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O Palácio dos Sonhos (Ismail Kadaré)

“Havia quem dissesse, por exemplo, que os sonhos solitários das pessoas não passavam de uma fase passageira da humanidade; chegaria o dia em que os sonhos perderiam esta característica e. assim como outros gestos e atos humanos, passariam a ser vistos pelos outros. Assim como um fruto ou semente que passa certo tempo debaixo da terra, até chegar a hora de sair à superfície, também o sonho humano por enquanto estava oculto no sono, mas nada garantia que seria sempre assim. Um dia ele apareceria à luz do dia, ocuparia seu lugar ao lado do pensamento, da experiência e da ação do homem; e só Deus sabia se aquilo seria bom ou ruim, se o mundo ficaria melhor ou pior. ”

(Páginas 71 e 72)

Os sonhos e suas interpretações acompanham a humanidade desde os tempos idos, mas em O Palácio dos Sonhos, Ismail Kadaré alça novos patamares nas aplicações do mundo onírico. Na trama de Kadaré a Albânia continua fazendo parte do Império Otomano (na realidade, a Albânia tornou-se independente do Império Otomano em 28/11/1912 e fez parte dele por mais de 400 anos). E, para garantir a longevidade e o poderio do Império, os governantes controlam os sonhos de todos. O Tabir Saraj, também conhecido como Palácio dos Sonhos, é a instituição encarregada de coletar os sonhos de todos os cidadãos do Império, selecioná-los, classifica-los e interpretá-los com o intuito de isolar os “sonhos-chave” nos quais o destino do Império e do seu tirano poderá ser decifrado. Continuar lendo

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As Meninas (Lygia Fagundes Telles)

A Lygia Fagundes Telles não é figurinha carimbada nos ensinos médio da vida, talvez por isso tenha demorado tanto a ler uma obra dela. Finalmente chegou o momento e decidi começar com uma de suas obras mais icônicas. Publicado em 1973, o romance As Meninas traz como protagonistas Lorena, Lia e Ana Clara. Três moças sem nada para fazer uma vez que a universidade está em greve e que ficam às voltas com amores, manifestações e tramoias, enquanto a vida de todas se entrelaça no pensionato de freiras em que moram.

Antes de falar mais sobre a trama, é preciso apresentar as meninas. Lorena é o que as outras classificam de “princesa em sua torre de marfim”. Herdeira de uma família abastada, tem tudo do bom e do melhor, tem todas as vontades satisfeitas pela mãe, e morar no pensionato é o seu grito de independência. Tem a vida marcada por uma tragédia familiar que é citada várias e várias vezes ao longo da narrativa. A baiana Lia é estudante de ciências sociais e em suas veias corre o sangue do ativismo político. Está envolvida com grupos da esquerda armada e seu namorado foi preso pelo regime. E, Ana Clara, a que tem aparência de modelo, grávida de Max (a quem parece amar), noiva de outro (por ser rico), que se entrega sem receios aos prazeres mundanos e às drogas. Vive a almejar uma vida de riqueza, para que possa enterrar nas pilhas de dinheiro seu passado miserável e opressor. Continuar lendo

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Ponciá Vicêncio (Conceição Evaristo)

“Veio-me à lembrança o doloroso processo de criação que enfrentei para contar a história de Ponciá. Às vezes, não poucas, o choro do personagem se confundia com o meu, no ato da escrita. Por isso, quando uma leitora ou um leitor vem me dizer do engasgo que sente, ao ler determinadas passagens do livro, apenas respondo que o engasgo é nosso. ” (Prefácio, Página 7)

Acompanhando as redes sociais literárias, o nome de Evaristo sempre surgia aqui e ali, mas com a campanha para sua indicação à Academia Brasileira de Letras, suas obras ficaram em destaque e a vontade de finalmente conhecer os escritos dessa autora mineira só aumentou. Ter conhecido a Maya Angelou por seu intermédio na curadoria da TAG Experiências Literárias, só aumentou a sensação de que as palavras de Evaristo ressoariam em mim. Foi assim com Ponciá Vicêncio, a primeira publicação solo da autora. Com um texto enxuto, mas com uma trama rica em apontamentos sociais, Evaristo nos traz a história de Ponciá, neta de escravos libertos, que cresceu nas terras do sinhô coronel de quem “herdou” até o sobrenome, e que parte para a cidade grande em busca de um futuro melhor. Continuar lendo

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Desafio Livrada! 2019

Depois de ter comentado por aqui sobre o porquê continuarei participando de Desafios Literários, mesmo não tendo cumprido todas as metas dos desafios que topei participar no ano passado (veja aqui). Segue a primeira lista dos três desafios que escolhi participar este ano.

