Bluebird, Bluebird (Attica Locke)

O livro da Attica Locke publicado originalmente em 2017, no Brasil em 2020, não poderia ser mais emblemático num ano em que o movimento Black Lives Matter esteve tanto em evidência. Tensão racial, as relações intricadas das pequenas comunidades e o questionamento de uma justiça que deveria garantir igualdade e equidade, são temas que permeiam a narrativa de Bluebird, Bluebird. A começar por seu protagonista Darren Mathews, um Texas Ranger negro, que já surge destinado a lutar contra o racismo estrutural que permeia o sistema de segurança pública texano.

“(…) no caso de homens como nós, calças folgadas ou uma camisa para fora da calça gritavam “suspeito”. (…) “Não dê a eles motivo para pará-lo, meu filho. ” (…). Seus tios seguiam essas regras antigas da vida no Sul, pois compreendiam a facilidade com que o comportamento geral de um negro podia virar uma questão de vida ou morte. ” (Página 24).

A trama de Locke já começa com Darren envolvido no julgamento de Mack, um trabalhador negro da fazenda da família de Darren, acusado de ter assassinado um homem branco. Até então, Darren estava participando de uma força-tarefa dos Texas Rangers que estava colaborando com o FBI na investigação da Irmandade Ariana do Texas (IAT) por drogas e associação criminosa, mas não por questões raciais (ainda que o nome de Darren figurasse constantemente nas mídias sensacionalistas do grupo). Agora ele está suspenso. É quando a pedido de um amigo ela acaba se envolvendo no incidente em Lark. A pequena cidade do Condado de Shelby registrou em uma semana duas mortes. A de um homem negro e a de uma mulher branca. Apenas esta última, chamou as atenções das forças policiais locais. Um advogado negro de Chicago e uma garota branca do lugar encontrados no mesmo córrego e o rápido julgamento da força policial local jogando ao negro o papel de assassino e suicida. Mas Darren logo transforma sua “averiguada” em uma investigação frenética, envolvendo intricadas relações familiares, desdobramentos mais antigos do que o próprio Darren supõe e com uma motivação que tem tudo para se tornar uma verdadeira cruzada de raças. Aos poucos o Ranger consegue quebrar a impenetrabilidade da “investigação” do xerife local e chegar à resolução dos crimes, ainda que seus superiores trabalhem para logo abafar o caso e tirar a questão racial das mídias.

Com uma trama centrada no embate entre raças e justiça, Locke conseguiu trabalhar muito bem a questão dos conflitos raciais cotidianos. Aqueles que passam despercebidos por olhos menos atentos, que só é percebido por aquele a quem é direcionado. Ela também coloca em xeque a lei. Com o tio advogado de Darren ela insere na trama o Innocence Project, uma ong fundada há 28 anos nos EUA e que há pouco mais de três anos atua no Brasil, batalhando contra condenações injustas baseadas em depoimentos falsos ou errôneos. Em meio a isso tudo, ainda sobra espaço para um pouco de história, de culinária e do bom e velho Blues.

E, apesar dos inúmeros temas tratados, a conclusão da trama não foi desenfreada. Locke conseguiu trabalhar bem as nuances da sua história e concatenar bem os fatos de modo que a resolução do caso fosse robusta. Uma boa investigação para se acompanhar e que nada fica a dever aos bons romances policiais. Mesmo a situação de Mack não ficou sem solução ainda que tenha ficado um clima de e se no ar, mas aí tudo faz sentido quando você descobre se tratar de uma série: Highway 59. O segundo livro, Heaven, My Home foi publicado em 2019 e espero que a Editora Vestígio não demore a trazê-lo para o Brasil.

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