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Leia Mulheres: Resistência

Não há dúvidas de que os tempos são sombrios e a escalada do ódio gratuito distribuído por aqueles que usam como desculpa a mudança e o inconformismo tem espalhado o terror por terras brasileiras e distribuindo o pânico (e como razão) principalmente entre as minorias. Quando a defesa de seus ideais é feita na base da porrada, facadas, tiros e bombas, há que se pensar o quão democrático esse processo é. Quando para fazer valer sua verdade você silencia a voz do outro, há que se pensar o quão democrático esse processo é. Quando seguem ferindo nossa existência, é preciso aprender a ser resistência. E já que a preocupação com o que vem por aí está interferindo diretamente no meu ritmo de leitura, sim as resenhas irão minguar, vamos fazer uma postagem do Leia Mulheres um pouco diferente. Em vez de indicar autoras, indicarei livros. Livros que falam sobre resistência, sobre perseverança nos momentos mais desesperadores e sobre resiliência para resistir às agruras. Um verdadeiro exercício de empatia, alguns importantes registros de períodos da história que muitos ainda teimam em esquecer.

Foto de Kyle Glenn disponível no Unsplash.

O Conto da Aia (Margaret Atwood) [Amazon]

A obra escrita em 1985 traz uma sociedade na qual a ingerência do Estado e da religião tornou o papel da mulher na sociedade amplamente restrito, uma história que infelizmente ecoa muito da ingerência de muitos grupos políticos e dos casos de violência levados aos extremos do feminicídio.

Mulheres Sem Nome (Martha Hall Kelly) [Amazon]

Para criar a história de Mulheres Sem Nome, Martha Hall Kelly se inspirou na história da socialite, ex-debutante e ex-atriz da Broadway Caroline Ferriday que teve um forte envolvimento com as causas humanitárias, principalmente com as mulheres polonesas libertas do campo de Ravensbrück no pós-guerra além é claro de todo o trabalho político no qual acabou envolvida para garantir que as pessoas que cometeram atos terríveis durante a Segunda Guerra Mundial fossem punidas. Hall Kelly dá uma bela lição sobre empatia e faz uma ode às mulheres que estabeleceram uma rede de auxílio à outras mulheres nesses tempos tão sombrios. Continuar lendo

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Leia Mulheres: Distopia

No mês de março foi a última vez que eu trouxe uma postagem desta coluna aqui no blog. Desde abril o meu ritmo de leitura deu uma desacelerada e o desânimo acabou se refletindo nas postagens do blog e eu acabei deixando algumas colunas do blog acumulando pó, portanto, essa é uma postagem para tentar resgatá-las e quiçá não as deixar relegadas ao esquecimento novamente.

Desta vez vamos falar sobre mulheres e distopia. A distopia é um gênero bastante abordado nos livros jovens adultos, e além disso, hoje também conta com uma grande quantidade de autoras publicando livros nessa temática, inclusive autoras brasileiras como a Bárbara Morais e a sua trilogia Anômalos e a Roberta Spindler com seu romance A Torre Acima do Véu. A lista de autoras que se enveredam por esses mundos distópicos, na maioria das vezes comandados por governos totalitários opressores, alguns com protagonistas jovens, outros com um poderoso e necessários discurso feminista, é imensa, mas seguindo minha rotina, trago apenas algumas poucas indicações de autoras das quais já li um ou mais trabalhos. Continuar lendo

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Dôra, Doralina (Rachel de Queiroz)

Esta é mais uma daquelas leituras que foram fomentadas por um desafio literário, no caso o Desafio Lendo Mais Mulheres 2018. Nele há a categoria ler um livro de uma autora sul-americana e eu não pude deixar passar a oportunidade de colocar o único livro da Rachel de Queiroz que tenho na minha estante. Não é que eu nunca tenha ouvido falar da Rachel de Queiroz, mas ela não fulgurava entre os autores que li no ensino médio. Não comecei pelo O Quinze nem Memorial de Maria Moura (duas de suas obras mais emblemáticas), mas Dôra, Doralina cumpriu seu papel de me apresentar uma escritora de narrativa afiada, muito ligada às suas raízes nordestinas e sempre preocupada com a situação política do país.

