Arquivo da categoria: Leia Mulheres

Leia Mulheres: O Dia da Mulher e a Literatura

Apesar do blog existir há 10 anos (!) e minha vida como leitora superar em anos (e muitos) essa marca, foi apenas em 2017 que passei a me preocupar com as escolhas de leituras que fazia. Deixei de pensar apenas nos títulos e pegar obras aleatoriamente na estante para ler e pensar no social e na cadeia de produção e divulgação literária por trás das obras que chegavam até o grande público. Projetos como o #readwomen2014, traduzido para #leiamulheres no Brasil me fez enxergar toda a problemática historicamente enfrentada pelas mulheres que ousaram se aventurar no mundo dos livros, durante muitos anos elas pouco foram incentivadas e foram até mesmo proibidas de perseguirem carreiras literárias. Pouca visibilidade editorial, a grande disparidade de espaço de mercado ocupado por ambos os sexos, a prática repressora de fazerem autoras utilizarem pseudônimos masculinos ou as iniciais para serem publicadas. Uma blindagem perante os olhos do público que só fez aumentar a visão distorcida de que a literatura escrita por homens é melhor. Continuar lendo

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Úrsula e Outras Obras (Maria Firmina dos Reis)

“Senhor Deus! Quando calará no peito do homem a tua sublime máxima – ama a teu próximo como a ti mesmo –, e deixará de oprimir com tão repreensível injustiça ao seu semelhante! …. Àquele que também era livre no seu país…. Àquele que é seu irmão? ” (eBook)

Maria Firmina dos Reis, maranhense, mulher negra e a frente do seu tempo, publicou Úrsula em 1859. Esta obra que é considerada como sendo o primeiro romance abolicionista escrito por uma mulher, compõe junto com A Escrava (um conto abolicionista), Gupeva (um conto indigenista) e Cantos à beira-mar (reunião de poesias) o 11° volume da série Prazer de Ler da Edições Câmara.

No prólogo da primeira publicação (e incluída nesta) de Úrsula, Maria Firmina pede desculpas por estar publicando um livro de pouca formosura, pede para que ele seja aceito e que essa aceitação sirva de incentivo para ela e para outras autoras mais acanhadas que ela. É realmente muito triste que sua obra tenha permanecido desconhecida durante muito tempo. Mesmo que Úrsula e Gupeva sejam carregados de um tom dramático exacerbado e que o texto precisasse de um tratamento editorial de forma a deixar a narrativa mais concatenada, o tom da obra de Maria Firmina ressoou como obra de resistência no contexto do século XIX nos longínquos rincões maranhenses. Continuar lendo

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Balanço Literário: Desafios e Projetos Literários

Sei que já fiz um post de retrospectiva literária, mas o foco deste aqui é ser mais específico acerca dos desafios literários que me propus a participar e, sobre o andamento do Projeto Literário Volta ao Mundo em 198 Livros.

No ano passado decidi participar de três desafios literários: o Desafio Livrada!, o Desafio Viaggiando e o Desafio #LendoMaisMulheres2019 – edição especial autoras negras. Para este último acabei não postando uma lista de prováveis leituras aqui no blog, como fiz para os outros dois. Aliás, se vocês quiserem ver como ficou a lista final dos meus desafios, cliquem nos links aí em cima. Novamente eu flopei em todos e agora vocês podem estar se perguntando o porquê de eu continuar participando de Desafios se nunca consigo cumpri-los. Bem, como escrevi por aqui em uma postagem no ano passado, participar de desafios literários tem contribuído para ampliar meu horizonte de leituras me levando a cogitar a leitura, e em vários casos ler, obras que de outra forma talvez não lesse. Eles também me fazem olhar com outros olhos para minha estante e finalmente colocar como meta aquele livro que não via a hora de comprar, mas que acabou sendo esquecido pouco depois. Continuar lendo

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Sejamos Todos Feministas (Chimamanda Ngozi Adichie)

“O problema da questão de gênero é que ela prescreve como devemos ser em vez de reconhecer como somos. Seríamos bem mais felizes, mais livres para sermos quem realmente somos, se não tivéssemos o peso das expectativas do gênero. ” (e-book)

Influenciada pelo tom feminista da história de Charlotte Perkins Gilman, decidi finalmente conferir o pequeno livro, mas imenso em informações e discussões, da Chimamanda Ngozi Adichie, Sejamos Todos Feministas. Publicado pela Companhia das Letras aqui no Brasil, tem uma versão física e outra em e-book, esta última fornecida gratuitamente pela editora.

