O Estranho Caso do Cachorro Morto (Mark Haddon)

Capa O Estranho Caso do Cachorro Morto Nova Ortografia V1 RB Sel

A literatura sem dúvidas tem se tornado mais inclusiva (ainda que haja ainda um longo caminho pela frente), o que é muito bom, pois ao nos colocar (leitores) na vida do outro, contribui para nos tornar mais empáticos às situações enfrentadas por ele e colabora para romper preconceitos, ou ao menos, amenizá-los.

Desde que o autismo se tornou uma condição mais conhecida do público em geral — e não duvido que os livros, séries e filmes possam ter contribuído muito para isso — o interesse em compreender mais sobre esse distúrbio só tem aumentado. E a literatura tem ressoado esse interesse. Temos livros mais técnicos, obras escritas por autistas e livros com protagonistas autistas. E as temáticas abordadas são bem amplas. Temos romance (com protagonistas adultos), romances policiais e toda uma gama de obras voltadas ao público jovem que vão dos dramas escolares até os dramas familiares envolvendo grandes tragédias. O romance de Mark Haddon pode até ser apenas mais um, mas tem seus méritos. Quer seja pelo desenvolvimento de seu protagonista, quer seja pelo fato de ter sido publicado lá em 2004, quando o assunto nem estava tão em voga assim.

Em O Estranho Caso do Cachorro Morto conhecemos Christopher John Francis Boone, um garoto de quinze anos que têm Síndrome de Asperger, uma forma de autismo. Christopher sabe de cor todos os países e suas capitais, sabe também todos os números primos até 7.507. Gosta de animais, não entende nada de relações humanas, não suporta ser tocado, não consegue mentir e não entende metáforas ou piadas.

“Números primos são o que resta quando você já jogou fora todos os seus semelhantes. Acho que números primos são como a vida. Eles são muito lógicos, mas a gente nunca descobre quais são as regras, mesmo se passar o tempo todo pensando nelas. ” (Página 23)

Uma noite Christopher encontra o cachorro da vizinha morto e acaba sendo preso acusado do crime. Liberado, ele decide descobrir o verdadeiro assassino de Wellington e escrever um livro sobre isso, afinal, porque contentar-se em ser apenas Sherlock se ele pode ser Watson também, não é mesmo?

Tudo começa com a investigação sobre o assassinato do cachorro, mas a história de Haddon se desdobra em um romance familiar. Christopher mora com o pai, a mãe morrera há dois anos. E o pai nunca fala dela. E, enquanto Christopher busca postas sobre o caso de Wellington, ele nos narra fatos do seu dia-a-dia na escola e em casa e rememora alguns fatos passados. E a trama que vai surgindo é um pouco mais intrincada. Há segredos familiares que sem querer Christopher escancara. Segredos que tiram seu mundo dos eixos e o colocam em uma grande aventura. O drama familiar é denso e a trama interessante, mas, se por um lado rolou empatia por Christopher e todas as suas coisas favoritas, que rechearam o livro de referências mil a livros (com direito a minúcias de O Cão dos Baskervilles), séries e filmes, por outro, o drama familiar não comove, faltou algo mais para tornar essa história mais emocionante. Mas, não há como negar que Haddon teve a sensibilidade necessária para abordar seu protagonista. Em algumas cenas descritas, ele realmente consegue nos colocar na pele de Christopher e nos faz penar com o garoto em algumas situações aflitivas. Em outras tantas, até que nos divertimos, porque Christopher pode até avisar que não haverá piadas em seu livro. Mas, alguns de seus comentários chegam a ser engraçados com toda sua lógica e sinceridade brutal que beira o sarcasmo, ainda que eu duvide que ele o faça propositadamente. Apesar de não ter sido A leitura (para fins de emoção e Drama recomendo Passarinha da Kahtyrn Erskine) vale a pena conferir a história de Haddon. É sempre uma experiência válida se colocar no lugar do outro e tentar compreendê-lo um pouco mais.

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Arquivado em Lendo aleatoriamente, Resenhas da Núbia

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