Arquivo da tag: Tag Curadoria

Colecionando Textos #76

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Estação Atocha (Ben Lerner)

“(…) quando imaginava – pressentimento terrível – um mundo privado até mesmo dos pretextos mais idiotas para escrever poemas (…), então eu intuía uma perda inestimável, uma perda não de obras de arte, mas da própria arte, e portanto infinita, o triunfo total do real, e me dei conta de que em um mundo assim eu engoliria uma cartela inteira de comprimidos brancos.” (Página 55).

Quando li a sinopse de Estação Atocha achei que a trama guardava muitas semelhanças com A Velocidade da Luz do Javier Cercas, a diferença residindo no caminho inverso traçado pelos protagonistas. Lá o protagonista espanhol ganha uma bolsa de estudos nos Estados Unidos, aqui é um americano, Adam Gordon, que parte para Madri com uma bolsa de estudos com um projeto para finalizar um longo poema sobre a Guerra Civil Espanhola. Mas, se o protagonista de Cercas respirava literatura, o de Lerner adora uma elucubração, principalmente quando o exercício o mantém alienado do seu projeto.

O romance de Lerner conta com muitas referências à literatura, música e artes visuais. Se você não tem uma leitura de apoio (com direito a ilustrações) como a da TAG, fazer uso da internet se torna essencial para poder visualizar as obras citadas pelo autor. Ainda que a desconexão artística vivenciada por Adam tente manter-nos alheios às artes que nos cercam, a imersão proporcionada pela narrativa de Lerner ainda assim nos convida a conhecer um pouco mais as obras de arte que seu protagonista entra em contato. Uma tarefa difícil, confesso, quando Adam é o que podemos chamar de cultivador da preguiça. Ele deixa a vida “levá-lo” no seu projeto, na sua experiência em um país no qual não se esforça realmente em aprender a língua, na sua entrega a arte. E ele é consciente disso. É como se fizesse questão de se manter em constante desconexão artística, mesmo quando imerso nela.

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Colecionando Textos #74

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Adeus, Gana (Taiye Selasi)

Taiye Selasi é filha de pai ganense e mãe nigeriana, nascida em Londres, é a personificação do indivíduo afropolitano (“um africano marcado pela vivência em diferentes lugares do mundo” como bem colocado pelo autor e curador da obra na TAG Curadoria, José Eduardo Agualusa). E é esta personificação que ela traz para o seu primeiro romance, no qual foi mentorada por ninguém menos que a Toni Morrison. Assim como Selasi, os filhos de Kweku e Folasadé têm origem ganense e nigeriana, além de terem nascido fora do continente africano. E sua história, resume bem o que é o afropolitanismo ao falar sobre a diáspora provocada pelas guerras civis, o processo de imigração e a construção de uma família em uma cultura distinta.

“Seu coração é forte. Mas não é, e ele sabe disso. Está partido em quatro pontos. Só rachaduras no começo, não tratadas por anos. Sua mãe em Kokrobité, Olu em Boston, Kofi em Jamestown, Folasadé por toda parte. Aquela mulher, que está em toda parte dele, profundamente, na fáscia, no músculo, no tecido, na matéria, no sangue. Ele está morrendo de um coração partido. ”

(Página 111).

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Colecionando Textos #72

 

 

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Uma Casa no Fim do Mundo (Michael Cunningham)

Michael Cunningham conheceu Virginia Woolf ainda na adolescência e logo estabeleceu uma conexão afetiva e artística com a autora. Foi inspirado nela que adentrou ao mundo da escrita; foi homenageando ela que ele recebeu o maior prêmio de sua carreira; e é no uso do fluxo de consciência, ainda que de forma tímida algumas vezes, e nos pensamentos digressivos de seus personagens, que ao ressoar a técnica tão bem empregada por Woolf, ele nos entrega uma narrativa a quatro vozes em uma explosão de solilóquios mentais que grudam o leitor às páginas de Uma casa no fim do mundo.