A obra é uma versão modificada de uma palestra que Chimamanda deu em dezembro de 2012 no TEDxEuston, uma conferência com foco na África. Chimamanda compartilha suas experiências de infância na Nigéria (mas que poderia ser em qualquer outro país) moldadas pelo machismo, que podam as ambições das meninas e acabam sendo tidas como normais. O que se torna normal acaba imperceptível e é aí que todos param de enxergar o quanto essas diferenças impactam a vida de meninas, garotas e mulheres. Usando seu país como exemplo, ela nos mostra como a mulher é colocada constantemente em segundo plano e o quanto de liberdade lhe é tolhida enquanto os homens têm passe livre para ir e vir. Com bons argumentos ela mostra o quanto isso é potencializado pelo direcionamento da criação das meninas em prol dos meninos. Uma criação que ensina às meninas que elas devem se preocupar com o que os meninos pensam delas, e aos meninos que eles devem crescer como homens duros e fortes. Como resultado temos homens com egos frágeis e mulheres que acreditam ser sua responsabilidade protegerem esse ego. Não se permitir alcançar todo seu potencial para não ameaçar aos homens é só mais uma consequência desastrosa dessa educação há tanto tempo internalizada. Continuar lendo

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Terra das Mulheres (Charlotte Perkins Gilman)

Terra das Mulheres de Charlotte Perkins Gilman foi publicado em 1915 e não há dúvidas de que a autora foi muito corajosa em colocar em evidência uma sociedade composta apenas por mulheres e aproveitar para trazer à tona discussões sobre maternidade, condições salariais, educação, estupro marital e o machismo arraigado no dia-a-dia. Mas, o romance que inspirou o criador da Mulher-Maravilha tem as suas limitações e começar a leitura já sabendo algumas, por causa do ótimo prefácio da Renata Corrêa, coloca as expectativas em banho-maria e nos permite (salvo as escorregadelas, em sua maioria, reflexos do período em que o romance foi escrito) aproveitar muito mais a história de Gilman.

A narrativa é feita em primeira pessoa, por Vandyck, um explorador. Sim, é um romance escrito por uma mulher, com uma história considerada feminista, mas narrada por alguém do gênero oposto. E não, isso não é um dos pontos negativos da história já que é facilmente perceptível as intenções da autora: provocar estranheza e abalar as estruturas daqueles que naturalizaram-se como gênero superior. Colocar em evidência um país composto apenas por mulheres, baseado na racionalidade e aparentemente assexuado, no qual os bebês nascem por geração espontânea propiciada pelo desejo de ser mãe, põe em xeque tudo o que Vandyck e seus companheiros de viagem, Terry e Jeff, entendem por civilidade, organização social e política e a superioridade masculina tão apregoada pelo machismo. Isso fica ainda mais evidente pelo fato deles, antes de alcançarem a Terra das Mulheres, ressoarem toda essa “superioridade” na descrença perante o sexo oposto. Não conseguindo atribuir papeis de importância para as mulheres, tampouco aceitando a existência de um país civilizado na ausência de homens. Continuar lendo

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Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis (Jarid Arraes)

“Esquecidas da História

As mulheres inda estão

Sendo negras, só piora

Esse quadro de exclusão

Sobre elas não se grava

Nem se faz uma menção. ” (Página 97)

A autora nordestina Jarid Arraes tem se dedicado já há alguns anos em desvendar a história das mulheres negras que tiveram papéis importantes (mas que passaram despercebidos) na História do Brasil. Mas, mais do que conhecer, Jarid queria espalhar aos quatro ventos as histórias dessas mulheres. Vinda de uma família de cordelistas, foi natural que ela escolhesse o cordel como veículo para sua empreitada. Jarid escreveu muitos e muitos cordéis, destes, 15 foram reunidos no livro Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis publicado pela Editora Pólen. Continuar lendo

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O Olho Mais Azul (Toni Morrison)

“Ela ergue os olhos para ele e enxerga o vácuo onde deveria haver curiosidade. E algo mais. A total ausência de reconhecimento humano – a vitrificada separação. Não sabe o que mantém o olhar dele suspenso. Talvez o fato de ser adulto, ou homem, e ela uma menina. Mas ela já viu interesse, nojo, até raiva em olhos de homens adultos. Ainda assim, esse vácuo não é novidade para ela. Tem gume; em algum ponto na pálpebra inferior está a aversão. Ela a tem visto à espreita nos olhos de todos os brancos. Deve ser por ela a aversão, pela sua negritude. Mas sua negritude é estática e medonha. E é a negritude que explica, que cria o vácuo afiado pela aversão em olhos de brancos. ” (Página 58)

O Olho Mais Azul, publicado em 1970, é o primeiro romance escrito por Toni Morrison. Ela que começou uma carreira literária tardia, é autora de obras emblemáticas, nas quais a questão racial e o protagonismo negro sempre se fazem presentes. Não obstante, Morrison também foi a única mulher negra a ter recebido um Prêmio Nobel de Literatura (em 1993). O olho mais azul foi a obra escolhida pela Djamila Ribeiro para a TAG Experiências Literárias no mês de março. Aliás, escolha mais do que certeira já que infelizmente a autora faleceu pouco tempo depois. Foi muito bom conhecer um pouco mais sobre a autora e começar a enveredar por suas obras.

