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Colecionando Textos #69

 

 

*Feito no Canva.

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Sanga Menor (Cíntia Lacroix)

“Sanga Menor era uma cidade em forma de ladeira. Uma ladeira suave na descrição de alguns que tomavam por parâmetro, decerto, um precipício. Uma ladeira íngreme na opinião de outros que talvez a comparassem à linha do horizonte.

(…)

A rua principal estendia-se desde o ponto mais alto da cidade, onde estavam a igreja, o clube e a prefeitura, até o ponto mais baixo, onde dormia a sanga, no seu leito escuro e quieto. ”

 (página 23)

Desde a primeira vez que me deparei com o título da obra de Cíntia Lacroix, senti que precisava lê-lo. Isso foi lá em 2009, quando o romance contava com outra capa. Mais de uma década e uma nova edição depois finalmente pude me enveredar pelas ruas de Sanga Menor (que nem são muitas) e pela história de sua gente. Uma cidade cercada por mistérios e lendas que recheiam a história com ares de um realismo fantástico que nada fica a dever aos grandes nomes do gênero.

Como quem não quer nada, Lacroix nos convida a conhecer a história do cordato e acomodado Lírio Caramunhoz, da protetora Rosaura, da cansada Margô, do criativo Gilberto e da contestadora Caetana dentre tantos outros sanga-menorenses. A trama tem início com Lírio, criado a pão-de-ló pela mãe (para o desassossego de Margô), um cuidado excessivo que vem desde quando ainda estava na barriga, decorrente da ausência do pai e esteio da família que sobrevive em estado vegetativo após um derrame. É o constante medo de Rosaura que a fez e faz tratar seu único filho assim, mas longe de protegê-lo tal fato serviu para colocar um alvo em seu corpo, para todas as chacotas que os sanga-menorenses pudessem inventar. É fácil o leitor se colocar ao lado de Margô e taxar Lírio de aproveitador, mas quando você percebe que ele não é alienado de sua condição e até mesmo se martiriza por ela, é impossível não se pegar torcendo para ele conseguir romper as amarras e finalmente viver sua vida. Continuar lendo

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Não, Não é Bem Isso (Reginaldo Pujol Filho)

Não, Não é Bem Isso é o quarto livro do Reginaldo Pujol Filho, mas é o primeiro do autor que leio e eu adorei a experiência. São doze textos, onze contos e uma novela nos quais Reginaldo encarna vários narradores, de uma alma recém desencarnada a uma criança com pretensões pela santidade. O caldeirão de misturas rendeu narrativas deliciosas e bastante diversificadas. Não tem como ficar entediado, a cada conto, é como se fosse um novo livro. A luta de classes, as confusões provocadas pelas diferenças linguísticas, uma pandemia, um bigode emblemático e uma experiência com consequências funestas, uma herança diferente, releituras… Muitas das histórias espalham-se pelo mundo e algumas (poucas) espraiam-se pelas ruas e praças de Porto Alegre. Mas, falando do mundo ou de casa, Reginaldo é certeiro nas palavras e incisivo em suas críticas sociais.

“A história é apenas John, ou Paul, ou George, Ringo não conversando com Dumbo, perguntando para Dumbo quantos chineses eles vão explodir hoje, chineses porque vietnamitas ou vietcongues é um troço complicado de falar e o preconceito é fácil, fácil de dizer. ”

 (página 36  – Helicóptero elefantes, Emília, John, ou Paul, ou George, Ringo não)

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Sem Gentileza (Futhi Ntshingila)

“Foi naquele dia, quando a bolsa de auxílio-doença da mãe foi suspensa, que Mvelo parou de pensar mais do que um dia por vez. Aos quatorze anos, aquela menina que antes adorava cantar e dar risada parou de ver o mundo em cores. E passou a vê-los em tons cinzentos e opacos. Teria que pensar como adulta para manter sua mãe viva. Estava em meio à escuridão. ” (Página 9)

Ter começado o projeto de leitura “Volta ao Mundo em 198 Livros” ampliou consideravelmente meu horizonte de leituras. Não somente em direção aos clássicos, como também em direção aos autores contemporâneos. Foi estimulada pelo projeto que decidi escolher o livro da Futhi Ntshingila para ser o representante da África do Sul. Futhi é jornalista e mestra em Resolução de Conflitos. Ela tem dois livros publicados, ambos marcados pela característica de fornecerem voz às mulheres ignoradas historicamente. Uma literatura feminista em essência e sul-africana em suas raízes.