O Yuri do canal Livrada, já há um tempo lança todos os anos o Desafio Livrada! contendo algumas categorias nas quais o participante é que escolhe os livros que encaixam em cada uma delas e tenta concluí-las ao longo do ano vigente. Veja abaixo as categorias criadas pelo Yuri para o desafio deste ano e os livros que escolhi para cada uma delas.

  • 1. Um livro para se ler em um único dia.

Pensei seriamente em colocar O velho e o mar do Ernest Hemingway aqui, mas como não quero fazer uma releitura a jato, acabei decidindo por um volume menor.

Título escolhido: Sejamos Todos Feministas (Chimamanda Ngozi Adichie)

  • 2. Uma peça de teatro grego.

Será minha primeira experiência com o teatro grego, então é claro, recorri ao Kindle. Vamos de Sófocles nessa.

Título Escolhido: Édipo Rei (Sófocles)

  • 3. Um romance húngaro.

Está aí uma ótima categoria para finalmente me fazer esse livro que já está há muito tempo na minha estante.

Título Escolhido: O Rei Branco (György Dragomán)

  • 4. Uma escritora brasileira viva.

Uma boa oportunidade para finalmente começar a ler a Conceição Evaristo.

Título Escolhido: Ponciá Vicêncio (Conceição Evaristo)

  • 5. Uma ficção política.

Vamos de Lygia Fagundes Telles, mais uma autora de quem irei ler uma obra pela primeira vez.

Título Escolhido: As Meninas (Lygia Fagundes Telles)

  • 6. Um vencedor do Goncourt.

Escolhi o livro do Atiq Rahimi que escolhi para representar o Afeganistão no projeto 198 livros.

Título Escolhido: Syngué sabour: pedra de paciência (Atiq Rahimi)

  • 7. Um livro de filosofia.

Estou em dúvida entre Rotterdam e More.

Título Escolhido: Elogio da Loucura (Erasmo de Rotterdam) ou

A Utopia (Thomas More)

  • 8. O primeiro romance de um autor que você gosta.

Como dos meus autores favoritos da vida, eu já li seus primeiros romances, acabei optando pela Allende de quem só conheço os livros juvenis.

Título Escolhido: A Casa dos Espíritos (Isabel Allende)

  • 9. Um livro escrito por um xará de nome ou de sobrenome.

Já me decidi pela Ana Miranda, só não sei se vou de Gregório de Matos ou Álvaro Dias

Título Escolhido: Boca do Inferno (Ana Miranda) ou

Dias e Dias (Ana Miranda)

  • 10. Um livro com uma capa feia.

A capa da antiga e esgotada edição da Companhia das Letras para o livro do Ismail Kadaré é terrível.

Título Escolhido: O Palácio dos Sonhos (Ismail Kadaré)

  • 11. Um livro sobre artes plásticas.

As chances dessa categoria flopar são grandes, mas vamos lá dar uma chance ao tema.

Título Escolhido: Arte Como Terapia (Alain de Botton & John Armstrong)

  • 12. Uma HQ adaptada a partir de um livro.

Sei que a ideia era escolher uma HQ de uma obra que ainda não leu e quiçá depois de se aventurar pelos quadrinhos enveredar-se pelo romance original. Sigo na contramão porque sempre prefiro ler a obra original e depois suas adaptações.

Título Escolhido: O Ladrão de Raios (Rick Riordan, Robert Venditti, Attila Futaki & José Villarrubia)

  • 13. Um livro que se passa na época dos seus avós.

Vamos de Jorge Amado, meu segundo livro dele.

