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Úrsula e Outras Obras (Maria Firmina dos Reis)

“Senhor Deus! Quando calará no peito do homem a tua sublime máxima – ama a teu próximo como a ti mesmo –, e deixará de oprimir com tão repreensível injustiça ao seu semelhante! …. Àquele que também era livre no seu país…. Àquele que é seu irmão? ” (eBook)

Maria Firmina dos Reis, maranhense, mulher negra e a frente do seu tempo, publicou Úrsula em 1859. Esta obra que é considerada como sendo o primeiro romance abolicionista escrito por uma mulher, compõe junto com A Escrava (um conto abolicionista), Gupeva (um conto indigenista) e Cantos à beira-mar (reunião de poesias) o 11° volume da série Prazer de Ler da Edições Câmara.

No prólogo da primeira publicação (e incluída nesta) de Úrsula, Maria Firmina pede desculpas por estar publicando um livro de pouca formosura, pede para que ele seja aceito e que essa aceitação sirva de incentivo para ela e para outras autoras mais acanhadas que ela. É realmente muito triste que sua obra tenha permanecido desconhecida durante muito tempo. Mesmo que Úrsula e Gupeva sejam carregados de um tom dramático exacerbado e que o texto precisasse de um tratamento editorial de forma a deixar a narrativa mais concatenada, o tom da obra de Maria Firmina ressoou como obra de resistência no contexto do século XIX nos longínquos rincões maranhenses. Continuar lendo

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Balanço Literário: Desafios e Projetos Literários

Sei que já fiz um post de retrospectiva literária, mas o foco deste aqui é ser mais específico acerca dos desafios literários que me propus a participar e, sobre o andamento do Projeto Literário Volta ao Mundo em 198 Livros.

No ano passado decidi participar de três desafios literários: o Desafio Livrada!, o Desafio Viaggiando e o Desafio #LendoMaisMulheres2019 – edição especial autoras negras. Para este último acabei não postando uma lista de prováveis leituras aqui no blog, como fiz para os outros dois. Aliás, se vocês quiserem ver como ficou a lista final dos meus desafios, cliquem nos links aí em cima. Novamente eu flopei em todos e agora vocês podem estar se perguntando o porquê de eu continuar participando de Desafios se nunca consigo cumpri-los. Bem, como escrevi por aqui em uma postagem no ano passado, participar de desafios literários tem contribuído para ampliar meu horizonte de leituras me levando a cogitar a leitura, e em vários casos ler, obras que de outra forma talvez não lesse. Eles também me fazem olhar com outros olhos para minha estante e finalmente colocar como meta aquele livro que não via a hora de comprar, mas que acabou sendo esquecido pouco depois. Continuar lendo

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Primavera Num Espelho Partido (Mario Benedetti)

Depois de me enveredar por histórias em meio a regimes ditatoriais, no Brasil e no Oriente Médio, acabei indo parar no Uruguai. O livro de fevereiro da TAG Curadoria (indicação do autor Julián Fuks) foi Primavera num espelho partido, escrito por Mario Benedetti quando se encontrava na Espanha em um exílio que já durava mais de dez anos em decorrência da repressão militar no Uruguai.

“Reorganizar-se no exílio não é, como se diz tantas vezes, começar a contar do zero, mas começar de menos quatro ou menos vinte ou menos cem. ” (Página 102)

O romance foi escrito no período após o plebiscito de novembro de 1980 que marcou o início do processo de abertura e redemocratização política do Uruguai, mas apesar do período esperançoso, Benedetti não deixa de mostrar o amargor e a solidão dos que tiveram a vida interferida pelo regime. Especialmente de Santiago e sua família. Ele que foi preso pelo regime e sua família, esposa, filha e pai que se viram obrigados a buscar asilo longe de seu país. Benedetti traz um retrato do cotidiano maculado pela ditadura. Para fazer isso, ele traz um romance polifônico, no qual a realidade de muitos exilados e presos políticos se mescla a ficção da história de Santiago. Continuar lendo

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Syngué Sabour: Pedra-de-paciência (Atiq Rahimi)

Syngué sabour é uma pedra considerada mágica, segundo a crença você deve lhe falar seus segredos e tormentos. A pedra escuta, até que um dia, cheia deles, explode, libertando o lamuriante de todo o sofrimento. Reside nessa crença o mote da trama de Atiq Rahimi. O curto romance vencedor do Prêmio Goncourt em 2008, se passa basicamente em um quarto de uma casa afegã ainda que seja possível entreouvir os acontecimentos fora deste.