Dôra, Doralina foi publicado originalmente em 1975 e traz a história de uma protagonista que vive em uma fazenda no agreste nordestino sob o jugo da mãe, passando por seu grito de liberdade, seu envolvimento com uma trupe de teatro mambembe, seu desembarque no Rio de Janeiro em tempos de guerra e a descoberta do amor. Apesar de não acompanharmos Dôra desde sua infância, este é essencialmente um romance de formação e para refletir as diferentes fases pelas quais Dôra transita, Rachel estruturou a obra em três livros. Continuar lendo

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Histórias de Ninar para Garotas Rebeldes 2 (Francesca Cavallo & Elena Favilli)

Elena Favilli e Francesca Cavallo (fonte –  Kickstarter)

Francesca Cavallo e Elena Favilli são co-fundadoras da empresa de mídia Timbuktu Labs com sede nos Estados Unidos. A empresa reúne empreendedores, designers, educadores e engenheiros com experiência internacional na indústria de entretenimento infantil, com o objetivo de produzir conteúdos envolventes e tecnológicos, passando pelos livros, jogos e brinquedos infantis. Histórias de Ninar para Garotas Rebeldes surgiu da vontade de produzir um material de qualidade, que fosse inspirador e empoderador e que mostrasse às garotas todo o potencial de “garota rebelde” que elas trazem consigo. O primeiro volume foi publicado via financiamento coletivo no Kickstarter. O livro que traria 100 histórias (no formato das fábulas e dos contos de fadas) de mulheres extraordinárias do passado e do presente, com ilustrações produzidas por mulheres talentosíssimas do mundo inteiro, bateu recordes de arrecadação. Cem por cento da meta de arrecadação foi atingida em apenas trinta horas e pessoas de mais de setenta países apoiaram o projeto que se tornou um sucesso de vendas em vários países. No Brasil, a V&R Editoras publicou o livro em 2017 e por aqui o sucesso também foi imediato. Agora, cem novas extraordinárias mulheres são celebradas em um segundo volume (que bem poderia se tornar uma série). Cem histórias de mulheres de todos os cantos do mundo, de vários períodos da nossa história e de todas as idades, que lutaram (e lutam) por mais espaço, que perseguiram (e ainda perseguem) seus sonhos mesmo contra todas as possibilidades, que se mostraram exímias nos campos aos quais se dedicaram e que mostraram (e mostram) por A + B que lugar de mulher é aonde ela quiser e que o gênero não deveria ser uma barreira para a escolha de uma profissão.

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Moribito – O Guardião do Espírito (Nahoko Uehashi)

Moribito é uma série de fantasia que começou a ser publicada em 1996 e conta com dez volumes. A história criada por Naholo Uehashi inspirou mangás e foi transformada em anime pela Production I.G com direção de Kenji Kamiyama (de Ghost in the Shell). No primeiro volume, Uehashi traz as aventuras de Balsa, Chagum e o espírito Nyunnga Ro Im. Balsa é uma mulher de 30 anos, habilidosa lanceira e guarda-costas itinerante que presenciou um acidente envolvendo o segundo príncipe de Nova Yogo (Chagum) e o resgatou. Acontece que um espírito que coloca um ovo em um hospedeiro humano a cada cem anos, escolheu Chagum para ser o portador da vez e Balsa, atendendo às súplicas da Segunda Rainha, agora é a responsável por manter o garoto a salvo. De um monstro que caça e se alimenta dos ovos do Nyunga Ro Im e dos servos do Mikado (o rei) que ordenou a morte do próprio filho, por causa dos seus interesses políticos. Nessa jornada eles terão a ajuda de Tanda, amigo de infância de Balsa e xamã em formação e de Torogai uma exímia mestre xamã. Continuar lendo