Título Escolhido: Capitães da Areia (Jorge Amado) 

  • 14. Um autor falecido em 2018.

A lista de perdas não é pequena, mas acabei optando pelo Cony que conheci lá na adolescência e não lia desde então.

Título Escolhido: Quase Memória (Carlos Heitor Cony)

Alguém aí também irá participar do Desafio? Para quem quiser acompanhar as leituras do pessoal este ano, fiquem de olho na hashtag #desafiolivrada2019 nas redes sociais.

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O Homem do Castelo Alto (Philip K. Dick)

 

 

Philip K. Dick é bastante conhecido por suas obras que foram roteirizadas e que se tornaram grandes sucessos do cinema como Blade Runner, O Vingador do Futuro e Minority Report. Sua produção, apesar de sua curta vida, foi bastante prolixa e depois de tanto ensaiar ler algo dele, o Desafio Livrada de 2018 foi essencial para finalmente eu conhecer o autor. Findada a leitura fica a certeza de que Dick foi exímio em criar histórias explorando realidades alternativas e de que quero continuar me enveredando por outras obras suas.

O Homem do Castelo Alto foi publicado originalmente em 1962 e na distopia imaginada por Dick, estamos na década de 1960 e os nazistas ganharam a Segunda Guerra Mundial. Nesta nova realidade, o mundo está polarizado entre os alemães e os japoneses, a África é um continente morto e a América Latina segue pelo mesmo caminho. Apesar dos Estados Unidos não mais existirem, é em parte de seu antigo território, agora denominado de Estados Americanos do Pacífico que boa parte da trama se passa. Ali encontramos uma sociedade que agora pauta suas ações em um antigo oráculo de origem chinesa; que tem uma economia desenvolvida em torno de objetos americanos antigos que são muito desejados pelos japoneses e que é extremamente polarizada entre estes e os alemães, com direito à planos secretos visando a tomada total do poder. Todas as características dessa nova realidade são mostradas por Dick por meio de várias tramas paralelas, contendo inúmeros personagens. Em uma delas, ele inclui um escritor. Hawthorne Abendsen escreveu o livro O gafanhoto torna-se pesado em que, pasmem, ele narra uma história alternativa na qual os Estados Unidos e os Aliados ganharam a guerra. Um livro que está fazendo um estrondoso sucesso, que está levando as pessoas a sonharem com um futuro diferente, longe da dominação dos Aliados e que coloca o autor na lista negra das pessoas no poder. Um livro que faz alguns começarem a duvidar da própria realidade em que vivem. Continuar lendo

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Porque continuarei a participar de Desafios Literários

Finalizadas as leituras de 2018, ficou faltando eu fazer um balanço geral sobre os desafios literários que pela primeira vez topei participar e sobre o projeto literário Volta ao Mundo em 198 Livros.

No ano de 2018 resolvi encarar os Desafio Livrada e Desafio #LendoMaisMulheres e apesar de ter “falhado” em algumas categorias, até que o saldo foi bastante positivo.

No Desafio Livrada foram 15 categorias. Consegui cumprir dez (confiram o post original do desafio para ver a lista final de livros lidos). No Desafio #LendoMaisMulheres foram 12 categorias, das quais consegui cumprir nove (confiram os livros aqui). No Projeto Volta ao Mundo em 198 Livros, consegui ler apenas mais oito novos países (Colômbia, Japão, Nova Zelândia, Reino Unido, Romênia, Sudão, Suíça e Zimbábue), mas como esse é um projeto sem prazo para terminar vou seguir mantendo meu ritmo e as oportunidades.

Com 2019, as listas dos desafios foram renovadas e outros tantos desafios legais estão sendo propostos e, mesmo tendo “falhado” nos que topei participar em 2018, vou encarar o desafio novamente. Até o momento me decidi por três (logo posto as listas aqui) mesmo sabendo que as chances de flopagem são enormes. Porquê? Os desafios dos quais participei em 2018 promoveram uma ótima renovação nas minhas metas de leitura. Em 2018 li mais autoras, conheci inúmeros autores, me enveredei por novas culturas e outras realidades e me permiti ler livros que talvez de outra forma nunca pegasse para ler. Talvez esteja aí o maior incentivo e a grande vantagem desses desafios. Como diria a Dilma, em se tratando de Desafios Literários “não vamos colocar meta. Vamos deixar a meta aberta, mas quando atingirmos a meta, vamos dobrar a meta”!

