Arquivo da categoria: Leia Mulheres

Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis (Jarid Arraes)

“Esquecidas da História

As mulheres inda estão

Sendo negras, só piora

Esse quadro de exclusão

Sobre elas não se grava

Nem se faz uma menção. ” (Página 97)

A autora nordestina Jarid Arraes tem se dedicado já há alguns anos em desvendar a história das mulheres negras que tiveram papéis importantes (mas que passaram despercebidos) na História do Brasil. Mas, mais do que conhecer, Jarid queria espalhar aos quatro ventos as histórias dessas mulheres. Vinda de uma família de cordelistas, foi natural que ela escolhesse o cordel como veículo para sua empreitada. Jarid escreveu muitos e muitos cordéis, destes, 15 foram reunidos no livro Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis publicado pela Editora Pólen. Continuar lendo

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O Olho Mais Azul (Toni Morrison)

“Ela ergue os olhos para ele e enxerga o vácuo onde deveria haver curiosidade. E algo mais. A total ausência de reconhecimento humano – a vitrificada separação. Não sabe o que mantém o olhar dele suspenso. Talvez o fato de ser adulto, ou homem, e ela uma menina. Mas ela já viu interesse, nojo, até raiva em olhos de homens adultos. Ainda assim, esse vácuo não é novidade para ela. Tem gume; em algum ponto na pálpebra inferior está a aversão. Ela a tem visto à espreita nos olhos de todos os brancos. Deve ser por ela a aversão, pela sua negritude. Mas sua negritude é estática e medonha. E é a negritude que explica, que cria o vácuo afiado pela aversão em olhos de brancos. ” (Página 58)

O Olho Mais Azul, publicado em 1970, é o primeiro romance escrito por Toni Morrison. Ela que começou uma carreira literária tardia, é autora de obras emblemáticas, nas quais a questão racial e o protagonismo negro sempre se fazem presentes. Não obstante, Morrison também foi a única mulher negra a ter recebido um Prêmio Nobel de Literatura (em 1993). O olho mais azul foi a obra escolhida pela Djamila Ribeiro para a TAG Experiências Literárias no mês de março. Aliás, escolha mais do que certeira já que infelizmente a autora faleceu pouco tempo depois. Foi muito bom conhecer um pouco mais sobre a autora e começar a enveredar por suas obras.

O romance que se passa em Lorain, Ohio, no início dos anos 1940, traz a história de Pecola Breedlove. Uma garota que carrega consigo um sentimento de incompletude, de não pertencimento, de negação por não se achar merecedora de nada por causa de sua aparência. Por ser negra e considerada feia nada lhe é cabível? Por ser negra e considerada feia está destinada a uma vida de sofrimentos e anulações? Esses sentimentos pungentes fizeram Pecola desejar ardentemente ter belos olhos azuis. Olhos que a “tornariam gente” perante os outros. Continuar lendo

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Ponciá Vicêncio (Conceição Evaristo)

“Veio-me à lembrança o doloroso processo de criação que enfrentei para contar a história de Ponciá. Às vezes, não poucas, o choro do personagem se confundia com o meu, no ato da escrita. Por isso, quando uma leitora ou um leitor vem me dizer do engasgo que sente, ao ler determinadas passagens do livro, apenas respondo que o engasgo é nosso. ” (Prefácio, Página 7)

Acompanhando as redes sociais literárias, o nome de Evaristo sempre surgia aqui e ali, mas com a campanha para sua indicação à Academia Brasileira de Letras, suas obras ficaram em destaque e a vontade de finalmente conhecer os escritos dessa autora mineira só aumentou. Ter conhecido a Maya Angelou por seu intermédio na curadoria da TAG Experiências Literárias, só aumentou a sensação de que as palavras de Evaristo ressoariam em mim. Foi assim com Ponciá Vicêncio, a primeira publicação solo da autora. Com um texto enxuto, mas com uma trama rica em apontamentos sociais, Evaristo nos traz a história de Ponciá, neta de escravos libertos, que cresceu nas terras do sinhô coronel de quem “herdou” até o sobrenome, e que parte para a cidade grande em busca de um futuro melhor. Continuar lendo

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Leia Mulheres: Resistência

Não há dúvidas de que os tempos são sombrios e a escalada do ódio gratuito distribuído por aqueles que usam como desculpa a mudança e o inconformismo tem espalhado o terror por terras brasileiras e distribuído o pânico (e com razão) principalmente entre as minorias. Quando a defesa de seus ideais é feita na base da porrada, facadas, tiros e bombas, há que se pensar o quão democrático esse processo é. Quando para fazer valer sua verdade você silencia a voz do outro, há que se pensar o quão democrático esse processo é. Quando seguem ferindo nossa existência, é preciso aprender a ser resistência. E já que a preocupação com o que vem por aí está interferindo diretamente no meu ritmo de leitura, sim as resenhas irão minguar, vamos fazer uma postagem do Leia Mulheres um pouco diferente. Em vez de indicar autoras, indicarei livros. Livros que falam sobre resistência, sobre perseverança nos momentos mais desesperadores e sobre resiliência para resistir às agruras. Um verdadeiro exercício de empatia, alguns importantes registros de períodos da história que muitos ainda teimam em esquecer.