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O Homem é um Grande Faisão no Mundo (Herta Müller)

Decidir qual livro ler como representante da Romênia no Projeto Volta ao Mundo em 198 Livros não foi uma tarefa fácil. Não por escassez de autores e títulos, mas porque decidida a ler uma obra da Herta Müller tive receio de acabar escolhendo a obra errada e me decepcionando com a autora. Já ouvi e li tantas opiniões divergentes acerca de sua obra, e um bocado de pessoas com gostos parecidos com os meus não tiveram uma boa experiência com os livros da autora, que quando finalmente optei por começar com O Homem é um Grande Faisão no Mundo, foi com as expectativas lá embaixo. E que coisa boa é ser surpreendida positivamente. Ao menos neste, a narrativa de Herta é certeira, concisa e sem rebuscamento, mas ao mesmo tempo é de muita riqueza poética e transpira as feridas sofridas pelos alemães nascidos em terras romenas, como a própria Müller. Continuar lendo

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15 Contos Escolhidos (Katherine Mansfield)

“Eu tinha ciúmes de sua escrita – a única escrita da qual eu já tive inveja.” Foram essas as palavras de Virginia Woolf sobre a obra daquela com quem manteve uma relação de estreita amizade, que envolvia trocas de cartas e revisões de manuscritos, Katherine Mansfield. Se cabe a Woolf ter um dos melhores exemplo do uso do fluxo de consciência em um romance. Mansfield foi a pioneira no uso e tem ótimos exemplos da técnica em seus contos. Katherine nasceu em 1888 na Nova Zelândia e mudou para a Inglaterra em 1902. Nesse período, o violoncelo detinha suas atenções. Foi somente ao retornar ao seu país natal em 1906 que começou a escrever contos, e mais tarde, em 1908, ao deixar de vez a Nova Zelândia e partir para a Inglaterra, foi que mergulhou de vez na vida boêmia comum aos escritores da época. Sua vida foi curta, Mansfield morreu aos 34 anos vítima de tuberculose, mas seus contos ressoam até hoje. Nesta pequena coletânea, que abarca os contos escritos por Mansfield entre 1915 e 1922, ela se mostra exímia em tornar o cotidiano envolvente. Ao mais esconder do que revelar e lançar muitas suposições e dicas em sua narrativa, seus contos podem durar poucas páginas, mas permanecem com o leitor que se vê enleado em elucubrações. Eu que não sou uma pessoa de contos, me vi enredada em vários deles. Críticas aos costumes, ao assistencialismo sob os holofotes, questões de classe e a construção do feminismo na sociedade patriarcal são só alguns dos temas abordados por Mansfield em sua obra. Alguns contos são realmente primorosos, quer seja pela estética, pela crítica implícita ou pela força de seus personagens, e merecem ser destacados. Continuar lendo

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Leia Mulheres: a importância de termos mulheres produzindo quadrinhos

Participo de alguns grupos do Facebook onde o foco das discussões é a literatura. Neste mês algumas postagens sobre livros escritos por mulheres acabaram aparecendo por lá, particularmente lembro-me de uma postagem feita por um rapaz no qual ele comenta a menor quantidade de escritoras que leu em comparação aos escritores no ano passado e como pretendia tentar diminuir essa defasagem este ano. Não foi a postagem dele que me surpreendeu, mas sim o comentário de um homem que enfatizou que estava muito surpreso com o fato das pessoas quererem ler mais autoras, ou ler tanto mulheres quanto homens, para ele o importante era o conteúdo apenas e que agora tudo era motivo para se instituir cotas (não vou nem comentar sobre o quão errado foi utilizar o sistema de cotas com tom de desmerecimento para estabelecer a comparação).

