Arquivo da categoria: Volta ao Mundo em 198 Livros

A Fantástica Vida Breve de Oscar Wao (Junot Díaz)

Confesso que foram as pretensões literárias de Oscar Wao que me fizeram querer ler sua história. O garoto sonhava em ser o Tolkien latino! É assim que Junot Díaz nos vende sua história. A história de um garoto de origem dominicana, obeso, nerd e tímido, com múltiplos interesses, mas nenhum deles apreciados pelos garotos legais ou pelas garotas. Oscar também se apaixona facilmente, mas a maldição, ou melhor, o fukú que ronda sua família, parece não reservar finais felizes para o garoto. Muito menos para os outros membros de sua família e é aqui que o verdadeiro teor da história de Díaz vai se revelando…

“Seja lá de onde viesse e como fosse chamado, comenta-se que a chegada dos europeus à Hispaniola desencadeou o fukú no mundo e, desde então, estamos todos na merda.

(…)

Como vocês já devem ter adivinhado a essa altura, também tenho uma história de fukú. Bem que eu queria dizer que a minha é a melhor de todas – a maior das maldições –, só que não é esse o caso. Não se trata da mais óbvia e aterradora, tampouco da mais comovente e deslumbrante.

É apenas a que apertou o meu pescoço.” (Páginas 11 e 15)

Enquanto ele nos apresenta Oscar, sua irmã Lola, sua mãe Belicia e a avó La Inca e até mesmo se coloca como personagem narrador nesta história, ele vai introduzindo aqui e ali alguns temas mais sérios como a ditadura de Trujillo na República Dominicana, as ocupações norte-americanas no país, a situação dos migrantes latinos que ousaram (ou se viram necessitados) de ir em busca do sonho americano, relacionamentos abusivos, violência contra mulheres, bullying, depressão e suicídio; enquanto mergulha na história da República Dominicana e da família Cabral, sobrando até mesmo espaço para o fantástico ocasionalmente encontrar a realidade. Continuar lendo

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Até que a Culpa nos Separe (Liane Moriarty)

Tudo começa com uma menção a um episódio traumático. Com quem? Não é muito difícil supor acertadamente. Como? É o que Moriarty nos convida a descobrir. Suas implicações? Permeiam toda a narrativa. A forma de contar essa história não é muito diferente da adotada pela autora em seus outros livros, muito pelo contrário, o vislumbre da tragédia, o retorno no tempo, o vai vem frequente na linha temporal da trama e a forma como ela nos apresenta seus personagens, que vejam só, são cheios de defeitos e não criados propositadamente para encantar o leitor, são estratégias bem recorrentes em seus outros livros. Pode-se dizer que essa é a fórmula Moriarty para escrever livros. É mais do mesmo? De jeito nenhum! O foco das histórias de Moriarty está na vida cotidiana de seus personagens, nas relações familiares, na dinâmica do relacionamento entre amigos, nos mal-entendidos, nas pequenas rusgas diárias, nas manias e nos segredos que cada um guarda para si. Transformar o ordinário em extraordinário, com uma boa pitada de drama, de romance e de suspense, é o que torna cada uma das histórias de Moriarty únicas.

“Erika notou um terror bruto e uma urgência aguda naquela única palavra: Clementine!

Sabia que ela era a amiga que gritara o nome de Clementine naquela noite, mas não tinha qualquer recordação disso. Não havia nada além de um branco onde deveria estar aquela memória, e se ela não conseguia se lembrar de um momento como aquele, bem, isso significava que havia um problema, uma anomalia, uma discrepância; uma discrepância extremamente significativa e preocupante. ” (Página 133)

Em Até que a culpa nos separe tudo começa com um churrasco. Era para ter sido inofensivo, apenas uma comemoração, mas terminou em tragédia. Meses depois os envolvidos ainda lidam com a culpa e com as implicações de tudo o que ocorreu aquele dia, bem, de boa parte dele já que ainda há minúcias que permanecem obscuras mesmo para alguns dos envolvidos. Para recontar o que aconteceu, Moriarty divide a tarefa entre todos os presentes. São muitas e muitas versões entrecortadas e Moriarty é exímia em nos manter em suspenso, no limite entre a curiosidade e a compulsão por desvelar os segredos alheios. Continuar lendo

