Arquivo da categoria: Lendo aleatoriamente

Livros, leitura, autores, editoras.

Gone, Baby, Gone (Dennis Lehane)

Atenção, esta resenha trata dos acontecimentos do quarto livro da série dos detetives Kenzie & Gennaro e pode haver spoilers (evitados ao máximo) sobre fatos dos livros anteriores. Para saber o que eu achei dos outros livros, confira os links no final desta resenha.

Sobre Meninos e Lobos me apresentou à escrita do Dennis Lehane, mas foi Gone, Baby, Gone que me apresentou aos seus personagens mais icônicos: os detetives particulares Patrick Kenzie e Angela Gennaro. Quando conheci Lehane lá no ensino médio, logo ele se tornou um dos meus autores favoritos de ficção policial. Ao longo dos anos isso nunca mudou e quando embarquei nessa empreitada de ler os livros da série Kenzie e Gennaro na ordem cronológica, achei que talvez a releitura de alguns de seus livros não fosse funcionar. Mas, tantos anos depois, a trama de Gone, Baby, Gone conseguiu me deixar presa às páginas, fissurada nos acontecimentos e com aquela sensação de soco no estômago que Lehane consegue imprimir tão bem com sua narrativa.

No caso da vez, lidamos com o desaparecimento da garotinha Amanda no veranico de 1997, em Boston. Para ser ainda mais precisa, na região em que Patrick e Angie moram. Amanda desapareceu de seu quarto enquanto a mãe estava na casa da vizinha e o apartamento em que morava ficara destrancado. O caso da garota não demora a virar comoção popular e a falta de resposta acaba levando Beatrice e Lionel (tios de Amanda) a procurar a ajuda de Kenzie e Gennaro. Um trabalho que eles não querem aceitar, não porque encontrar crianças desaparecidas não seja um trabalho válido, mas porque as perdas recentes e a violência escancarada tão próxima de suas vidas os levaram a questionar se realmente querem permanecer nessa vida. Continuar lendo

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Colecionando Textos #70

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CONTÁGIO – Infecções de origem animal e a evolução das pandemias (David Quammen)

“Invadimos florestas tropicais e outras paisagens selvagens, que abrigam tantas espécies de animais e plantas – e dentro dessas criaturas, tantos vírus desconhecidos. Cortamos as árvores; matamos os animais ou os engaiolamos e os enviamos aos mercados. Destruímos os ecossistemas e liberamos os vírus de seus hospedeiros naturais. Quando isso acontece, eles precisam de um novo hospedeiro. Muitas vezes, somos nós. ” (e-book, posição 81-84)

Apesar de ter sido publicado originalmente em 2012, o livro de David Quammen não poderia ser mais atual. A Companhia das Letras tê-lo trazido neste momento para o mercado brasileiro não poderia ser mais emblemático. Com a pandemia de covid-19 ainda longe de acabar, entender como as doenças zoonóticas podem se tornar pandemias e como se dá o processo de erradicação ou controle de doenças (principalmente com os movimentos antivacinas em alta) é fundamental para que hábitos e costumes perigosos sejam mudados e para que tenhamos embasamento científico para lutar por políticas públicas, principalmente ambientais e de saúde, para que situações como a que vivenciamos hoje não se repitam ou cheguem em uma onda ainda mais dizimatória.

Hendra, Ebola, Malária, SARS-CoV, Febre Q, Psitacose, Doença de Lyme, Marburg e HIV são algumas das doenças (a maioria provocada por vírus, algumas por bactérias) de origem zoonóticas que Quammen aborda em Contágio. Ele revisita os casos dessas epidemias, evidencia a importância das investigações epidemiológicas e das medidas públicas de contenção quando uma doença está em curso e acompanha pesquisadores que dedicam-se a descobrir a origem dessas doenças, seus mecanismos de infecção e como elas “atravessaram a ponte” entre o restante dos animais e os humanos. Continuar lendo

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Colecionando Textos #69

 

 

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Sanga Menor (Cíntia Lacroix)

“Sanga Menor era uma cidade em forma de ladeira. Uma ladeira suave na descrição de alguns que tomavam por parâmetro, decerto, um precipício. Uma ladeira íngreme na opinião de outros que talvez a comparassem à linha do horizonte.

(…)

A rua principal estendia-se desde o ponto mais alto da cidade, onde estavam a igreja, o clube e a prefeitura, até o ponto mais baixo, onde dormia a sanga, no seu leito escuro e quieto. ”

 (página 23)

Desde a primeira vez que me deparei com o título da obra de Cíntia Lacroix, senti que precisava lê-lo. Isso foi lá em 2009, quando o romance contava com outra capa. Mais de uma década e uma nova edição depois finalmente pude me enveredar pelas ruas de Sanga Menor (que nem são muitas) e pela história de sua gente. Uma cidade cercada por mistérios e lendas que recheiam a história com ares de um realismo fantástico que nada fica a dever aos grandes nomes do gênero.