Será que o conteúdo realmente é importante para ele? O conteúdo de um livro, além da narrativa e da trama também passa pela construção dos personagens. E a construção de personagens femininas fortes, que não sejam utilizadas como meras muletas para o desenvolvimento dos protagonistas masculinos; de personagens que não sejam relegadas à objetos ou sejam hipersexualizadas; que tenham voz e que realmente tenham espaço na narrativa é uma parte muito importante do conteúdo dos livros e por mais que alguns autores consigam representar bem suas personagens femininas, muito do que ali é representado acaba sendo permeado por sua visão de mundo enquanto gênero historicamente dominante. Não há dúvidas, de que algumas representações do feminino só possam ser efetivamente alcançadas pela ótica feminina e isso para mulheres, garotas e meninas, que perfazem uma boa parcela da população de leitores, é muito importante. É importante ler e perceber como os pensamentos, as formas de encarar o mundo, os desafios enfrentados e as dúvidas encontram ressonância em nossa vida. A identificação do leitor com o personagem é uma parte fundamental da leitura e ao incentivarmos que mais autoras sejam publicadas e lidas, queremos que essa identificação seja mais efetiva. Que as meninas possam ler sobre mulheres determinadas, possam se inspirar por suas trajetórias, possam encontrar alento em uma história de superação que lhes dê ânimo para enfrentar os próprios problemas, que possam ler ali nas páginas aquelas vozes que durante tanto tempo permaneceram caladas. Continuar lendo

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Post Mortem (Patricia Cornwell)

Acho que já deu para perceber pelas minhas leituras que eu gosto de ler romances policiais e thrillers investigativos (gosto das séries de TV também). Gosto do formato procedural com casos a serem esmiuçados e resolvidos em cada livro, que muitas vezes fazem parte de uma longa série de livros estrelados por casais de detetives, inspetores de polícia, antropólogos forenses, peritos criminais e por aí vai. Na minha busca por autores do gênero, já tinha esbarrado no nome da Patricia Cornwell. Ela é muito conhecida no meio e Post Mortem, o seu primeiro romance policial, protagonizado pela médica-legista Kay Scarpetta, foi publicado em 1990. A autora que trabalhou como repórter policial e como analista de informática no Instituto Médico Legal de Richmond na Virginia (EUA) trouxe de suas experiências profissionais a inspiração para as histórias envolvendo sua protagonista.

Neste primeiro volume, a já médica-legista chefe de Richmond há dois anos, Kay Scarpetta está às voltas com as investigações de um assassino que começou a atuar há dois meses (ao menos em Richmond) e que está matando mulheres e deixando para trás um resíduo brilhante nos corpos das vítimas. Scarpetta é responsável pelas necropsias, mas acaba se envolvendo nas minúcias da investigação para desgosto de Pete Marino, o policial de carreira responsável pelo caso. E, enquanto a “dupla” segue aos tropeços e disputas, interesses políticos, passados inescrupulosos, crianças prodígio e uma pitada de narrativa de redenção; tornam a trama de Cornwell bastante envolvente. Continuar lendo

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Leia Mulheres: elas também escrevem ótimos romances policiais e thrillers

O dia 8 de março é dia de comemorar as conquistas, obtidas por meio de várias lutas, das mulheres. Nessa longa luta muitos espaços e direitos já foram conquistados. Na literatura não é diferente. Mas, apesar de já termos várias autoras, muitas com enorme sucesso e com obras consideradas clássicas, historicamente ainda existe uma defasagem em relação aos autores (como bem evidenciado naquele experimento da livraria de Cleveland). Foi por causa desse experimento que coloca em evidência essa grande disparidade, que resolvi criar essa coluna aqui no blog em março do ano passado e passado um ano a proposta continua válida. Há várias escritoras extraordinárias por aí esperando para serem lidas e se puder ajudar a divulgar a obra delas pelo menos para uma pessoa, já terá valido a pena. As indicações por aqui são temáticas e a de hoje serve para mostrar que as mulheres também escrevem ótimos romances policiais (não é a toa que até temos uma Rainha do Crime) e thrillers. Confira! Continuar lendo

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