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Leia Mulheres: a importância de termos mulheres produzindo quadrinhos

Participo de alguns grupos do Facebook onde o foco das discussões é a literatura. Neste mês algumas postagens sobre livros escritos por mulheres acabaram aparecendo por lá, particularmente lembro-me de uma postagem feita por um rapaz no qual ele comenta a menor quantidade de escritoras que leu em comparação aos escritores no ano passado e como pretendia tentar diminuir essa defasagem este ano. Não foi a postagem dele que me surpreendeu, mas sim o comentário de um homem que enfatizou que estava muito surpreso com o fato das pessoas quererem ler mais autoras, ou ler tanto mulheres quanto homens, para ele o importante era o conteúdo apenas e que agora tudo era motivo para se instituir cotas (não vou nem comentar sobre o quão errado foi utilizar o sistema de cotas com tom de desmerecimento para estabelecer a comparação).

Será que o conteúdo realmente é importante para ele? O conteúdo de um livro, além da narrativa e da trama também passa pela construção dos personagens. E a construção de personagens femininas fortes, que não sejam utilizadas como meras muletas para o desenvolvimento dos protagonistas masculinos; de personagens que não sejam relegadas à objetos ou sejam hipersexualizadas; que tenham voz e que realmente tenham espaço na narrativa é uma parte muito importante do conteúdo dos livros e por mais que alguns autores consigam representar bem suas personagens femininas, muito do que ali é representado acaba sendo permeado por sua visão de mundo enquanto gênero historicamente dominante. Não há dúvidas, de que algumas representações do feminino só possam ser efetivamente alcançadas pela ótica feminina e isso para mulheres, garotas e meninas, que perfazem uma boa parcela da população de leitores, é muito importante. É importante ler e perceber como os pensamentos, as formas de encarar o mundo, os desafios enfrentados e as dúvidas encontram ressonância em nossa vida. A identificação do leitor com o personagem é uma parte fundamental da leitura e ao incentivarmos que mais autoras sejam publicadas e lidas, queremos que essa identificação seja mais efetiva. Que as meninas possam ler sobre mulheres determinadas, possam se inspirar por suas trajetórias, possam encontrar alento em uma história de superação que lhes dê ânimo para enfrentar os próprios problemas, que possam ler ali nas páginas aquelas vozes que durante tanto tempo permaneceram caladas. Continuar lendo

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Mônica – Força (Bianca Pinheiro)

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A enorme força da Mônica sempre foi a sua característica mais marcante, não são raras as histórias em que ela emprega o uso de sua força, principalmente se elas envolverem os planos infalíveis do Cebolinha. Só que agora, na trama desta Graphic MSP o Sidney Gusman teve a ideia de explorar um outro lado desta força. Confrontar a Mônica, do alto de seus sete anos, com a realidade de que a força muitas vezes não é a solução para todos os problemas. Há problemas além do alcance de suas coelhadas, que expõem sua fragilidade e impotência. A Bianca Pinheiro foi a escolhida para encarar esse desafio. Ela é mais conhecida pela série Bear (publicada pela Nemo) que ainda não tive a oportunidade de conferir, mas que fiquei com muita vontade depois de ter lido sua história da Mônica.

A trama é simples que pode até ser considerada banal. Mas foi tratada com uma grande sensibilidade pela Bianca. A história foge dos padrões das histórias da Mônica, com uma trama mais intimista, de poucas palavras e muitos simbolismos (e algumas referências), na qual até mesmo as folhas de guarda participam da história. Os traços são limpos, sem muitos detalhes, porém bastante expressivos. O enquadramento é amplo, Bianca aproveita bem todos os espaços disponíveis. Tudo isso aliado a uma paleta de cores tão linda, que mesmo sendo uma trama dolorida, ainda assim explode em fofura. Continuar lendo

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Louco – Fuga (Rogério Coelho)

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E já estamos no décimo volume das Graphic MSP, e se com a releitura de A Turma da Mata não houveram grandes expectativas (e foi uma surpresa bastante agradável), com a adaptação do Louco elas estavam lá em cima. Desde quando fiquei sabendo que haveria uma Graphic MSP do personagem, já estava ansiosa pela publicação. O personagem com alguns parafusos a menos e que adora pegar no pé do Cebolinha sempre rendeu histórias divertidas e o Rogério Coelho conseguiu fazer jus a esse histórico, entregando, na minha opinião, uma das melhores histórias publicadas pelo selo.

