Adeus, Gana (Taiye Selasi)

Taiye Selasi é filha de pai ganense e mãe nigeriana, nascida em Londres, é a personificação do indivíduo afropolitano (“um africano marcado pela vivência em diferentes lugares do mundo” como bem colocado pelo autor e curador da obra na TAG Curadoria, José Eduardo Agualusa). E é esta personificação que ela traz para o seu primeiro romance, no qual foi mentorada por ninguém menos que a Toni Morrison. Assim como Selasi, os filhos de Kweku e Folasadé têm origem ganense e nigeriana, além de terem nascido fora do continente africano. E sua história, resume bem o que é o afropolitanismo ao falar sobre a diáspora provocada pelas guerras civis, o processo de imigração e a construção de uma família em uma cultura distinta.

“Seu coração é forte. Mas não é, e ele sabe disso. Está partido em quatro pontos. Só rachaduras no começo, não tratadas por anos. Sua mãe em Kokrobité, Olu em Boston, Kofi em Jamestown, Folasadé por toda parte. Aquela mulher, que está em toda parte dele, profundamente, na fáscia, no músculo, no tecido, na matéria, no sangue. Ele está morrendo de um coração partido. ”

(Página 111).

Um infarto, um ponto final para a vida, mas que bem poderia ter sido apenas uma vírgula se Kweku tivesse intervindo, e ele poderia, tinha conhecimento para tal, se quisesse. Preferiu entregar-se. Poderia ter sido seu adeus, mas a história de Kweku e sua família, seus amores, vergonhas, arrependimentos e esperanças, estava apenas começando. É assim, com esse belo e trágico exemplo de um in media res (expressão latina que significa no meio das coisas) que Selasi nos prende à trama de Adeus, Gana. Nos segundos que antecedem a sua morte, Kweku nos convida a mergulhar com ele em seu passado. Rompe-se a linearidade da narrativa enquanto o presente e o passado se chocam. Seu casamento com Folasadé nos EUA; o nascimento dos filhos; o auge da carreira como cirurgião e o desmoronamento de uma jornada de sucesso, potencializada pelo preconceito racial. O rompimento dos laços familiares. Partes da vida de Kweku, no seu ponto de vista, ou no ponto de vista de um dos filhos, são apresentadas, reconstruindo as situações que levaram até o momento derradeiro de Kweku.

Nas duas últimas partes, o reencontro e a despedida. Acompanhamos o arregimentar dos membros perdidos dessa família: Olu, Taiwo, Kehinde e Sadie. Filhos de um lar fragmentado que cresceram ansiando por algo que nunca tiveram e que carregam cicatrizes que na despedida do pai finalmente serão confrontadas. Olu, o primogênito, e sua carreira que ecoa os passos do pai. Os gêmeos Taiwo e Kehinde que partilham um passado de trauma que acabou criando barreiras no relacionamento entre eles. Sadie e o sentimento de inferioridade perante os irmãos. É assim que Selasi nos entrega uma narrativa pungente e poética na qual o passado constantemente se faz presente e os retalhos das vidas de seus personagens produzem uma colcha repleta de falhas e tortuosidades, mas ainda assim bela, pelo arcabouço memorial que contém. Depois dessa experiência, só posso desejar que Selasi não demore a publicar novas histórias.

*Adeus, Gana foi o livro enviado pela TAG Curadoria em Janeiro de 2020. O curador foi o escritor angolano José Eduardo Agualusa.

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Arquivado em Lendo aleatoriamente, Resenhas da Núbia

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