Arquivo do autor:Nubia Esther

Eu, Miep, Escondi a Família de Anne Frank (Miep Gies & Alison Leslie Gold)

“(…) é uma história de pessoas comuns durante uma época terrível e extraordinária. Tempos que espero, de todo o meu coração, que nunca, nunca voltem. Minha história é para que nós, pessoas comuns em todo o mundo, saibamos o que aconteceu e jamais deixemos que isso se repita. ”

(página 10)

O Diário de Anne Frank pode não ser o livro mais lido no mundo, mas o relato pungente da adolescente judia que viveu durante dois anos escondida com a família e amigos em um sótão é mundialmente conhecida e constantemente descoberta por novos leitores. Em Eu, Miep, Escondi a Família de Anne Frank temos a oportunidade de captar nuances do período retratado por Anne Frank, desta vez por um olhar adulto. Não um que esteve acuado no mesmo sótão que Frank, mas que possibilitou que o esconderijo fosse viável e sustentável por um longo período. Que mesmo em sua relativa liberdade se compadeceu pelo cerceio ao que os outros estavam sujeitos e se colocou em risco para ajudá-los. Miep Gies trabalhou como secretária na empresa de Otto Frank (pai de Anne) e ela e seu marido Henk Gies ajudaram a esconder e deram suporte a família Frank de julho de 1942 a agosto de 1944. Continuar lendo

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Colecionando Textos #67

 

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Mal-entendido em Moscou (Simone de Beauvoir)

Apesar de muito já ter ouvido falar de Simone de Beauvoir e sua contribuição para a teoria feminista além do seu ativismo político, ainda não havia lido nenhum escrito dela. Decidi começar pelo curtíssimo Mal-entendido em Moscou, uma novela na qual Beauvoir mescla fatos biográficos e fictícios em um belo exemplo de romance de autoficção.

A história, escrita nos fins da década de 60 e publicada em 1992, traz como protagonistas Nicole e André, casados, na casa dos sessenta, em uma vista à União Soviética. O casal, que mora em Paris, viajou até a URSS para visitar Macha, filha do primeiro casamento de André, que acompanha ambos em uma route tour pelo país. Mas, mais do que um diário de viagem, Beauvoir traz os dissabores e o desassossego que permeiam a vida do casal. A narrativa alterna-se entre Nicole e André. Altercações curtas em que muito nos é mostrado em pensamentos e poucos são os apontamentos que são verbalizados entre os personagens. Beauvoir nos torna assim observadores oniscientes enquanto seus personagens permanecem ilhados em suas interpretações e reminiscências. Continuar lendo

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Colecionando Textos #66

 

 

 

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As Vantagens de Ser Invisível (Stephen Chbosky)

Preciso começar esta resenha com uma confissão: Eu não assisto uma adaptação cinematográfica uma vez que não tenha lido o livro que serviu de inspiração. É por isso que torci como nunca para o Leonardo DiCaprio finalmente ganhar seu Oscar, mesmo não tendo até hoje conferido sua atuação (é, ainda preciso ler O Regresso). Agora, finalmente posso ver a adaptação da obra de Stephen Chbosky. Há tempos As Vantagens de Ser Invisível estava na minha lista de futuras leituras, e, ainda que não haja mais o auê todo em torno da história, a trama de Chbosky continua atual e tem todos os elementos para agradar os jovens da década de noventa ou de atualmente.

“(…) acho que somos quem somos por várias razões. E talvez nunca conheçamos a maior parte delas. Mas mesmo que não tenhamos o poder de escolher quem vamos ser, ainda podemos escolher aonde iremos a partir daqui. Ainda podemos fazer coisas. E podemos tentar ficar bem com elas. ” (Página 221)

A história se passa na década de noventa e traz a história de um adolescente que decide escrever cartas para alguém (não se sabe quem), e também não sabemos quem ele é, só que usa a alcunha de Charlie. Em suas cartas o garoto narra episódios de sua vida: o primeiro dia na escola, o suicídio do amigo, os relacionamentos familiares, os primeiros interesses românticos, a espiral de pensamentos conturbados em que às vezes se vê preso. Continuar lendo

