leveza quando em outro relacionamento, uma leveza que Marianne parece tão distante de encontrar. É aqui que a autora insere na trama discussões sobre relacionamentos abusivos, sobre depressão e sobre o poder que as outras pessoas podem exercer na forma como encaramos a vida.

“Marianne queria que sua vida significasse algo, queria parar toda a violência doméstica cometida pelos fortes contra os fracos, e se lembrou de uma época anos atrás em que se sentia tão inteligente e jovem e poderosa que podia quase ter realizado isso, e agora sabia que não era nada poderosa, e que viveria e morreria em um mundo de extrema violência contra os inocentes, e no máximo ela poderia ajudar só algumas pessoas. ” (E-book, pos 3218-3221).

Toda a trama se passa em quatro anos e a narrativa não é linear, por mais que o tempo seja demarcado. Vamos e voltamos no tempo durante toda a narrativa, mas de uma forma tão fluída que acompanhar essas transições temporais é muito natural. É fácil perceber porque transformaram o livro em série. Com boas transições temporais, personagens bem trabalhados e uma história de amor tortuosa, mas ainda assim bem real, a narrativa de Rooney funciona bem no papel, mas arrisco dizer que deve ter funcionado melhor na telinha. Já quero ler o “Conversas entre Amigos” que muitos falam ser ainda melhor que esse.

 

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Arquivado em Companhia das Letras, Editoras Parceiras, Resenhas da Núbia

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