Uma das coisas mais legais envolvendo essa adaptação, reside no fato do Rogério Coelho ter sugerido, por sua própria conta e risco, fazer uma história para o Louco. Lá em 2013, ele enviou alguns esboços (que podem ser vistos nos extras) de sua trama para o Sidney Gusman. Ele realmente queria criar uma história para o Louco, mesmo que até então não houvesse uma previsão de uma adaptação para o personagem. O projeto acabou ficando em suspenso e finalmente, em novembro do ano passado, ganhou os papeis. Continuar lendo

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Turma da Mata – Muralha (Artur Fujita, Roger Cruz & Davi Calil)

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O nono volume do selo Graphic MSP traz a Turma da Mata em um trabalho de seis mãos: roteiro de Artur Fujita, arte de Roger Cruz e cor de Davi Calil. Acho que de todas as Graphic MSP lançadas até o momento, talvez seja esta a que menos fazia questão de ler e sobre a qual menos tinha expectativas. E isso, porque minhas lembranças da Turma da Mata (excetuando-se o Jotalhão por motivos óbvios) são praticamente inexistentes. Não lembrava, por exemplo, da característica original dos quadrinhos do Mauricio de inserir uma pitada de política nas histórias, e que o trio fez questão de resgatar em sua releitura. Minhas parcas lembranças podem ter sido o que me fez gostar do trabalho deles, então, não sei se para alguém que costumava acompanhar as histórias originais a adaptação será bem recebida. Mas, o trabalho apresentado aqui, tem uma trama interessante e traços e cores que renderam uma HQ bastante colorida e bonita.

Em Turma da Mata – Muralha, um metal tão raro quanto rentável colocou a Turma da Mata e o reino de Leonino em lados opostos. Há muito tempo, o rei Leonino I encontrou numa montanha uma grande mina de Calerium. Um metal raro e com aplicações que propiciaram o desenvolvimento da era do vapor e o surgimento de invenções com a nau voadora. Para proteger o tesouro, Leonino mudou seu reino para a montanha e a cercou com uma imensa muralha. O acesso à cidade é apenas pelo céu (com as naus voadoras) e a ganância pelo metal levou Leonino a capturar moradores da Mata e escravizá-los para trabalharem nas minas. Inúmeras batalhas aconteceram ao longo dos anos e líderes de ambos os lados foram capturados e abatidos. Mas agora, a mina de Calerium de Monte Leon secou e a descoberta de uma nova mina na Mata, pode tornar a batalha iminente a maior e mais sangrenta de todas. É com esse pano de fundo que Fujta, Cruz e Calil nos reapresentam os personagens de Mauricio. Continuar lendo

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Turma da Mônica – Lições (Vitor Cafaggi & Lu Cafaggi)

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Já estamos no oitavo volume do selo Graphic MSP e desta vez os irmãos Cafaggi retornam ao bairro do Limoeiro com uma história triste, mas repleta de fofura. Os traços continuam lindos; as cores, desta vez em parceria com a Paula Markiewicz, mantêm o clima oitentista da trama; e agora, novos (velhos conhecidos) personagens nos são apresentados: Dudu, Quinzinho, Mingau, só para citar alguns…