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Intérprete de Males (Jhumpa Lahiri)

Publicado originalmente em 1999, o primeiro livro de Jhumpa Lahiri, Intérprete de Males, traz contos atemporais. São nove contos que narram a fragmentação da identidade e o sentimento de não pertencimento dos que partiram em busca de oportunidades em outros países (especificamente nos Estados Unidos) e daqueles que mesmo em terras conhecidas são colocados à parte diante das expectativas sociais. Para criar essas narrativas migratórias Lahiri aprofundou-se em sua experiência como filha de imigrantes indiano que primeiro se mudaram para o Reino Unido e depois para os Estados Unidos. Uma trajetória que ressoa em algumas das histórias compartilhadas aqui. O resultado são narrativas pungentes que exprimem toda a batalha interna para alcançar (a por vezes inalcançável) sensação de pertencimento. Além do choque entre a cultura indiana e como isso por vezes acaba influenciando as relações familiares. Continuar lendo

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Colecionando Textos #65

 

 

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O Bom Filho (You-jeong Jeong)

Consumir cultura coreana já tem sido uma constante na minha vida há algum tempo. Principalmente músicas, doramas e filmes. Logo que descobri os doramas (alguns dos quais são baseados em livros) e passei a querer conhecer a sociedade coreana mais a fundo, foi natural querer me aventurar pela literatura também. Mas, durante algum tempo foi difícil conseguir títulos traduzidos por aqui. Então, é realmente uma coisa muito boa que mais e mais obras do leste asiático tenham aportado por aqui. É por causa desse boom no mercado editorial que obras como O Bom Filho têm sido publicadas aqui, trazendo tramas interessantes e a oportunidade de imergir em outras culturas.

O Bom Filho é um thriller que traz como protagonista Yu Jin, um rapaz que toma remédios para um transtorno mental, ou melhor, tomava, pois deixou de fazer para “experimentar a realidade”. Um dia, após um ataque epiléptico que o deixou sem lembranças, ele acorda em casa e se depara com sangue, muito sangue, e o corpo de sua mãe. Ele todo ensanguentado. Ela, degolada. Yu Jin entra então num vórtice de pensamentos tentando explicar a situação e se eximir de uma provável culpa. Continuar lendo

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Colecionando Textos #64

 

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Todos Nós Adorávamos Caubóis (Carol Bensimon)

Cora e Júlia, duas amigas dos tempos da universidade, uma road trip pelo interior pouco conhecido e divulgado do Rio Grande do Sul, um passado para acertar as contas e um presente para traçar planos para o futuro. É esse o esqueleto do romance de formação bem brasileiro de Carol Bensimon. Mas, apesar de duas protagonistas, Todos nós adorávamos caubóis é essencialmente o Bildungsroman de Cora. É ela, a garota intrinsecamente urbana, ligada às questões de gênero e feminista, que nos narra a história. Em contraponto à Júlia, a garota do interior, de educação religiosa, que permanece sendo uma incógnita para o leitor, ainda que tenha papel efetivo na trama.

A trama já começa com as duas envolvidas na viagem, mas Bensimon pede licença para retornar no tempo e contar um pouco sobre os preparativos da viagem e o que acarretou que ela finalmente acontecesse. A Viagem Sem Planejamento (por cidades desinteressantes) era um projeto de longa data das garotas e que nunca foi levado adiante. Agora, depois de Cora passar uma temporada em Paris, e Júlia, em Montreal, a viagem sai do plano das ideias. Aliás, o ir e vir no tempo é característica marcante da narrativa de Bensimon, mais do que uma viagem pelas rodovias gaúchas, é nos meandros das memórias, pela reconstrução dos pensamentos, sentimentos e convicções, que essa jornada é mais pungente. Durante a Viagem Sem Planejamento vão se descortinando antigos momentos de Cora e Júlia que delineiam um romance. E, Todos nós adorávamos caubóis levanta a bandeira identitária, e Bensimon o faz muito bem. Tudo trabalhado de forma bastante natural, das primeiras experiências aos eventos que marcaram as vidas de Cora e Júlia. Continuar lendo

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