No quarto, uma mulher velando o marido em coma enquanto lá fora as bombas caem sobre a cidade. A narrativa se restringe à casa da mulher e seu marido. Quando dali ela sai, nada nos é narrado e a passagem do tempo é marcada pelas respirações do moribundo. O mundo externo é intuído pelas bombas, tiros, sons rotineiros dos habitantes e sermões diários do mulá. Aos poucos, o silêncio da situação começa a ser quebrado pela mulher: uma lamúria, uma lamentação, uma reclamação…. Esta, sem ter mais ninguém com quem contar ou conversar, aos poucos começa a fazer de seu marido o fiel depositário de suas palavras, sua syngué sabour. Ao longo das confissões, uma pincelada da cultura afegã nos é desvelada. E a situação política e o estado de guerra são mostrados. Continuar lendo

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Desafio Literário Viaggiando 2019

O segundo desafio literário que decidi participar este ano foi o recém criado Desafio Viaggiando proposto pela Camila Navarro (veja o vídeo de apresentação do desafio aqui). Para quem não sabe a Camila é a idealizadora do Projeto 198 Livros aqui no Brasil e foi por influência dela que resolvi embarcar nessa viagem de ler um livro de cada país, então, claro que me animei em participar de um desafio que irá contribuir para dar um gás ao meu xodó dentre os meus projetos de leitura para a vida. São apenas dez categorias e somente uma regra, escolher livros de países diferentes para cada categoria. Vejam as minhas escolhas:

[Editado em Janeiro/2020]

  • 1. Um livro censurado em seu país de origem. [Comecei a leitura em 2019, não finalizei]
  • Foi a categoria que mais tive dificuldade em escolher um título, por falta de conhecimento mesmo, acabei tendo de apelar para a Svetlana.Título escolhido: A guerra não tem rosto de mulher (Svetlana Aleksiévitch)
  • 2. Um livro que retrate uma religião não-cristã.Estou ensaiando ler a história de Malala há muito tempo, acho que finalmente é chegada a hora.Título escolhido: Eu sou Malala (Malala Yousafzai) [Lido – Resenha].
  • 3. Um livro sobre a ditadura.Pensei em colocar a Lygia Fagundes Telles aqui, mas como já selecionei um do Brasil em outra categoria, vamos explorar a ditadura chilena com a Isabel Allende.Título escolhido: A Casa dos Espíritos (Isabel Allende) [Li Primavera num espelho partido (Mario Benedetti) no lugar – Resenha]
  • 4. Um livro que retrate a situação das mulheres.Vamos de Venezuela nessa categoria.Título escolhido: Ifigênia (Teresa de la Parra) [Não lido].
  • 5. Um livro que retrate a vida de imigrantes.Tenho vários livros aqui que se encaixam nessa categoria, mas vamos de Amin Maalouf porque quero garantir o Líbano para o projeto.Título escolhido: Os desorientados (Amin Maalouf) [Não lido].
  • 6. Um livro sobre uma guerra fora da europa.A história de Ismael Beah até poderia ser ficção, mas na verdade é o retrato nu e cru de um sobrevivente de uma guerra que transformou crianças em soldados e dizimou milhares de serra-leoneses.Título escolhido: Muito longe de casa (Ismael Beah) [Lido – Resenha]
  • 7. Um livro sobre genocídio.Outra guerra civil que dizimou milhares, dessa vez no Camboja.Título escolhido: À sombra da figueira (Vaddey Ratner) [Não ido].
  • 8. Um livro sobre colonialismo.Vou de Jean Rhys nessa porque quero ler mais sobre a Dominica.Título escolhido: Vasto mar de sargaços (Jean Rhys) [Lido – Resenha].
  • 9. Um livro sobre escravidão.Maria Firmina dos Reis é a primeira autora negra de que se tem notícia na literatura brasileira, foi também uma abolicionista e escreveu histórias em que defendeu os direitos dos negros. Nada mais justo do que escolher um livro dela para esta categoria.Título escolhido: Úrsula e outras obras (Maria Firmina dos Reis) [Lido – Resenha].
  • 10. Um livro sobre um conflito ainda vigente.Infelizmente há muitos e muitos livros que se encaixam nesta categoria. Acabei escolhendo o livro do Atiq Rahimi que escolhi para representar o Afeganistão no projeto 198 livros.Título escolhido: Syngué sabour: pedra de paciência (Atiq Rahimi) [Lido – Resenha].

O desafio proposto pela Camila ficou bem legal né, nos propõe a ampliar bastante nossos horizontes de leitura. E aí, ficou animado(a) para participar também? Para quem quiser acompanhar as leituras do pessoal este ano, fiquem de olho na hashtag #desafioviaggiando nas redes sociais.

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