O romance que se passa em Lorain, Ohio, no início dos anos 1940, traz a história de Pecola Breedlove. Uma garota que carrega consigo um sentimento de incompletude, de não pertencimento, de negação por não se achar merecedora de nada por causa de sua aparência. Por ser negra e considerada feia nada lhe é cabível? Por ser negra e considerada feia está destinada a uma vida de sofrimentos e anulações? Esses sentimentos pungentes fizeram Pecola desejar ardentemente ter belos olhos azuis. Olhos que a “tornariam gente” perante os outros. Continuar lendo

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Ponciá Vicêncio (Conceição Evaristo)

“Veio-me à lembrança o doloroso processo de criação que enfrentei para contar a história de Ponciá. Às vezes, não poucas, o choro do personagem se confundia com o meu, no ato da escrita. Por isso, quando uma leitora ou um leitor vem me dizer do engasgo que sente, ao ler determinadas passagens do livro, apenas respondo que o engasgo é nosso. ” (Prefácio, Página 7)

Acompanhando as redes sociais literárias, o nome de Evaristo sempre surgia aqui e ali, mas com a campanha para sua indicação à Academia Brasileira de Letras, suas obras ficaram em destaque e a vontade de finalmente conhecer os escritos dessa autora mineira só aumentou. Ter conhecido a Maya Angelou por seu intermédio na curadoria da TAG Experiências Literárias, só aumentou a sensação de que as palavras de Evaristo ressoariam em mim. Foi assim com Ponciá Vicêncio, a primeira publicação solo da autora. Com um texto enxuto, mas com uma trama rica em apontamentos sociais, Evaristo nos traz a história de Ponciá, neta de escravos libertos, que cresceu nas terras do sinhô coronel de quem “herdou” até o sobrenome, e que parte para a cidade grande em busca de um futuro melhor. Continuar lendo

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Leia Mulheres: Resistência

Não há dúvidas de que os tempos são sombrios e a escalada do ódio gratuito distribuído por aqueles que usam como desculpa a mudança e o inconformismo tem espalhado o terror por terras brasileiras e distribuído o pânico (e com razão) principalmente entre as minorias. Quando a defesa de seus ideais é feita na base da porrada, facadas, tiros e bombas, há que se pensar o quão democrático esse processo é. Quando para fazer valer sua verdade você silencia a voz do outro, há que se pensar o quão democrático esse processo é. Quando seguem ferindo nossa existência, é preciso aprender a ser resistência. E já que a preocupação com o que vem por aí está interferindo diretamente no meu ritmo de leitura, sim as resenhas irão minguar, vamos fazer uma postagem do Leia Mulheres um pouco diferente. Em vez de indicar autoras, indicarei livros. Livros que falam sobre resistência, sobre perseverança nos momentos mais desesperadores e sobre resiliência para resistir às agruras. Um verdadeiro exercício de empatia, alguns importantes registros de períodos da história que muitos ainda teimam em esquecer.

Foto de Kyle Glenn disponível no Unsplash.

O Conto da Aia (Margaret Atwood) [Amazon]

A obra escrita em 1985 traz uma sociedade na qual a ingerência do Estado e da religião tornou o papel da mulher na sociedade amplamente restrito, uma história que infelizmente ecoa muito da ingerência de muitos grupos políticos e dos casos de violência levados aos extremos do feminicídio.

Mulheres Sem Nome (Martha Hall Kelly) [Amazon]

Para criar a história de Mulheres Sem Nome, Martha Hall Kelly se inspirou na história da socialite, ex-debutante e ex-atriz da Broadway Caroline Ferriday que teve um forte envolvimento com as causas humanitárias, principalmente com as mulheres polonesas libertas do campo de Ravensbrück no pós-guerra além é claro de todo o trabalho político no qual acabou envolvida para garantir que as pessoas que cometeram atos terríveis durante a Segunda Guerra Mundial fossem punidas. Hall Kelly dá uma bela lição sobre empatia e faz uma ode às mulheres que estabeleceram uma rede de auxílio à outras mulheres nesses tempos tão sombrios. Continuar lendo

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Leia Mulheres: Distopia

No mês de março foi a última vez que eu trouxe uma postagem desta coluna aqui no blog. Desde abril o meu ritmo de leitura deu uma desacelerada e o desânimo acabou se refletindo nas postagens do blog e eu acabei deixando algumas colunas do blog acumulando pó, portanto, essa é uma postagem para tentar resgatá-las e quiçá não as deixar relegadas ao esquecimento novamente.

Desta vez vamos falar sobre mulheres e distopia. A distopia é um gênero bastante abordado nos livros jovens adultos, e além disso, hoje também conta com uma grande quantidade de autoras publicando livros nessa temática, inclusive autoras brasileiras como a Bárbara Morais e a sua trilogia Anômalos e a Roberta Spindler com seu romance A Torre Acima do Véu. A lista de autoras que se enveredam por esses mundos distópicos, na maioria das vezes comandados por governos totalitários opressores, alguns com protagonistas jovens, outros com um poderoso e necessários discurso feminista, é imensa, mas seguindo minha rotina, trago apenas algumas poucas indicações de autoras das quais já li um ou mais trabalhos. Continuar lendo

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