O romance, publicado em 1990, é considerado por Cunningham como sendo sua verdadeira estreia no meio literário, apesar de ter publicado um livro antes (em 1984). Nele o autor traz a história de um trio de jovens que na busca por encontrar seu lugar no mundo, ousaram seguir caminhos pouco convencionais mesmo na sociedade americana da década de 1980 ainda fortemente influenciada pelos ideais libertários do Festival de Woodstock. A trama que engloba mais de vinte anos, primeiro nos anos de 1960 em Cleveland e mais tarde nos anos de 1980 em Nova York, perpassa pela utopia hippie, a cultura gay nos Estados Unidos e a disseminação da AIDS. Temas espinhosos, mas tratados com a sensibilidade necessária sem deixar de lado a crítica social. Continuar lendo

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Colecionando Textos #71

 

 

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Êxtase da Transformação (Stefan Zweig)

Uma das coisas boas de ser assinante da TAG Curadoria é poder descobrir autores que de outra forma talvez eu nunca viesse a ler. Foi assim com Stefan Zweig e seu contundente Êxtase da Transformação. O romance, revelado como texto inédito após a morte de Zweig, foi escrito de forma fragmentária com um tempo espaçado que acabou refletido de forma perceptível entre as duas partes que compõem a trama. A obra se passa durante o entreguerras na Áustria e traz como protagonista a jovem Christine, lançada das agruras do pós-guerra à vida repleta de conforto, ostentação e privilégios em um luxuoso hotel nos Alpes Suíços. Uma experiência transformadora que lhe faz sonhar com um futuro que sua dura realidade sublimou por tanto tempo. Mas, uma experiência com prazo para terminar e que tornará o encarar de sua dura realidade ainda mais doloroso e sufocante. É assim que Zweig nos joga do conto de fadas da primeira parte nos labirintos sombrios da psique humana na última.

A trama se passa em 1926. Em uma pequena cidade do interior da Áustria embebida em crises econômicas, fome, desemprego e em inquietação social depois do fim da Primeira Guerra Mundial, encontramos Christine Hoflehner. Uma moça de 28 anos restrita ao cotidiano de uma repartição pública, especificamente de uma agência postal, até que o marasmo diário é quebrado com a chegada de um telegrama de Pontresina. Um convite direcionado à mãe de Christine, que doente, generosamente o transfere à filha. Mas esta, longe está de se animar com a ideia. A guerra acabou com o riso fácil de Christine, consumiu sua juventude e lhe tirou a vontade de ousar com a felicidade. É com relutância que Christine parte para Pontresina para se encontrar com sua tia e o marido desta e é com sentimento de inequidade e vergonha por sua pobreza que ela adentra ao mundo de luxo e fartura. Começa a transformação de Christine patrocinada pela tia. Dá-se início ao processo de Christine apaixonar-se por si mesma. E de desfrutar as benesses de se encontrar naquela espécie de paraíso. Continuar lendo

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Colecionando Textos #68

 

 

 

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O Mundo se Despedaça (Chinua Achebe)

“O homem branco é muito esperto. Chegou calma e pacificamente com sua religião. Nós achamos graça nas bobagens deles e permitimos que ficasse em nossa terra. Agora, ele conquistou até nossos irmãos, e o nosso clã já não pode atuar como tal. Ele cortou com uma faca o que nos mantinha unidos, e nós nos despedaçamos. ” (Página 198)

Chinua Achebe é considerado o pai da literatura africana moderna e O Mundo se Despedaça, publicado em 1958, traduzido para mais de 50 idiomas e um dos romances africanos mais lidos no mundo, é um marco na literatura nigeriana. O romance ambientado na Nigéria durante o fim do período pré-colonial, traz a cultura igbo como destaque, servindo assim como uma ferramenta importante na representação e no resgate cultural e histórico da África. Aliás, foi justamente na contraposição a visão do europeu sobre o homem africano que Achebe encontrou estímulo para escrever o seu romance. Foi para representar em cores e contrastes toda a riqueza de seu povo e derrubar o racismo endêmico que parecia perdurar nos retratos dos africanos nos livros escritos pelos europeus que Achebe encontrou sua maior inspiração. Fazê-lo em inglês, portanto, longe de tirar a importância de sua obra, a fez romper as fronteiras e alcançar o mundo, mostrando a cultura igbo e a Nigéria para que muitos pudessem conhecer. Continuar lendo

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