Foto de Kyle Glenn disponível no Unsplash.

O Conto da Aia (Margaret Atwood) [Amazon]

A obra escrita em 1985 traz uma sociedade na qual a ingerência do Estado e da religião tornou o papel da mulher na sociedade amplamente restrito, uma história que infelizmente ecoa muito da ingerência de muitos grupos políticos e dos casos de violência levados aos extremos do feminicídio.

Mulheres Sem Nome (Martha Hall Kelly) [Amazon]

Para criar a história de Mulheres Sem Nome, Martha Hall Kelly se inspirou na história da socialite, ex-debutante e ex-atriz da Broadway Caroline Ferriday que teve um forte envolvimento com as causas humanitárias, principalmente com as mulheres polonesas libertas do campo de Ravensbrück no pós-guerra além é claro de todo o trabalho político no qual acabou envolvida para garantir que as pessoas que cometeram atos terríveis durante a Segunda Guerra Mundial fossem punidas. Hall Kelly dá uma bela lição sobre empatia e faz uma ode às mulheres que estabeleceram uma rede de auxílio à outras mulheres nesses tempos tão sombrios. Continuar lendo

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Leia Mulheres: Distopia

No mês de março foi a última vez que eu trouxe uma postagem desta coluna aqui no blog. Desde abril o meu ritmo de leitura deu uma desacelerada e o desânimo acabou se refletindo nas postagens do blog e eu acabei deixando algumas colunas do blog acumulando pó, portanto, essa é uma postagem para tentar resgatá-las e quiçá não as deixar relegadas ao esquecimento novamente.

Desta vez vamos falar sobre mulheres e distopia. A distopia é um gênero bastante abordado nos livros jovens adultos, e além disso, hoje também conta com uma grande quantidade de autoras publicando livros nessa temática, inclusive autoras brasileiras como a Bárbara Morais e a sua trilogia Anômalos e a Roberta Spindler com seu romance A Torre Acima do Véu. A lista de autoras que se enveredam por esses mundos distópicos, na maioria das vezes comandados por governos totalitários opressores, alguns com protagonistas jovens, outros com um poderoso e necessários discurso feminista, é imensa, mas seguindo minha rotina, trago apenas algumas poucas indicações de autoras das quais já li um ou mais trabalhos. Continuar lendo

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Leia Mulheres: a importância de termos mulheres produzindo quadrinhos

Participo de alguns grupos do Facebook onde o foco das discussões é a literatura. Neste mês algumas postagens sobre livros escritos por mulheres acabaram aparecendo por lá, particularmente lembro-me de uma postagem feita por um rapaz no qual ele comenta a menor quantidade de escritoras que leu em comparação aos escritores no ano passado e como pretendia tentar diminuir essa defasagem este ano. Não foi a postagem dele que me surpreendeu, mas sim o comentário de um homem que enfatizou que estava muito surpreso com o fato das pessoas quererem ler mais autoras, ou ler tanto mulheres quanto homens, para ele o importante era o conteúdo apenas e que agora tudo era motivo para se instituir cotas (não vou nem comentar sobre o quão errado foi utilizar o sistema de cotas com tom de desmerecimento para estabelecer a comparação).

Será que o conteúdo realmente é importante para ele? O conteúdo de um livro, além da narrativa e da trama também passa pela construção dos personagens. E a construção de personagens femininas fortes, que não sejam utilizadas como meras muletas para o desenvolvimento dos protagonistas masculinos; de personagens que não sejam relegadas à objetos ou sejam hipersexualizadas; que tenham voz e que realmente tenham espaço na narrativa é uma parte muito importante do conteúdo dos livros e por mais que alguns autores consigam representar bem suas personagens femininas, muito do que ali é representado acaba sendo permeado por sua visão de mundo enquanto gênero historicamente dominante. Não há dúvidas, de que algumas representações do feminino só possam ser efetivamente alcançadas pela ótica feminina e isso para mulheres, garotas e meninas, que perfazem uma boa parcela da população de leitores, é muito importante. É importante ler e perceber como os pensamentos, as formas de encarar o mundo, os desafios enfrentados e as dúvidas encontram ressonância em nossa vida. A identificação do leitor com o personagem é uma parte fundamental da leitura e ao incentivarmos que mais autoras sejam publicadas e lidas, queremos que essa identificação seja mais efetiva. Que as meninas possam ler sobre mulheres determinadas, possam se inspirar por suas trajetórias, possam encontrar alento em uma história de superação que lhes dê ânimo para enfrentar os próprios problemas, que possam ler ali nas páginas aquelas vozes que durante tanto tempo permaneceram caladas. Continuar lendo

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Leia Mulheres: elas também escrevem ótimos romances policiais e thrillers