Sem Gentileza traz a história de Zola e Mvelo. Mãe e filha vivem nos guetos da África do Sul, em um período pós apartheid, mas ainda assim muito marcado por ele. Negras e pobres, tiram da resiliência a força para sobreviver em uma sociedade marcada pelo medo pungente da aids, e na qual os direitos das mulheres são cerceados pela conduta machista que impregna toda a sociedade. Uma sociedade na qual a prática de testes de virgindade é utilizada para combater o abuso infantil disseminado, mas que acaba por colocar um alvo de pureza nas testas das garotas que se tornam vítimas de estupros dos soropositivos que acreditam nos boatos de que ficariam curados se deitassem com uma virgem. A intenção pode até ser de proteção, mas acaba se tornando uma ameaça e uma ferramenta de humilhação e julgamento das mulheres testadoras com as garotas. Continuar lendo

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Mistério no Centro Histórico (Tailor Diniz)

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No prefácio de Crime na Feira do Livro (2010), a obra na qual Diniz nos apresenta o detetive Walter Jacquet, o autor havia comentado sobre a dificuldade em dar continuidade a outras histórias com o personagem, uma pendenga que foi solucionada por ele. Em Mistério no Centro Histórico Diniz resgata seus personagens e nos convida a enveredar novamente pela cidade de Porto Alegre. Estão de volta Walter Jacquet, seu amigo Joãozinho e Inácia, a governanta de Joãozinho que tem o dom de fazer comentários certeiros e por vezes hilários.

Apesar de editorialmente ser mais recente do que Crime na Feira do Livro, a trama de Mistério no Centro Histórico é mais antiga. Enquanto a trama sobre o assassinato de Adavílson Doceiro tem lugar em 2008, neste os acontecimentos se passam em 2002, isso porque a ideia para essa história tem raízes antigas. A trama que envolve um suposto atentado terrorista no centro histórico de Porto Alegre, a criação de um romance e a confrontação dos fatos pelo uso da lógica, surgiu de um projeto de mestrado apresentado por Diniz à PUCRS há cerca de dez anos.  A proposta não foi selecionada, mas Diniz decidiu não abandonar a trama e finalizar a história.

Na trama, Joãozinho Macedônio, aspirante a escritor, finalmente consegue escrever uma novela baseada em um fato real, a explosão de uma bomba no centro histórico de Porto Alegre. Por depositar todas as suas esperanças nesse manuscrito, ele logo pede que seu amigo – o detetive Walter Jacquet recém-chegado dos EUA para uma temporada na cidade – avalie a sua história. Bomba explodindo em lugar diferente do sugerido por uma denúncia anônima, muitos interesses políticos e uma pressa suspeita em capturar o autor do atentado, incitam Walter a utilizar a lógica para desconstruir passa-a-passo o caso (e para desespero de Joãozinho de sua novela) e enveredar por suas próprias investigações. Continuar lendo

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Fetiche (Carina Luft)

Carina Luft, natural de Montenegro – RS e egressa da oficina literária de Charles Kiefer, escolheu a podofilia (fetiche por pés) como ponto de partida para se enveredar pelo mundo do romance policial. A novela, publicada em 2010 pela editora Dublinense, tem como cenário a pequena cidade ficcional de Adenauer no interior do Rio Grande do Sul, que está abalada por uma série de crimes. Jovens aspirantes à modelo começam a aparecer mortas e seus pés, arrancados dos corpos são levados como troféus. Cabe ao já calejado delegado Weber e ao jovem investigador Nestor a tarefa de descobrir e prender esse assassino psicopata.

Diferentemente do formato ao qual estamos acostumados em se tratando de literatura policial, em Fetiche, Carina escolheu entregar os assassinos (pelo menos parcialmente) logo de cara. Retira do leitor a atividade de tentar descobrir o assassino antes da conclusão da história, para investir no ato investigativo em si. Na rotina da DP em juntar as provas, retirar algum sentido delas, entender a mente do assassino e assim o capturarem. Continuar lendo

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Crime na Feira do Livro (Tailor Diniz)

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No texto da ‘orelha do livro’ Altair Martins diz que: “Esta é uma novela para se ler em Porto Alegre ou, ao menos, tendo na retina suas ruas, a paisagem do Guaíba e, sobretudo, dos Jacarandás da Feira do Livro.” Então, devo confessar que foi com apreensão que comecei a ler o texto de Diniz, tinha receios de que não aproveitasse o texto em sua totalidade, ou que escapasse às minhas retinas virgens minúcias que qualquer porto-alegrense poderia captar. Meus receios mostraram-se infundados, Diniz descreve os lugares com tanta clareza que é impossível não conseguir imaginar-se às margens do Guaíba, na Casa de Cultura ou a perambular pela Rua Sete de Setembro. Não conhecer POA, não te impede de aproveitar as aventuras do detetive Jacquet.

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