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É Agora Como Nunca – antologia incompleta da poesia contemporânea brasileira (org. Adriana Calcanhotto)

Na época da minha adolescência eu era muito mais ligada à poesia. Do tipo de gente que vasculhava livros, jornais, revistas e zines atrás de poemas, sonetos, haicais e pequenas rimas que eu colecionava em diários e cadernos. Com o tempo o hábito foi se perdendo, mas o Desafio Livrada deu o empurrãozinho que faltava para eu voltar a me embrenhar por entre versos e rimas. O Yuri propôs que lêssemos um livro de poesia nacional contemporânea. Acabei escolhendo a coletânea organizada pela Adriana Calcanhotto, É Agora Como Nunca, na qual ela traz poesias de 41 jovens autores brasileiros. Tem poesia sobre amor, sobre política, sobre raízes… Continuar lendo

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Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios (Marçal Aquino)

Só conhecia o Marçal Aquino por seus livros juvenis. Histórias sempre envolvendo mistérios, investigações e muito perigo. De certa forma, essas características são como marcas registradas dos livros do autor, Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, romance voltado ao público adulto, também está carregado deles. As tensões políticas e sociais na pequena cidade de garimpeiros no interior do Pará; os perigos do relacionamento clandestino e conturbado entre Cauby e Lavínia; a paixão destinada à tragédia. Mas, mais do que perigos, traições e assassinatos, o romance de Marçal é uma ode ao amor inesperado, desajeitado, repleto de paixão e de uma intensidade avassaladora. Tudo isso em uma narrativa envolvente que nos torna confidentes ansiosos de seus desdobramentos. Continuar lendo

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As Últimas Testemunhas (Svetlana Aleksiévitch)

As Últimas Testemunhas, publicado originalmente em 1985, é o segundo livro de Svetlana. Nele ela resgata as memórias de quem era criança durante a devastação da Bielorússia na Segunda Guerra Mundial. Assim como em seus outros livros, neste ela segue experimentando esse gênero literário que muitos ainda relutam em chamar de literatura, o romance-testemunho. A compilação de um coro de vozes, palavras e memórias que podem não pertencer a Svetlana, mas que são ouvidas, sentidas e trabalhadas com empatia e sensibilidade palpáveis. São narrativas arrebatadoras, repositórios de períodos históricos que não podemos nos permitir esquecer.

“Talvez ela tivesse oito anos, talvez dez. Como ia adivinhar pelos ossinhos? Não eram pessoas que andavam ali, mas esqueletos…. Logo ela ficou doente, não conseguia levantar e ir para o trabalho. Eu pedia para ela… No primeiro dia inclusive eu a puxei até a porta, ela se segurou na porta mas não conseguia andar. Passou dois dias deitada, e no terceiro vieram pegá-la e levaram na maca. Só havia uma saída do campo: pela chaminé…. Direto para o céu… ” (Página 146)

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O Homem é um Grande Faisão no Mundo (Herta Müller)

Decidir qual livro ler como representante da Romênia no Projeto Volta ao Mundo em 198 Livros não foi uma tarefa fácil. Não por escassez de autores e títulos, mas porque decidida a ler uma obra da Herta Müller tive receio de acabar escolhendo a obra errada e me decepcionando com a autora. Já ouvi e li tantas opiniões divergentes acerca de sua obra, e um bocado de pessoas com gostos parecidos com os meus não tiveram uma boa experiência com os livros da autora, que quando finalmente optei por começar com O Homem é um Grande Faisão no Mundo, foi com as expectativas lá embaixo. E que coisa boa é ser surpreendida positivamente. Ao menos neste, a narrativa de Herta é certeira, concisa e sem rebuscamento, mas ao mesmo tempo é de muita riqueza poética e transpira as feridas sofridas pelos alemães nascidos em terras romenas, como a própria Müller. Continuar lendo

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