Desta vez, Mônica, Cebolinha, Magali e Cascão se esquecem de fazer a lição de casa, e quando o medo da possível bronca da professora alia-se a uma imaginação fértil e um medo irracional, as crianças tomam medidas drásticas que as colocam em sérios apuros. E cabe aos pais, garantirem que eles aprendam a lição. Para isso, eles cobram das crianças mais disciplina, os colocam em novas atividades e no caso da Mônica, até mesmo a mudança para uma nova escola! Nada será como antes e a Turma acaba ficando estremecida. É difícil conciliar horários com escolas diferentes e estando de castigo. Por outro lado, toda essa abertura de espaço propiciou a inclusão dos “novos” personagens. Além disso, Vitor e Lu trabalharam bem a adaptação da Mônica na nova escola e a do restante da Turma na antiga escola, que agora conta com uma dinâmica social totalmente nova. Continuar lendo

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Penadinho – Vida (Paulo Crumbim & Cristina Eiko)

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Como bem colocado por Mauricio de Sousa em seu texto de apresentação do volume: o momento do anúncio das novas Graphic MSP foi marcado pela grande emoção dos presentes, particularmente por parte do Paulo Crumbim e da Cristina Eiko quando souberam que haviam sido escolhidos para fazer o Penadinho. Mauricio conta que naquele momento teve a certeza de que toda aquela emoção seria transposta para a releitura dos dois. E Crumbim e Eiko realmente o fizeram. Criaram uma história de amor além da vida e com um ar de nostalgia que tem tudo para agradar aos fãs da turma do Penadinho.

Em Penadinho – Vida, o Penadinho acaba de descobrir que a Alminha irá reencarnar e ele nunca teve a chance de dizer que a amava. Agora, ele está determinado a cumprir pelo menos uma das inúmeras promessas que fez a ela, e talvez criar coragem para lhe dizer o que realmente sente. Mas, é claro que algo feito às pressas tem tudo para dar errado e realmente dá. Alminha desaparece e agora Penadinho e seus amigos tem que encontrá-la até o amanhecer, quando a Dona Cegonha virá buscá-la. Continuar lendo

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Chico Bento – Pavor Espaciar (Gustavo Duarte)

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Desde que eu descobri as graphic novels do selo Graphic MSP, as histórias que tive maior vontade de ler, eram as adaptações da turma do bairro do Limoeiro (o meu núcleo favorito ever) e a do Chico Bento. Laços foi uma homenagem muito bonita e saudosista feita pelos irmãos Cafaggi. Pavor Espaciar, do Gustavo Duarte, foi publicada em 2013, mas só consegui conferir agora, depois de sua reedição. E, apesar de toda a ansiedade para ter o volume em mãos, não estava esperando tanto da história, pois havia lido algumas resenhas negativas que diziam que o Gustavo Duarte não fazia jus ao personagem, reclamando da ausência de texto… Foi com um pé atrás que comecei essa história, mas o traço limpo e bastante expressivo de Duarte, sua história simples e de certa forma tão ligada às crendices das cidades do interior e as mil referências espalhadas pelas páginas, garantiram uma leitura bastante divertida.

Do núcleo do Chico Bento, Gustavo Duarte decidiu fazer um recorte e criar uma história na qual Chico, Zé Lelé, Torresmo e Giselda fossem os personagens em destaque. Com isso, os pais do Chico têm apenas uma pequena aparição, e outros conhecidos nossos (como a Rosinha) nem dão as caras. E isso é um porém, que espero que uma nova HQ do Chico poderia sanar. Mas, voltando a história… Continuar lendo

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Astronauta – Singularidade (Danilo Beyruth)

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“…. Estou sempre procurando algo, mas não sei bem o quê. A maioria das pessoas imagina o espaço como um imenso vazio. Eu o vejo como ele é: um lugar repleto de descobertas para serem feitas. ”  (Página 27)

Em Astronauta – Singularidade, Danilo Beyruth dá continuação à história apresentada em Magnetar. No primeiro volume Beyruth utilizou um episódio de “naufrágio” no espaço para enfocar a solidão tão característica do personagem, e rememorar os eventos da sua infância e as escolhas que o Astronauta teve de fazer por causa de sua carreira. Agora, em Singularidade, reencontramos o Astronauta passando por avaliações psicológicas que irão determinar se ele poderá continuar em seu posto. E é claro, há uma nova missão: investigar um buraco negro, mas não sozinho! Ele irá acompanhado da doutora responsável por sua avaliação e um tripulante do país responsável pelo seu resgate na malfadada missão anterior. Continuar lendo