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O Conto da Aia (Margaret Atwood)

Há ‘hypes’ que vêm para o bem e se tem uma coisa que a série homônima (The Handmaid’s Tale) produzida pela Hulu conseguiu, foi colocar em evidência a obra publicada por Margaret Atwood em 1985. Nem vou entrar no mérito de discutir quem é o melhor entre o livro e a série, ainda que algumas pessoas tenham preferido a adaptação à obra original, porque nem comecei a ver a série ainda. Só posso dizer que as palavras de Atwood não poderiam ser mais pertinentes e consonantes com muitas das situações vivenciadas hoje, ainda que tenha sido o romance tenha sido concebido como distopia. Podemos não ter aias, esposas, comandantes, anjos e olhos, mas a ingerência por parte de alguns grupos políticos e o medo imbuído pelos inúmeros casos de perseguição e violência levada aos extremos do feminicídio, ressoa muito a falta de liberdade a que estão submetidas as mulheres na sociedade distópica imaginada por Atwood.

É Offred, uma aia de 33 anos, que nos conta a história. O que foi uma excelente escolha da autora, pois ao estreitar as fronteiras de sua narrativa, ela garantiu que a trama nos fosse apresentada pouco a pouco, construindo uma sensação de inquietamento que torna a história de Offred ainda mais pungente. Mesmo que a protagonista não seja daquelas construídas para angariar automaticamente a empatia do leitor. Offred pode ter seus defeitos e comete seus erros, mas não é por isso que merece a vida a que está submetida. Está aí uma lição de sororidade, diretamente de 1985, para nós leitoras. Mas, como eu dizia, é Offred que nos apresenta essa sociedade composta: pelas Marthas, mulheres destinadas à fazerem as tarefas do lar; pelas Esposas, mulheres de posses casadas com os Comandantes, provedores e de grande influência nas altas esferas da sociedade; pelas Filhas com seus véus brancos, destinadas aos casamentos arranjados; pelas Econoesposas, mulheres de posses mais baixas e que mantêm (?) uma certa liberdade (não sabemos muito sobre elas por não fazerem parte do círculo social habitual de uma aia); pelos Anjos, responsáveis por monitorar, proteger e cercear as Aias; pelos Olhos que mantêm os cidadão sempre à vista na busca por transgressões, quem são e a quem respondem também não sabemos; e pelas Aias, a quem agora só é permitida a existência como mero receptáculo de vida. O que elas eram e o que tinham antes já não lhes pertence mais, a começar pelo nome, condenadas a partir de então a carregarem a partícula ‘of’ antes do nome do Comandante a que estão servindo. Essa partícula enfatiza que o que elas foram foi desligado e agora elas são ‘de’ alguém. Alguém a quem devem se sujeitar e passar por rituais de estupro para garantir um filho para o Comandante e sua Esposa. Nessa sociedade dividida por castas, a divisão das mulheres em castas com objetivos, obrigações e anseios tão díspares, garante a fragmentação necessária para impedir levantes e perpetuar o sistema vigente.

“Considero a possibilidade: talvez estejam me drogando. Talvez a vida que penso estar levando seja um delírio paranoico.

Nenhuma esperança. Sei onde estou, e quem sou, e que dia é hoje. Esses são os testes, e estou sã. A sanidade é um bem valioso; eu a guardo escondida como as pessoas antigamente escondiam dinheiro. Economizo sanidade, de maneira a vir a ter o suficiente, quando chegar a hora. ” (Página 133)

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Sem Gentileza (Futhi Ntshingila)

“Foi naquele dia, quando a bolsa de auxílio-doença da mãe foi suspensa, que Mvelo parou de pensar mais do que um dia por vez. Aos quatorze anos, aquela menina que antes adorava cantar e dar risada parou de ver o mundo em cores. E passou a vê-los em tons cinzentos e opacos. Teria que pensar como adulta para manter sua mãe viva. Estava em meio à escuridão. ” (Página 9)

