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Colecionando Textos #74

*Feito no Canva.

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Adeus, Gana (Taiye Selasi)

Taiye Selasi é filha de pai ganense e mãe nigeriana, nascida em Londres, é a personificação do indivíduo afropolitano (“um africano marcado pela vivência em diferentes lugares do mundo” como bem colocado pelo autor e curador da obra na TAG Curadoria, José Eduardo Agualusa). E é esta personificação que ela traz para o seu primeiro romance, no qual foi mentorada por ninguém menos que a Toni Morrison. Assim como Selasi, os filhos de Kweku e Folasadé têm origem ganense e nigeriana, além de terem nascido fora do continente africano. E sua história, resume bem o que é o afropolitanismo ao falar sobre a diáspora provocada pelas guerras civis, o processo de imigração e a construção de uma família em uma cultura distinta.

“Seu coração é forte. Mas não é, e ele sabe disso. Está partido em quatro pontos. Só rachaduras no começo, não tratadas por anos. Sua mãe em Kokrobité, Olu em Boston, Kofi em Jamestown, Folasadé por toda parte. Aquela mulher, que está em toda parte dele, profundamente, na fáscia, no músculo, no tecido, na matéria, no sangue. Ele está morrendo de um coração partido. ”

(Página 111).

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Pela Boca da Baleia (Sjón)

“(…) Naquele instante, percebi que aquela boca jamais cessaria de devorar, que aquelas mandíbulas jamais parariam de mastigar e que aquela língua jamais se cansaria de ser banhada no sangue de outros seres viventes. Então, teus lábios se mexeram. Esforçavas-te para dizer tua primeira palavra. E a palavra seria “eu”. Porém, o pai te cortou a palavra, dirigindo-se a mim com aquela voz ao mesmo tempo cordial e dominadora:

– Lúcifer, eis o homem! Deves obedecê-lo da mesma forma que teus irmãos…

(…)

Como é sabido de todos, não me curvei perante aquele novo bicho de estimação do pai, e por isso fui defenestrado do reino dos céus, junto com aqueles que quiseram me seguir. E a ti, criatura, lego-te, como um adeus, minha visão de ti. ”(Página 14)

É com esse prelúdio que Sjón entrega o prenúncio de sua obra. Um prenúncio um tanto pretensioso demais? Foi com essa sensação que adentrei à história de Jónas Pálmason. Inspirado por sua formação musical (talvez), Sjón é letrista e assinou canções de um álbum da Björk e de um dos filmes do diretor Lars von Trier, ele estruturou sua obra quase como uma peça musical: um prelúdio, seguido de dois movimentos, um intervalo, mais dois movimentos e a conclusão. Sem dúvidas, essa estruturação vestiu a obra de uma grandeza exacerbada. A impressão que tive é que no final das contas não havia tanto a contar sobre a história de Jónas e que todo esse rebuscamento empreendido por Sjón longe de potencializar sua história, faz é afastar o leitor que acaba não sendo cativado. Não duvido nada de que muita gente deva ter abandonado Jónas pelo caminho.

Em Pela Boca da Baleia encontramos Jónas Pálmason durante o equinócio de outono em 1635. Há quatro anos ele já está em seu exílio forçado em uma ilha isolada da Islândia. É ali, com os olhos presos no horizonte em busca do continente que lhe é proibido, que ele nos convida a enveredar-nos pelos meandros de suas reminiscências. Por que ele foi parar na ilha? Quais os seus pecados? Quais foram os interesses das pessoas que lhe impingiram o desterro? Seu fascínio pelos bezoares, que o levava a empreender caçadas por carcaças de corvos ainda em sua tenra idade? Suas leituras e a curiosidade pouco ortodoxa que o tornaram um entendedor dos males femininos e um bom curador deles? Suas experiências como exorcista que lhe renderam grande renome? Suas inúmeras incursões pelos vastos caminhos desconhecidos da ciência, pelos sagrados costumes da religião e pelas histórias fantásticas da mitologia? Toda essa mistura incongruente que está na essência da formação do povo islandês é enaltecida por Sjón enquanto amealhamos as memórias de Jónas. Continuar lendo

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