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Piteco – Ingá (Shiko)

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A corruptela do nome científico Pythecanthropus erectus deu origem ao nome do personagem criado por Mauricio, Piteco, em 1963 para um jornal da cidade de Bauru. E, quando falamos do Piteco, a memória da infância puxa aquelas histórias que tinham como foco a Thuga e sua corrida eterna atrás do amor do Piteco, fato que sempre me fez torcer o nariz para as histórias do homem da Idade da Pedra, Logo, Piteco – Ingá não era uma das revistas do selo Graphic MSP que eu estava ansiosa para conferir, mas, li tantos elogios à releitura do Shiko e a revista teve um sucesso de vendas tão grande, que acabei não resistindo à curiosidade. E a releitura de Shiko, história, arte e cor, produziu um trabalho surpreendente, que me fez ter outro olhar sobre os personagens e concluiu maravilhosamente o primeiro ciclo do selo Graphic MSP.

Shiko é nordestino, nasceu no sertão paraibano, e trouxe sua origem como inspiração para criar essa história. A Pedra do Ingá, inspiração para o pontapé inicial dessa história e que também a nomeia, realmente existe e está localizada no Agreste da Paraíba. Além disso, Shiko também utiliza elementos de lendas brasileiras como o Boitatá e a Caipora, e elementos míticos andinos como o Camazotz, um morcego gigante. Continuar lendo

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Astronauta – Magnetar (Danilo Beyruth)

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“No mar, me dediquei a desfrutar desse exercício de descobrir a proximidade por meio da distância. E, de quando em quando, só por prazer, de o inverter. Aos leitores desse solitário Astronauta, em que Danilo Beyruth reinterpreta o clássico de Mauricio de Sousa, desejo que desfrutem do mesmo prazer.” (Amyr Klink – navegador e escritor)

Astronauta – Magnetar marca o lançamento do selo Graphic MSP e por se tratar de um personagem de menos visibilidade entre tantos outros criados pelo Mauricio, não parece ser uma escolha óbvia para marcar o début de um selo que tem por objetivo apresentar releituras dos personagens do Mauricio. Quando criança, lembro que as histórias do Astronauta não figuravam entre as minhas favoritas. Ainda assim, nunca deixava de ler as histórias daquele cara que passava tanto tempo sozinho no espaço e que muito esporadicamente voltava a Terra para visitar seus pais e a garota por quem era (é) apaixonado, Ritinha. Mas, as histórias do Astronauta sempre tiveram um tom mais adulto, mais melancólico e filosófico, que você só passa a curtir quando mais velho. E todas essas características combinaram muito bem com o enfoque dado por Danilo Beyruth em sua releitura do personagem. O enfoque é na solidão enfrentada pelo personagem, sua escolha de carreira e o que ela representou para as outras partes de sua vida, e o espaço, seus fenômenos físicos e seus mistérios.

Apesar da história se passar quase que totalmente no espaço, Beyruth não deixa de resgatar a infância do Astronauta, seu relacionamento com o avô, com os pais e com a Ritinha e interliga-os muito bem em sua trama. Aqui, o Astronauta está em uma missão para coletar mais informações sobre um curioso corpo celestial, o Magnetar. O tema Magnetar foi sugerido por Eduardo Cypriano do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciência Atmosférica da USP, durante a consultoria que ele prestou a Beyruth. E no geral, os conhecimentos astrofísicos foram respeitados, mas, algumas licenças poéticas tiveram que ser feitas em prol da fluidez da história. Essas incongruências perante as leis da física, a gente releva que é para melhor aproveitar a história, e o melhor é que elas nos são justificadas pelo próprio Beyruth em nota no final da hq contendo um glossário bastante elucidativo dos temas trabalhados. Mas, voltando a trama. Durante sua missão, o Astronauta enfrenta problemas que acabam deixando-o à deriva no espaço e colocando sua vida em risco. Continuar lendo

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