Ter começado o projeto de leitura “Volta ao Mundo em 198 Livros” ampliou consideravelmente meu horizonte de leituras. Não somente em direção aos clássicos, como também em direção aos autores contemporâneos. Foi estimulada pelo projeto que decidi escolher o livro da Futhi Ntshingila para ser o representante da África do Sul no projeto. Futhi é jornalista e mestra em Resolução de Conflitos. Ela tem dois livros publicados, ambos marcados pela característica de fornecerem voz às mulheres ignoradas historicamente. Uma literatura feminista em essência e sul-africana em suas raízes.

Sem Gentileza traz a história de Zola e Mvelo. Mãe e filha vivem nos guetos da África do Sul, em um período pós apartheid, mas ainda assim muito marcado por ele. Negras e pobres, tiram da resiliência a força para sobreviver em uma sociedade marcada pelo medo pungente da aids, e na qual os direitos das mulheres são cerceados pela conduta machista que impregna toda a sociedade. Uma sociedade na qual a prática de testes de virgindade é utilizada para combater o abuso infantil disseminado, mas que acaba por colocar um alvo de pureza nas testas das garotas que se tornam vítimas de estupros dos soropositivos que acreditam nos boatos de que ficariam curados se deitassem com uma virgem. A intenção pode até ser de proteção, mas acaba se tornando uma ameaça e uma ferramenta de humilhação e julgamento das mulheres testadoras com as garotas. Continuar lendo

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Para Poder Viver (Yeonmi Park)

“Ao longo de minha jornada, vi os horrores que seres humanos podem infligir uns aos outros, mas também testemunhei atos de ternura e bondade e sacrifício nas piores circunstâncias imagináveis. Sei que é possível perder parte de sua humanidade para sobreviver. Mas também sei que a centelha de dignidade humana nunca se extingue por completo e que, se lhe forem dados o oxigênio da liberdade e o poder do amor, poderá voltar a crescer.

Esta é a história das escolhas que fiz para poder viver. ” (Página 18)

Para Poder Viver é o livro autobiográfico da norte-coreana Yeonmi Park. Nascida em uma família que caiu em desgraça perante o governo, de uma vida confortável (na medida do possível) acabou na miséria. O desespero provocado pela fome, pelas condições insalubres de moradia e pelo regime ditatorial norte-coreano, levou primeiro a sua irmã mais velha, e depois ela e sua mãe, a fazerem a arriscada travessia do Rio Yalu, que separa Hyesan (sua cidade natal) de Chaingbai, e se aventurarem na China. Uma jornada que começa perigosa e se torna desesperadora. É aqui que Yeonmi descobre o poder da resiliência e encontra dentro de si a força necessária para enfrentar as dificuldades. Da Coreia do Norte até a chegada e o asilo político na Coreia do Sul, houveram o desapontamento com os líderes de sua nação, o terror de ter tido o pai preso e enviado para um dos piores campos de trabalho forçado, a esperança do retorno dele para casa, o desalento da situação familiar cada vez mais crítica perante a sociedade, o anseio por algo que não se sabe bem o que é, o terror de ter a liberdade (tão próxima) retirada de suas mãos e um novo tipo de encarceramento, a fuga (quase suicida) pelo deserto e o reencontro com a esperança. Continuar lendo

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A Varanda do Frangipani (Mia Couto)

Dar início ao projeto de leitura “Volta ao mundo em 198 livros” foi o incentivo que faltava para que eu finalmente começasse a ter contato com obras de autores que há muito queria ler e vivia protelando. Foi assim, que finalmente peguei um Mia Couto para ler. Nem foi um de seus romances mais conhecidos, – comprei esse em uma promoção e não quis comprar outro até tirar a prova dos nove – mas, mesmo o menos aclamado “A Varanda do Frangipani” foi suficiente para me encantar pela forma de Mia contar suas histórias. Definitivamente é um autor que quero manter na minha estante e conhecer mais a fundo suas obras. Depois desta leitura, minha lista de livros desejados aumentou substancialmente.