O dia 8 de março é dia de comemorar as conquistas, obtidas por meio de várias lutas, das mulheres. Nessa longa luta muitos espaços e direitos já foram conquistados. Na literatura não é diferente. Mas, apesar de já termos várias autoras, muitas com enorme sucesso e com obras consideradas clássicas, historicamente ainda existe uma defasagem em relação aos autores (como bem evidenciado naquele experimento da livraria de Cleveland). Foi por causa desse experimento que coloca em evidência essa grande disparidade, que resolvi criar essa coluna aqui no blog em março do ano passado e passado um ano a proposta continua válida. Há várias escritoras extraordinárias por aí esperando para serem lidas e se puder ajudar a divulgar a obra delas pelo menos para uma pessoa, já terá valido a pena. As indicações por aqui são temáticas e a de hoje serve para mostrar que as mulheres também escrevem ótimos romances policiais (não é a toa que até temos uma Rainha do Crime) e thrillers. Confira! Continuar lendo

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Histórias de Ninar Para Garotas Rebeldes – Exposição e Bate-papo em São Paulo

Em um mundo onde o empoderamento feminino se torna cada dia mais importante e no qual as garotas precisam mais do que nunca conhecer mulheres inspiradoras e perceber que o seu gênero não pode (e não deve) definir o quão alto elas podem sonhar e o quão longe podem ir. História de Ninar Para Garotas Rebeldes de Elena Favilli & Francesca Cavallo, publicado pela V&R Editoras Brasil em 2017, chegou com a tarefa de trazer para essas jovens, histórias de mulheres que com determinação e ousadia imprimiram sua marca no mundo. São pequenas biografias ilustradas de 100 mulheres extraordinárias. O livro foi um sucesso de vendas e agora, no segundo volume, mais 100 mulheres são celebradas, entre elas a jogadora Marta, a cantora Beyoncé, a revolucionária Anita Garibaldi e a escritora J. K. Rowling só para citar algumas. Para trazer essas obras ao público, o trabalho foi amplamente colaborativo. Além das autoras, sessenta ilustradoras de diferentes países contribuíram com as ilustrações dessas mulheres guerreiras. Princesas da vida real que toda garota rebelde gostará muito de conhecer.

Inspirada por essas obras, a V&R Editoras Brasil adentrou março com duas ações em comemoração ao Mês da Mulher que valem a pena ser conferidas, principalmente se você for de São Paulo. Continuar lendo

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Desafio #LendoMaisMulheres – ANO III

A pessoa pouco adepta às metas de leituras rígidas e aos desafios, ficou viciada neles. Sim, é de mim que estou falando. Acompanhando alguns instagramers literários, descobri que estão rolando vários desafios literários pelas redes sociais (vários mesmo) e acabei me deparando com o perfil @mulheresnaliteratura – mantido pela Mika Andrade e que também conta com um blog  – no qual está rolando pelo terceiro ano o Desafio Lendo Mais Mulheres, que pode ser acompanhado pela hashtag #lendomaismulheres2018. Veja abaixo a imagem com as categorias do desafio deste ano e os livros que escolhi para cada uma delas. Fiz o possível para contemplar os livros que já tenho na estante e para as categorias para as quais não tenho livros, coloquei mais de uma opção, para mais para frente comprar ou emprestar. Como uma das categorias é idêntica a uma proposta pelo Yuri no Desafio Livrada, acabei mudando a minha escolha inicial para o Livrada, para poder contemplar com um mesmo livro os dois desafios.

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Leia Mulheres: Temas Sérios/Sociais

Desde que eu comecei esta pequena coluna aqui no blog, já falei de autoras que escrevem livros de não ficção, romances e graphic novels com protagonistas fortes e senhoras do seu destino, outras que ajudaram a formar muitos leitores com suas histórias infantis e infanto-juvenis e outras que provam por A mais B que mulher sabe escrever livro de fantasia sim senhor e que muitos de seus livros podem ser repletos de aventuras. Este ano vamos começar falando sobre temas mais sérios ou de cunho social, que estas autoras da lista não tiveram dúvidas em abordar ou até mesmo dedicar uma obra inteira a eles.

Katherine Boo

A americana Katherine Boo é jornalista premiada e é bastante conhecida por seus trabalhos que colocam em evidências as pessoas de comunidades pobres e desfavorecidas negligenciadas pelas autoridades. Livro mesmo, ela só publicou um, Em Busca de um Final Feliz, no qual ela faz um retrato pungente e detalhista da vida das castas mais baixas da Índia, no caso dos moradores de Annawadi, um dos mais de trinta assentamentos irregulares em Mumbai, reduto dos que vivem abaixo da linha da miséria e destinados a viverem cercados pela opulência dos hotéis cinco estrelas. Para escrever seu livro, Katherine conviveu, ouviu, acompanhou os moradores de Annawadi e registrou seus relatos de novembro de 2007 a março de 2011. Continuar lendo

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