Como quem não quer nada, Lacroix nos convida a conhecer a história do cordato e acomodado Lírio Caramunhoz, da protetora Rosaura, da cansada Margô, do criativo Gilberto e da contestadora Caetana dentre tantos outros sanga-menorenses. A trama tem início com Lírio, criado a pão-de-ló pela mãe (para o desassossego de Margô), um cuidado excessivo que vem desde quando ainda estava na barriga, decorrente da ausência do pai e esteio da família que sobrevive em estado vegetativo após um derrame. É o constante medo de Rosaura que a fez e faz tratar seu único filho assim, mas longe de protegê-lo tal fato serviu para colocar um alvo em seu corpo, para todas as chacotas que os sanga-menorenses pudessem inventar. É fácil o leitor se colocar ao lado de Margô e taxar Lírio de aproveitador, mas quando você percebe que ele não é alienado de sua condição e até mesmo se martiriza por ela, é impossível não se pegar torcendo para ele conseguir romper as amarras e finalmente viver sua vida. Continuar lendo

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Colecionando Textos #68

 

 

 

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O Mundo se Despedaça (Chinua Achebe)

“O homem branco é muito esperto. Chegou calma e pacificamente com sua religião. Nós achamos graça nas bobagens deles e permitimos que ficasse em nossa terra. Agora, ele conquistou até nossos irmãos, e o nosso clã já não pode atuar como tal. Ele cortou com uma faca o que nos mantinha unidos, e nós nos despedaçamos. ” (Página 198)

Chinua Achebe é considerado o pai da literatura africana moderna e O Mundo se Despedaça, publicado em 1958, traduzido para mais de 50 idiomas e um dos romances africanos mais lidos no mundo, é um marco na literatura nigeriana. O romance ambientado na Nigéria durante o fim do período pré-colonial, traz a cultura igbo como destaque, servindo assim como uma ferramenta importante na representação e no resgate cultural e histórico da África. Aliás, foi justamente na contraposição a visão do europeu sobre o homem africano que Achebe encontrou estímulo para escrever o seu romance. Foi para representar em cores e contrastes toda a riqueza de seu povo e derrubar o racismo endêmico que parecia perdurar nos retratos dos africanos nos livros escritos pelos europeus que Achebe encontrou sua maior inspiração. Fazê-lo em inglês, portanto, longe de tirar a importância de sua obra, a fez romper as fronteiras e alcançar o mundo, mostrando a cultura igbo e a Nigéria para que muitos pudessem conhecer. Continuar lendo

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Eu, Miep, Escondi a Família de Anne Frank (Miep Gies & Alison Leslie Gold)

“(…) é uma história de pessoas comuns durante uma época terrível e extraordinária. Tempos que espero, de todo o meu coração, que nunca, nunca voltem. Minha história é para que nós, pessoas comuns em todo o mundo, saibamos o que aconteceu e jamais deixemos que isso se repita. ”

(página 10)

O Diário de Anne Frank pode não ser o livro mais lido no mundo, mas o relato pungente da adolescente judia que viveu durante dois anos escondida com a família e amigos em um sótão é mundialmente conhecida e constantemente descoberta por novos leitores. Em Eu, Miep, Escondi a Família de Anne Frank temos a oportunidade de captar nuances do período retratado por Anne Frank, desta vez por um olhar adulto. Não um que esteve acuado no mesmo sótão que Frank, mas que possibilitou que o esconderijo fosse viável e sustentável por um longo período. Que mesmo em sua relativa liberdade se compadeceu pelo cerceio ao que os outros estavam sujeitos e se colocou em risco para ajudá-los. Miep Gies trabalhou como secretária na empresa de Otto Frank (pai de Anne) e ela e seu marido Henk Gies ajudaram a esconder e deram suporte a família Frank de julho de 1942 a agosto de 1944. Continuar lendo

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Colecionando Textos #67

 

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Mal-entendido em Moscou (Simone de Beauvoir)

Apesar de muito já ter ouvido falar de Simone de Beauvoir e sua contribuição para a teoria feminista além do seu ativismo político, ainda não havia lido nenhum escrito dela. Decidi começar pelo curtíssimo Mal-entendido em Moscou, uma novela na qual Beauvoir mescla fatos biográficos e fictícios em um belo exemplo de romance de autoficção.

A história, escrita nos fins da década de 60 e publicada em 1992, traz como protagonistas Nicole e André, casados, na casa dos sessenta, em uma vista à União Soviética. O casal, que mora em Paris, viajou até a URSS para visitar Macha, filha do primeiro casamento de André, que acompanha ambos em uma route tour pelo país. Mas, mais do que um diário de viagem, Beauvoir traz os dissabores e o desassossego que permeiam a vida do casal. A narrativa alterna-se entre Nicole e André. Altercações curtas em que muito nos é mostrado em pensamentos e poucos são os apontamentos que são verbalizados entre os personagens. Beauvoir nos torna assim observadores oniscientes enquanto seus personagens permanecem ilhados em suas interpretações e reminiscências. Continuar lendo

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