O início dessa história nos apresenta Ermelindo Mucanga. Ele que faleceu há quase duas décadas, às vésperas da Independência de Moçambique (25 de junho de 1975), não teve um enterro direito. Ao morrer longe de sua terra natal, não teve cerimônia fúnebre e se tornou um xipoco, uma espécie de fantasma, ainda que tenha se guardado à prisão de sua cova, à sombra de uma árvore de Frangipani na fortaleza de São Nicolau onde estava trabalhando. Talvez tivesse permanecido um “xipoco adormecido” em seu arremedo de descanso eterno, se os governantes não tivessem decidido fazer dele um herói nacional e para isso fuçarem em seus restos mortais. Isso pouco lhe agrada e tal disparidade precisa ser impedida. Ele então segue o conselho do seu guia espiritual, o pangolim, e encarna no inspetor policial Izidine Naíta. Continuar lendo

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Corpus Delicti – Um Processo (Juli Zeh)

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Quando Corpus Delicti foi lançado aqui no Brasil logo me chamou a atenção. Um sistema totalmente amparado pelo conhecimento científico. A humanidade que goza da saúde perfeita em detrimento de sua autonomia individual. Uma sociedade sem guerras, doenças, fome…, mas, com um controle supremo do Estado. Demorei séculos para lê-lo e rolou um pouco de arrependimento de não o ter feito antes, porque a obra de Juli Zeh, apesar de distópica, tem uma ressonância na realidade que assusta. Em tempos de boom sobre a genômica pessoal e variações do tema. Basta extrapolar um pouco as fronteiras e a sociedade de Zeh bem poderia ser factível.

“Ali nada mais fede. Ali ninguém escava, nada lança fumaça, não se derruba e não se queima; ali uma humanidade que enfim se mostra calma e tranquila cessou de combater a natureza e assim também de combater a si mesma. ” (Página 13)

Para atingir esse nível de bem-estar social tudo é controlado pelo Estado. Níveis de cafeína na corrente sanguínea, quantidade de exercícios semanais, exames médicos periódicos, etc. Tudo é monitorado e julgado pelo Estado. O indivíduo que imputa danos ao seu corpo deve arcar com as sanções impostas a ele. Nessa sociedade não há espaço, na realidade não há direito, para sentir pudor. Nada referente ao indivíduo é de cunho privado. Tudo sancionado pelo que o governo denomina de o Método. Continuar lendo

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Projeto Literário: Volta ao Mundo em 198 Livros

Apesar de não ser adepta aos Projetos/Desafios Literários, sou adepta das metas de leitura, pelo menos a do Skoob, ainda que minha lista de livros escolhidos varie muito ao longo do ano, então acho que nem posso colocar que sou tão adepta assim. Nos últimos tempos têm surgido projetos de leitura muito interessantes e que tenho tentado adaptar aos meus hábitos de leitura, sem me comprometer entretanto com longas listas e metas, mas quando a Alinde postou no Instagram que ela começaria um projeto literário de ler ao menos um livro de cada um dos países do mundo na hora bateu a vontade de participar. Ela fez um bom histórico do projeto no seu post de apresentação.

Assim, inspirada pelo A volta do mundo em 198 livros da Camila Navarro do Viaggiando (vejam o vídeo que a Camila gravou recentemente falando sobre o projeto e mais um envolvendo a literatura brasileira que também me animou muito) e pelo Projeto Volta ao Mundo em 198 Livros da Alinde do Alindalë vou tentar quebrar o monopólio das literaturas norte-americanas e inglesas nas minhas leituras e quiçá conhecer novos autores e aprender mais sobre outros países. Assim como ela, também não estipularei data de término, serão muitos e muitos livros e nada mais justo que se transforme em um projeto para a vida, mas com um forte desejo de que seja cumprido.

voltaomundoem198final-copy

Como vai funcionar?
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